Lúcio de Castro: não esperem a rendição de Carol Solberg
Carol Solberg desafia o status quo do esporte para expressar suas opiniões

- Matéria
- Mais Notícias
Ernesto Cardenal foi revolucionário e poeta.
Com o perdão da redundância evidente entre revolucionário e poeta assim dispostos, um depois do outro.
Tão redundantemente.
O profeta que multiplicou multidões com seu método muito particular. E tão óbvio. Em seus sermões, apenas contava à "la gente" sobre as bem-aventuranças do Cristo. E sobre os conflitos dele com os poderosos. Não precisava de nada. O povo entendia a mensagem. Visto no espelho, lotava suas pregações. Está tudo guardado em "El Evangelio en Solentiname", que chega a doer de boniteza.
➡️ Lúcio de Castro: leia todas as colunas no Lance!
É em Cardenal que encontro a melhor tradução para tentar sintetizar o exato momento em que um sistema desenhado torto e em caminhos obscuros, afogado em um histórico de mar de lama, escândalos e tenebrosas transações ao longo dos anos, resolve punir uma atleta exemplar.
Foi o sacerdote amado por multidões de desvalidos que escreveu: "Neste mundo contaminado de pecados e radioatividade, tu não culparás a empregada da loja".
Pois foi assim que aconteceu.
Na semana que passou, a Federação Internacional de Vôlei (FIVB) puniu Carol Solberg.
Juca Kfouri deu a notícia em primeira mão.
Para ser mais exato: a atual campeã mundial, líder do ranking, atleta olímpica.
Que está de pé desde as 6h da manhã para trabalhar e assim vai até o fim do dia. Para começar tudo de novo no dia seguinte.
Não se pode falar o mesmo sobre a cartolagem.
O motivo da punição: ter se expressado politicamente ao conquistar medalha em uma etapa.
Os donos da bola não gostaram. Puniram a atleta, antes de tudo, uma funcionária do circuito. A empregada da loja.
Mas culparam.
É quando lembramos do poeta e de seu verso, parte da inacreditavelmente linda "Oração por Marilyn Monroe".
Pecado e radioatividade não faltam nas biografias dos que puniram.
Posso passar meses a fio aqui contando sobre esses pecados.
Já contei antes. Parecia que nunca acabava.
Contar essa história, que pode ser revista nas reportagens do "Dossiê Vôlei", me tomou dois anos, entre 2014 e 2015. Quanto mais se cavava, mais coisa vinha à tona.
Era um filme de ação. Corrupção, superfaturamento, empresas laranjas, verbas públicas que sumiam. A Controladoria Geral da União (CGU) confirmou tudo e foi além.
Numa ação típica de poderosos que tentam sempre ganhar pela intimidação, foram mais de 10 processos. Criminais e cíveis. Seguimos. Não tinha nada ali nesse assédio judicial que não estivesse na margem de cálculo de quem abraça esse ofício como profissão de fé.
Ganhei todos. Mas, bem sabemos sobre poderes e poderosos, poderia ter perdido todos. Não mudaria uma vírgula na certeza do que estava contado ali.
O outro lado caiu pra cima. Assim é o esporte e suas estruturas.
De uma confederação nacional, escalaram seus postos para uma federação internacional. Em outras palavras, os donos do vôlei mundial.
E das vozes.
A tentativa de mordaça em Carol Solberg, a segunda punição em pouco tempo, é parte desse show e desse script.

