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Lauter no Lance!: Evoé, Lucas, o admirável homem das neves! 

O dia em que um norueguês sambou na neve em pleno carnaval

Lucas Pinheiro Braathen reage após a segunda descida do slalom gigante masculino nos Jogos Olímpicos de Inverno 2026. (Foto: Fabrice Coffrini/AFP)
imagem cameraLucas Pinheiro Braathen reage após a segunda descida do slalom gigante masculino nos Jogos Olímpicos de Inverno 2026 (Foto: Fabrice Coffrini/AFP)
Autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, esse texto não reflete necessariamente a opinião do Lance!
Dia 18/02/2026
22:21

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Eram 6 da manhã de um sábado de Carnaval como outro qualquer. Hordas de foliões, já fantasiados e quase bêbados, a caminho de megablocos para chamarem de seus, e o sol já nascido cedo nos fazia buscar o lado sombrio de nosso verão. Aliás, pela intensidade que se mostrava o Astro Rei, acho que a profecia de Nando Reis e Cássia Eller, havia se tornado realidade, o Segundo Sol chegou, para dar uma forcinha pro Primeiro.

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Como eu já estava (creiam) de pé desde as 5 horas, para ajudar a despachar filhos para uma paradisíaca Ilha Grande (não confundam com a versão Pacífica, que é Kona, a Big Island havaiana) da nossa Costa Verde, aproveitei o embalo insone e me postei em frente à TV pra assistir um dos meus "xodós" (os outros são Cross Country, Biathlon, Combinado Nórdico e Patinação de Velocidade, em todas suas versões) dos esportes de inverno, o Slalom Gigante, numa pirambeira de dar gosto, lá pelas bandas da Lombardia. Era a primeira, de duas, rodada da prova masculina, onde poderia acompanhar o brasileiro, sim, naturalizado desde pequeno, filho do norueguês Bjorn Braathen, com a brasileiríssima Alessandra de Castro, natural de Campinas.

No sorteio, o frio (lógico, nevava no momento) na barriga: ele abriria os serviços, seria o primeiro a descer. E Lucas voou morro abaixo. Enquanto isso, no Morro da Mangueira, a alvorada era marcada com o solitário batuque de um "surdo de marcação", anunciando o nascer do carnaval. E nas batidas aceleradas do coração brasileiro de Lucas, ao final de todas as descidas dos adversários, estava decretado: Lucas foi o mais rápido! Todos levam seus tempos para serem somados aos tempos da rodada final, daqui a pouco. Eu olho pra fora, e vejo um sábado de carnaval a derreter a cidade.  

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Calculei o tempo, e com a ajuda do Marcelo Apovian (Lello para os íntimos), ótimo comentarista, esquiador e maratonista de classe, quase um Mestre Sala dos asfaltos, que nos segreda que lá pelas 9 e tanto da manhã será a descida de Lucas, o nosso "Pierrot" apaixonado pelo Brasil e pela neve. Tantos paradoxos em tão pequena frase!

E Lello, desculpe a intimidade, acho que fomos colegas de uns quatro Jogos de Inverno, lá no Canal Campeão, que pecou economizando canais para a cobertura dos Jogos de Inverno, muita coisa boa está sendo perdida por conta disso. Lutamos tanto para maior espaço para esportes de qualidade, nos segreda que o tempo de Lucas foi tão assombroso (quase como uma Maratona Sub 2 horas, no Rio ou São Paulo) que ele entra, além de, por ser o último, já sabendo se desce conservador ou quebrando a banca, e com "gordura pra queimar", o que é ótimo com tamanho frio lá no norte do norte da Itália, uma gordurinha pra queimar não tem preço. 

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Lucas Pinheiro Braathen, do Brasil, compete e sai da primeira descida do slalom masculino no Centro de Esqui Stelvio, em Bormio (Valtellina), nos Jogos Olímpicos de Inverno Milano Cortina 2026, em 16 de fevereiro de 2026 (Foto: Fabrice Coffrini/AFP)
Lucas Pinheiro na descida do slalom masculino nos Jogos Olímpicos de Inverno Milano-Cortina 2026 (Foto: Fabrice Coffrini/AFP)

Apoteose brasileira na Itália

Enquanto isso, o sábado de carnaval amadurecia ao sal e ao sol. Praias lotadas, ruas (de Ipanema, Copacabana, Botafogo, Catete, Centro e Santa Tereza, credo!) que mais pareciam rios caudalosos de gente, que me fizeram lembrar de Paulinho da Viola (foi um Rio que passou na minha vida, talvez já prevendo as mazelas anuais que costumam afundar a cidade, em água e euforia...). E os barracões das escolas, pareciam fábricas de gente, em turnos sem fim, cujo fim real se chamava Apoteose. 

