Lúcio de Castro: o jornalismo morreu um pouco na semana que passou
Copa do Mundo e Olimpíadas são desafio para os jornalistas dos EUA

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"Siga o dinheiro".
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Uma única frase.
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Valeu por uma faculdade inteira para gerações de jornalistas.
Foi com ela que "Deep Throat", o "Garganta-Profunda", explicou o caminho que levaria Bob Woodward e Carl Bernstein a deixarem o rei nu.
Foi nas pegadas dela que o presidente da nação mais poderosa do mundo caiu.
Obra e benção dessa coisa chamada jornalismo. Com "J" maiúsculo, ou "caixa alta", como diria o antigo jargão.
Nas asas do Washington Post.
Provavelmente o jornal que povoou o sonho de todo mundo que veio depois. Menor do que o New York Times, mas o que importa? Destemido. Requisito básico do ofício.
O cenário de "Todos os Homens do Presidente". "Absolute cinema", como se gosta de repetir nos dias atuais. Muito mais do que isso. Um monumento ao jornalismo em forma de fita.
Robert Redford é Bob Woodward, Dustin Hoffman é Carl Bernstein.
Está tudo ali.
Toda a complexidade e, muito mais do que isso, o frenesi que é percorrer as pegadas de uma reportagem em curso.
"A paixão insaciável", "a servidão que se alimenta dos imprevistos da vida"…"A palpitação sobrenatural da notícia".
O jornalismo assim resumido por Gabo. Ele mesmo, repórter maior e o que mais gostava de ser na vida, acima até do escritor monumental. E segue Gabito:
"O orgasmo do furo". "Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensível e voraz".
Revisitar o "Caso Watergate", quando essa dupla de repórteres revelou a rede de corrupção e arapongagem da Casa Branca, é um olhar atento para tudo isso.
É se deliciar com a construção de uma apuração de rigor impecável e guardar como guia para toda vida.
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Ver os dois seguindo fielmente o conselho do "Garganta-Profunda" e montando o quebra-cabeça.
Impossível não cair na tentação e não escapar um sorriso: "como faziam aquilo tudo sem internet"? Muitos risos.
Em defesa da geração atual, um único atenuante: é fato também que "seguir o dinheiro" ficou muito mais complexo.
Aqueles dois jovens certamente não imaginariam o que viria
Teias transnacionais de empresas passeando por diversos países e paraísos fiscais, complexas estruturas de participações cruzadas, fintechs tornando clientes finais invisíveis, fundos de investimento de condomínio fechado, opacidade, lavanderias de criptomoedas, o simpático nome de "smurfing" escondendo coisa muito pior por trás, instituições de fachada e um laranjal à disposição.
Se não imaginariam naquele momento, matariam no peito hoje e manteriam a velha lição: siga o dinheiro. E o rigor para percorrer o caminho.
E chegariam ao fim do mesmo jeito.
Pois tudo isso, o mundo de quem cresceu olhando com afeto para o jornal, que aliás, também é o pano de fundo de outro filmaço, "The Post" (a história dos jornalistas do Washington Post lutando para publicar os Pentagon Papers, documentos secretos sobre o envolvimento dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã), desabou na semana que passou.
Do alto de seus estimados US$ 261 bilhões, Jeff Bezos se encantou pela ideia de destruir o brinquedinho que tinha comprado anos antes.
Anunciou a demissão de 300 jornalistas do seu Washington Post.
Tradução: praticamente inviabilizou qualquer possibilidade de que o jornal siga seu caminho virtuoso de grandes histórias, salvo ato de quase heroísmo de um ou outro na redação.
Como ninguém acha que um homem de US$ 260 bilhões na conta é um ingênuo, parece óbvio que sua carnificina periodística tem método.
Por trás dela, está um irreversível movimento de genuflexão na direção de Trump.
Uma declaração encerrando qualquer possibilidade de romantismo.
Para não deixar dúvidas, a empresa-mãe de seu conglomerado investiu US$ 40 milhões em documentário sobre a mulher de Trump. Foi o próprio diretor de "Melania", envergonhado mas de bolso cheio, que reconheceu o óbvio: fez por dinheiro. Sobre os méritos do filme, destacou a boa luz que conseguiu fazer nas filmagens. A crítica anda falando coisa muito pior.
O corte na alma do velho "Post" veio também na esteira de um presente: a redução dos impostos que o CNPJ principal do bilionário pagou. Com uma canetada, Trump sancionou lei que permitiu a tesourada em impostos corporativos.
Foi assim: de acordo com declaração do próprio Bezos em documento para a SEC, o equivalente americano à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) daqui, sua corporação viu os impostos a pagar baixarem de US$ 9 bilhões para US$ 1,2 bilhão. Ou seja, 87% de desconto.
E então sacrificou quem poderia incomodar aquele a quem deve o favor.
Mas tem algo pior: Bezos simplesmente acabou com a editoria de esportes do Washington Post.
É isso. Tem isso
No ano de Copa do Mundo, que se apresenta já com evidências de sobra dos Trump transformando tudo em um evento para os seus ganharem muito dinheiro, a editoria que investigaria isso acabou. Sem investigação, sem corrupção.

Não para por aí. Epicentro do esporte mundial até 2028, com as Olimpíadas de Los Angeles, os Estados Unidos perderam a grande referência da imprensa livre que poderia exercer o papel fundamental do ofício, de fiscalizar poderes e poderosos.
Enquanto isso, a turma de Mar-el-Lago se movimenta.
Jared Kushner, o genro, virou o mascate da Copa para o mundo árabe. Com uma placa de "vende-se tudo" na testa. Quem irá fiscalizar?
Antes de virar um moribundo, o outrora glorioso Washington Post mostrou em reportagem que o primeiro genro presidencial, sócio de um fundo de investimento que cresceu muito depois que Trump voltou para a Casa Branca, usou sem qualquer pudor a Copa do Mundo e ainda as Olimpíadas como cartão de visita para abrir os salões do Oriente Médio para a empresa dele.
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Matéria recente da tradicional New Yorker mostrou que a família Trump lucrou US$ 4 bilhões ganhos em relação direta com o cargo.
A Copa promete uma farra
Tal como aqui, o jornalismo que poderia estar na única trincheira que lhe cabe nesse momento, a da fiscalização de poderes e poderosos nos grandes eventos e em tudo, agoniza. Bezos deu o ataque final. Por aqui nem precisa tanto.
Para quem cresceu torcendo que Bob Woodward e Carl Bernstein fossem até o fim e pelo final feliz, a má notícia por enquanto é essa.
A única notícia para manter alguma esperança segue nas palavras de Gabo.
Afinal, é ele que nos lembra que a obra da profissão termina depois de cada notícia. Mas foi ele também a dizer que ela começa com mais ardor ainda no momento seguinte.
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