menu hamburguer
imagem topo menu
logo Lance!X
Logo Lance!

Lúcio de Castro: ninguém quis tanto ser 'o mais querido quanto o Flamengo'

Como se construiu o clube popular

Torcida do Flamengo
imagem cameraTorcida do Flamengo durante jogo contra o Ceará, antes da confirmação do título do Brasileirão (Foto: Adrian Fontes/Flamengo)
Autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, esse texto não reflete necessariamente a opinião do Lance!
Dia 20/02/2026
07:00

  • Matéria
  • Mais Notícias
Conteúdo Especial
Carregando conteúdo especial...

Temos histórica dificuldade para construir mitos e ídolos por aqui. Os séculos de nossa história mostram isso.

Enquanto países mínimos conseguem ter os pais da pátria em um panteão sagrado, no Brasil os poucos que chegaram lá muitas vezes foram construções artificiais, de cima para baixo, castelos de areia desprovidos de base popular.

continua após a publicidade

Alguns até por imposição da caserna.

Não foram diferentes os anos 30 do século passado.

Embora algo estivesse acontecendo que fugisse a esse padrão.

Três gigantes em popularidade dividiam a cena e os holofotes de então, cada qual em sua área. E iam construindo junto ao povo esse imaginário de heróis.

➡️ Lúcio de Castro: leia todas as colunas no Lance!

Goste-se ou não. Reclame com os compêndios se for o caso.

Getúlio construía ali as bases do "pai dos pobres" até um dia sair da vida para entrar em definitivo na história. Nos braços do povo, no cortejo fúnebre que parou o Catete, o Rio e o Brasil naquele agosto de 1954.

continua após a publicidade

A comoção popular sem precedentes que acompanhou a última viagem. Um milhão entre o palácio presidencial até o Santos Dumont, e dali para São Borja.

Orlando Silva arrebatava a massa como nunca tinha sido visto. O fenômeno "pop" antes mesmo de falarmos em "pop". O aposto que o acompanhou resume seu tamanho: "O Cantor das Multidões". E era.

continua após a publicidade

O terceiro e definitivo que fecha a santíssima trindade de ídolos daquele momento da vida brasileira talvez não caiba em uma coluna.

Leônidas da Silva foi o ídolo antes dos ídolos.

O primeiro jogador de futebol a transcender as quatro linhas.

O primeiro jogador de futebol a virar um superstar.

O primeiro jogador de futebol a estrelar uma campanha publicitária.

"O Diamante Negro".

Virou chocolate. Está até hoje por aí.

A fama ultrapassou em muito os limites da Praia Formosa, que já não existe no bairro carioca de São Cristóvão.

Leônidas levava multidões aos estádios. Levava e convertia multidão em devotos.

Leônidas da Silva na Seleção (Foto: Reprodução)
Leônidas da Silva na Seleção (Foto: Reprodução)

Basta ver as publicações da época. Aquilo que anos depois o Santos de Pelé faria, levando público que não era santista aos estádios, o "Diamante Negro" inaugurou nos anos 30.

Vestindo vermelho e preto.

A estupenda performance na Copa da França em 1938, com 4 gols em 7 jogos bateu ainda mais o tambor.

E foi juntando gente em torno do vermelho e preto. Atrás de Leônidas.

Que, não planejadamente, por pura genialidade, e o supremo poder da criação que separa os gênios dos mortais, inventou um lance que chocou o mundo.

Nunca tinha se visto nada mais espetacular nos campos. O corpo esticado no ar, a perna esmurrando a bola em uma solução impossível.

"Bicicleta".

Nenhum gênio do marketing poderia ter pensado naquilo. Leônidas talvez também não. Apenas fez.

Negro, a cara do povo daqui. A multidão foi chegando.

Um peso enorme na balança rumo a construção do "mais querido".

Junte a Leônidas no Flamengo, outros dois craques também populares: Domingos da Guia, e Fausto, "a maravilha negra". E entenda como essa multidão foi se formando.

Mas imaginar que só Leônidas fez tudo aquilo seria uma péssima tentativa de contar a história. Ou mesmo os outros dois.

O "advento Leônidas" foi possível porque existiu um sujeito primordial na história do Flamengo para que tudo isso acontecesse. José Bastos Padilha foi presidente do Flamengo entre 1933 e 1937.

Publicitário numa época em que isso era algo quase fora do catálogo de profissões, foi dele a série de ações definitivas para que o Flamengo virasse o clube do povo. Mais do que uma série de ações: um projeto.