A apoteose brasileira nas cercanias de Cortina d'Ampezzo, lá pertinho da Áustria, amadurecia a cada minuto, à cada descida de cada um dos 80 competidores que iam ficando para trás, crescia a profecia de Lello. Faltavam ainda uns 20 adversários, os 20 últimos, portanto, os 20 mais capazes de nos roubar o ouro!  

Sim, larguei a sandália franciscana de Nelson Rodrigues e assumi todo o nosso favoritismo tropical, mesmo distando naquele momento uns quase 50ºC, entre o carnaval nos morros cariocas, e as colinas Lombardas dos Jogos de Inverno. Comecei a notar (e anotar) semelhanças que ligavam aquele sábado de Carnaval com um sábado no meio da neve dos Jogos Olímpicos de Inverno.

Tem norueguês no samba

É, depois de sábado passado (teclo estas frígidas linhas na Quarta-Feira de Cinzas, dois dias após Lucas se apresentar no que seria, segundo o que disseram todos os experts, uma prova em que Lucas tinha mais chances de ouro do que no Gigante Slalow. Mas ele, folião de raça que é, não conseguiu completar, era Carnaval ainda em sua alma!), os Jogos Olímpicos de Inverno, nunca mais serão os mesmos! O Hino Nacional Brasileiro foi ouvido, pela primeira vez, e nossa primeira medalha já foi de ouro. Um nórdico com alma tupiniquim, cabeça nas nuvens e samba nos pés, virou lenda!  

Sambou e pulou no pódio, cantou, entre lágrimas, seu novo hino, sorriu o sorriso de Vilminha e o riso tímido de Martinho. Lucas, debaixo de uma chuva de flashes e flocos de neve, naquele sábado de Carnaval, foi dez, nota DEZ!!!

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Lucas Pinheiro Braathen beija a medalha de ouro no pódio do slalom gigante masculino em 2026. (Foto: Fabrice Coffrini/AFP)
Lucas Pinheiro Braathen beija a medalha de ouro no pódio do slalom gigante masculino em 2026. (Foto: Fabrice Coffrini/AFP)

Assim 'nasceu' o neo-brazuca

Mas como surgiu este neo-brazuca que derrotou todos seus ex-compatriotas, noruegueses de montão, austríacos e suíços vizinhos de porta de Cortina d'Ampezzo, suecos enraivecidos e alemães cartesianos?  

Lucas costumava passar suas férias, muitas vezes, no Brasil, especificamente entre Campinas e São Paulo. E sonhava ser jogador de futebol! Ao crescer, antes de entrar na vida universitária, começou a competir em provas de esqui, mais precisamente no radical downhill. E cresceu rápido neste esporte, mostrou muita habilidade e sangue frio. Participou, de forma discreta, de algumas competições internacionais dentro da Europa. Até que, no circuito mundial de 2022/2023, ele conseguiu, em 20 etapas, subir ao pódio em sete delas, chamando a atenção do mundo do esqui.

Mas, no início da temporada 2023/2024, já sendo considerado um dos grandes nomes do esqui alpino mundial, numa entrevista coletiva concorridíssima, Lucas surpreende, como na "paradinha da bateria" de Mestre André, ou num samba de breque do Kid Morengueira, e diz, categórico, que vai dar um break!

Por divergências com a Federação Norueguesa, Lucas tira o time de campo. Larga tudo e vem para sua segunda (que passa a ocupar a liderança, na vida de Lucas) moradia, passando uma longa temporada em Ilhabela, só retornando à Europa no fim do ano para participar em alguns eventos locais. E sente vontade incontrolável de voltar ao esporte. Mas, dessa vez, fazendo valer a sua outra cidadania, que a tem desde pequeno. Queria defender o país de sua mãe, de seus primos e amigos. O surdo de marcação volta a bater, mais rápido e mais forte. Lucas quer desfilar, digo, competir pelo Brasil. Lucas quer o ouro, de uma prova essencialmente alpina, para o Brasil, um país tropical, quente por natureza! 