Uma pequena parte de um todo muito maior.
É de uma estrutura e de um sistema mundial do esporte e suas instituições que estamos falando.
De sua natureza antidemocrática.
Que se alimenta e renova exatamente nesse pacto autoritário.
Onde atletas são apenas os empregados da loja, como nos versos de Cardenal.
Sem direito a voz.
Mãos e pés de obra de organizações de histórico pouco recomendável como FIFA, COI, federações nacionais e afins.
Operando historicamente como estruturas de poder autocráticas.
Todas debaixo de um mesmo mito fundador.
"O Mito da Neutralidade". Falso como nota de três.
O mito personificado na "Regra 50" da Carta Olímpica do COI. Aquela que proíbe o que chamam de demonstrações de natureza política, religiosa ou racial em locais de competição, em amplo resumo. Ou no artigo terceiro do Código de Ética da FIFA, que impõe a neutralidade política.
Este último, defendido repetidamente por Gianni Infantino. Enquanto veste frequentemente o boné vermelho do "Make America Great Again" de Trump. Com neutralidade.
Muito além das punições diretas, essas instituições e seus aliados (inclua-se boa parte da grande imprensa mundial, sequestrada e rastejante pelos farelos dos direitos de transmissão que os amarram aos donos da bola), notabilizaram-se por criar todo um sistema de deslegitimação do discurso de atletas.
Seja pela estigmatização de que atletas são apenas um conjunto de carne e músculos a serviço da indústria e sem direito a pensar, seja pela marginalização daqueles que se manifestam. Seja pela atribuição de significados desviantes para qualquer tipo de ativismo.
Até, por fim, baterem o martelo de que o "esporte não é lugar para política".
Máxima destruída na frase que adoro citar e repetir mil vezes, dita pelo historiador uruguaio Gerardo Caetano: "quem diz que futebol e política não se misturam, ou não sabe nada ou sabe demais". Troque aqui "futebol" por "esporte" e tá bom.
O fato é que todas essas garras e mecanismos de punição são nada menos do que um poderoso mecanismo de controle social no universo do esporte.
Assim, uma punição como a de Carol Solberg é muito mais do que uma punição a Carol Solberg. E isso é tão evidente.
Desencoraja outros atletas a qualquer manifestação. Enquadra. Intimida.
Causa punição financeira, interrompe jornadas olímpicas e percursos, corrompe a paridade de armas entre os que disputam, causa danos à imagem junto a patrocinadores, e, acima de tudo, causa danos à saúde mental.
Mas dessa vez, parece que os homens de terno se esqueceram de um detalhe. Não tão pequeno assim.
Uma mulher, 38 anos, dois filhos no mundo, mantenedora.
Provedora, num mundo com signos tão arraigadamente machistas e tão pouco afeitos a provedoras, que faz com que o velho dicionário Aurélio desconheça a forma no feminino e só reconheça "provedor".
Não satisfeita, indignada com injustiças e desigualdades, meteu a cara sozinha, o saco de bolas e as redes debaixo do braço, juntou a molecada da Cruzada São Sebastião, a comunidade que vive à margem do Leblon, e fundou seu Instituto Levante.
➡️ Siga o Lance! no WhatsApp e acompanhe em tempo real as principais notícias do esporte
Dezenas, centenas de crianças excluídas vivendo o milagre do pertencimento. Sem apoio, por iniciativa solidária. Humana, demasiadamente humana, diria o poeta. Caridade? Jamais. Por política. Talvez nem Carol saiba, mas no maior exercício cristão possível. Resumido na encíclica "Populorum Progressio", do Papa Paulo VI: "A política é a mais alta forma de caridade".
Carol Solberg também se cansa, tem exaustão mental, padece porque nada faz padecer mais qualquer ser humano do que a injustiça. Mas Carol Solberg é de uma tribo feita de raros. Aquela que no momento seguinte já está de guarda alta. E pronta.
Parece que dessa vez os donos do poder apostaram errado.
Não esperem a rendição de Carol Solberg.
Filha de Isabel.

Lúcio de Castro: leia mais colunas
Lúcio de Castro escreve sua coluna no Lance! todas as sextas-feiras. Veja outras colunas:
➡️ Ninguém quis tanto ser 'o mais querido quanto o Flamengo'
➡️O jornalismo morreu um pouco na semana que passou
➡️Super Bowl: 'Nem o americano gosta disso'
➡️'Flamengo contra todos'
➡️O transfer ban do sonho americano
- Matéria
- Mais Notícias


