Muito diferente de como havia nascido. Do seio da elite, como quase todos os clubes de futebol do Brasil.

Ser Popular: um projeto, uma opção. Populista jamais

Padilha tinha um plano: romper com aquilo.

E assim fez.

Não faltam trabalhos acadêmicos do mais alto rigor e excelência contando essa história. Não faltam livros.

Obras fundamentais, como "Um Flamengo grande, um Brasil maior – O Clube de Regatas do Flamengo e o imaginário político nacionalista popular", de Renato Soares Coutinho. Ou "Por que Flamengo", de Marizabel Kowalski. Ou consultar coleções como a incomparável Hemeroteca Digital, da Biblioteca Nacional, programa que faz qualquer um perder horas em arquivos.

Orgulhosa, vaidosa como nenhuma outra, a torcida que adora se olhar no espelho e gritar "que torcida é essa", virou uma nação pelas mãos de Padilha.

Quando, nos anos 30, que o Flamengo escolheu ser o clube do povo.

Não é pouca coisa. Em um Brasil que até hoje teima em sua opção preferencial pelas elites, que ainda hoje considera o mais pobre que melhora de vida uma afronta, que acha insuportável qualquer inclusão social, mesmo que isso não confronte em um dedo seus ganhos estratosféricos herdados desde sempre, aquela escolha lá dos anos 30 é incomparável sob o ponto de vista do simbólico.

E explica tudo. Como um time sediado em uma cidade menor pode ter mais torcida do que um time de cidade muito maior? E tantas outras interrogações.

Que conduzem inexoravelmente o Flamengo ao campo popular. O mais popular, termo aqui propositalmente marcado abrindo fraternal e respeitosa divergência com Pedro Bial, gigante do ofício. Que, no programa no canal TVT, de um dos santos de devoção do meu altar na profissão, Juca Kfouri, argumentou que o "Flamengo é populista e não popular".

Rubro-negros comparecerão em bom número diante do Palmeiras, no Maraca (Foto: Gilvan de Souza / Flamengo)
Torcida do Flamengo no Maracanã (Foto: Gilvan de Souza / Flamengo)

Oxalá ainda dê tempo nesse país para as mais saudáveis divergências se abrirem no campo das ideias e terminarem, se possível, com o afeto que se iniciam.

Pois vejamos a obra de Renato Soares Coutinho acima citada, de grande riqueza na formulação de ideias que confrontam frontalmente essa noção que associa o Flamengo ao populismo e não ao popular.

De acordo com o autor, "não são poucos os trabalhos que recorrem ao termo populismo para tratar da relação entre Estado e torcedor de futebol. Mesmo quando o termo não está explícito, a ideia central está presente: a fragilidade da classe trabalhadora brasileira". Uma visão contestada por "atribuir ao trabalhador incapacidade de tomar decisões autônomas", que reproduz visões paternalistas e destacam "a fragilidade do trabalhador".

Um ideia que, ao fim, representa o sentimento de que "o futebol poderia desorganizar os movimentos operários, criando rivalidades. Entre os operários, por outro lado, não havia discernimento para desvendar os estímulos dos dominantes, fato que determinou o fracasso das lutas operárias e sindicais". Mais do que isso: "a sedutora ideia de que as manifestações populares são meras concessões das camadas dirigentes, que servem para domesticar o trabalhador". A velha convicção de que os dominantes
agem e os dominados são passivos.

Renato Soares Coutinho vai além sobre a ideia da associação entre o Flamengo e populismo:

"A frequente combinação do Flamengo com o populismo permite a seguinte conclusão: sendo o Flamengo o clube associado ao trabalhador, inevitavelmente a sua torcida será a representante da debilidade dessa categoria. Não à toa, o torcedor do Flamengo é retratado como 'burro', 'alienado', 'favelado', ou 'filho da mídia' pelos outros clubes. Sendo o clube da massa populista, cabe ao rubro-negro o papel de torcedor mais alienado do futebol". Definitivo ao mostrar a distorção de quem comete tal ato. E aí, cuidado: quem associa o Flamengo ao populismo, pode, ainda que sem querer, estar incorrendo em tais atos: retratar seu torcedor como "favelado" ou "burro, alienado". Ou seja: um elitista desprezível.

Em resumo, tais teorias que abraçam a definição de "populista" para o Flamengo, seriam, ao fim, da mesma natureza que as abordagens que tratam o futebol como "ópio do povo".