Ouro conquistado. Alguma coisa fora da ordem mundial (ok, Caetano), não cobicemos mais ouros ou pódios. Esta é a enorme parte do latifúndio gelado dos confins de Bormio, cidadezinha gelada, que jamais se esquecerá do dia em que um norueguês/brasileiro, ganhou um ouro em Jogos de Inverno. Lucas competiu como um norueguês voador, e comemorou como um brasileiro no carnaval! 

Agora vamos com calma nesta descida. Não haverá um boom de Esqui, muito menos Slalom Gigante. Sequer nascerão centenas de projetos esportivos/sociais para aprendizado de esqui. Nem iremos, em uma década, nos tornar uma potência olímpica (nem Verão, Inverno, sequer primavera ou verão). Mas podemos continuar, na mesma época em que acontecem os Jogos de Inverno, sendo únicos nas folias de Carnaval!

Da esquerda para a direita, Marco Odermatt (prata), Lucas Pinheiro Braathen (ouro) e Loic Meillard (bronze) celebram no pódio do slalom gigante masculino em 2026. (Foto: Fabrice Coffrini/AFP)
Da esquerda para a direita, Marco Odermatt (prata), Lucas Pinheiro Braathen (ouro) e Loic Meillard (bronze) celebram no pódio do slalom gigante masculino em 2026. (Foto: Fabrice Coffrini/AFP)

Cidadania nata

Já que estamos numa coluna de ESPORTES, podemos falar de uma "jogada olímpica", que muitos países usam e abusam há tempos: 

A tal da "Cidadania não Nata": Quando um cidadão habilidoso para determinados esportes, por questão meramente olímpica, inspiração desportiva, aceita adquirir cidadania de outro país, mesmo sem ter pais natos (nascidos no país de destino!), são conhecidos primariamente como cidadãos não natos. 

Tal conduta costuma ganhar fama sazonalmente quando a "oferta", em algumas modalidades, se torna tentadora (quanto mais possíveis não natos existirem em determinados esportes, mais barato será o investimento).

Assim acontece no nordeste da África, com fundistas e maratonistas do Quênia, Etiópia, Uganda, Tanzânia... No Tênis de Mesa, de matriz enorme e única, a China é a maior produtora e exportadora de mesatenistas. Mas, de vez em quando, aparece um Hugo Calderano para estragar um pouco a festa dos chineses globalizados. E o que dizer dos saltadores (triplo e distância) de Cuba, como também nos jogadores de voleibol da ilha. Lembremos dos muitos velozes jamaicanos americanizados? E as centenas, ou milhares atletas de provas de campo do atletismo espalhados pelo mundo a partir do fim da União Soviética.

Mas, sem querer (até porque não é preciso) defender a importação de Lucas, porque o desejo veio dele, depois de um duro ano sabático, que já tinha cidadania brasileira desde criança, bastava apenas a cidadania esportiva, onde o Comitê Olímpico Norueguês se portou dignamente liberando Lucas para que migrasse junto com ele todos os muitos pontos alcançados nas muitas etapas do Circuito Mundial de slalom G.

Portanto, aproveitemos para celebrar. Foi uma adesão de sucesso tão grande que conseguiu aproximar dois polos distantes e distintos: o norte da Itália e suas brancas e gélidas nevascas, e o Rio de Janeiro, em pleno Carnaval, onde um norueguês se acabou de sambar no lugar mais alto do pódio olímpico.

Sonhos de mil foliões

Durante a transmissão da premiação juro ter ouvido ao fundo o mesmo "surdo de marcação" que, agora de forma frenética, marcava a alegria tropical em plena neve.

Hoje, Quarta-Feira de Cinzas, tarde caindo abafada, pode-se ouvir também, claramente, ao pé do Morro da Mangueira, enquanto Cartola fuma indolente seu cigarro e acompanha hordas de cigarras, e chama Zica para ouvir com ele, o som sincopado, a batida lenta e firme do bumbo, que desacelera marcando o fim da folia.

Evoé, Lucas. Volte sempre!

"...Não era noite, não era dia / Só madrugada, só fantasia / Só morro e samba, viva Maria / Quem sabe a sorte lhe sorriria / E um dia viria de porta-estandarte / sambando com arte, puxando cordões / e em plena folia de certo estaria / Nos olhos e sonhos de mil foliões..."

Maria Carnaval e Cinzas, 1967

Autor: Luiz Carlos Paraná/intérprete: Roberto Carlos

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