Curiosamente, o trabalho, que não deixa margem de dúvidas quanto ao projeto popular do Flamengo e jamais populista, já foi usado por aí recentemente (e aqui já não falamos sobre a fala de Bial) para distorcer seu sentido original. Qualquer obra pode ser vítima de recortes desonestos que pretendem legitimar teses canhestras, e, até, com perdão da má palavra, fedorentas.

Frei Betto, dominicano de coragem, personagem da história do Brasil, costuma usar a expressão "pescadores de versículos" para tratar daqueles que recortam a bíblia para dar o sentido que querem e assim usarem o livro sagrado com as piores intenções. Nesse debate entre o popular x populismo ligado ao Flamengo, a obra citada tem sido vítima de pescadores de versículos que distorcem seu óbvio sentido. Quando não há dúvidas quanto ao recado. E quanto a esse Flamengo popular, jamais populista.

Muito pelo contrário, esses anos 30 que rompem essa origem elitista foram um projeto. O projeto que, na poética síntese de Mário Filho, permitiu ao Flamengo "deixar ser amado". Por "la gente", tomando emprestada a boa forma como os argentinos gostam de chamar a massa, o povo.

A reinvenção do Flamengo

O projeto do então presidente do Flamengo foi muito mais do que um projeto. Foi a reinvenção do Flamengo. Foi o caminho que fez a transição do clube que nasceu elitista como quase todos os outros por aqui e se fez popular.

O citado projeto era simples. Porém brilhante: com slogans, concursos e eventos, criava uma nova identidade para o clube.

Andando junto com o que acontecia no Brasil no governo Vargas, juntando-se a valores do nacionalismo popular ali difundidos. O Flamengo passava a assumir todo o capital simbólico da "nova raça brasileira". Os valores do trabalhador.

Dos concursos, a frase "Pelo Brasil e pelo Flamengo" ganhando corações e mentes.

Imaginar que a Rádio Nacional respondeu por isso quase como se fosse um processo de abiogênese, ou seja, a teoria da geração espontânea, soa um tanto infantil. Sim, a Rádio Nacional teve peso. Mas muito mais porque ela foi o veículo de uma campanha muito bem elaborada. O que é muito mais razoável do que se imaginar do que o contrário.

Uma campanha, vale sempre repetir, fruto de uma opção.

Os trabalhos acadêmicos sobre o tema não deixam dúvida: a grande diferença nessa construção, porque um virou e os outros ficaram para trás, lugar onde estão até hoje, foi o momento. E a estratégia de cada um, como abraçou o projeto de popularização.

A forma como cada um escolheu se desvincular do elitismo original de quase todos. Ou como escolheu não se desvincular, que é, para uns, um fato e realidade até hoje.

Um outro momento dessa década é também primordial: a decisão de aderir ao profissionalismo em 1933. Divisor de águas. Foi assim que os craques negros puderam vir. Os já citados Leônidas, Domingos da Guia e Fausto. Em seu trabalho, Renato Coutinho é definitivo ao mostrar que essa decisão vai criar um canal de identificação direto com as camadas populares. Que assim passaram a se ver representadas no time.

➡️ Siga o Lance! no WhatsApp e acompanhe em tempo real as principais notícias do esporte

Sim, como falamos, teve a Rádio Nacional. Assim como teve o Jornal dos Sports. Mas por trás deles, a opção do Flamengo. Foram apenas (e isso é muita coisa), veículos dessa opção.

Rubro-negro, Mário Filho abraçou a causa. O seu "cor-de-rosa" ampliava por exemplo o Fla x Flu como "o jogo do patrão contra o operário". Não é preciso dizer onde a massa se via representada. Espelhada na nova identidade rubro-negra.

Foi assim. Uma construção. Um desejo.

Como tudo na vida, uma luta, um processo.

A construção de um clube que quis ser popular. Abraçou isso e foi abraçado pelo povo.

Quis muito. Um desejo.

Deu nisso. O mais querido.

Popular, nunca populista.

Resultado das escolhas históricas e simbólicas de cada um.

Lúcio de Castro: leia mais colunas

Lúcio de Castro escreve sua coluna no Lance! todas as sextas-feiras. Veja outras colunas:

➡️O jornalismo morreu um pouco na semana que passou
➡️Super Bowl: 'Nem o americano gosta disso'
➡️'Flamengo contra todos'
➡️O transfer ban do sonho americano
➡️ A Copa do Mundo do Dirceu Borboleta

  • Matéria
  • Mais Notícias