30 anos depois, Edinanci revisita trauma e pede acolhimento no esporte
Judoca relembrou carreira vitoriosa nos tatames e fez alerta sobre testes de gênero

Às vésperas de completar 50 anos, Edinanci Silva decidiu fazer algo que, durante muito tempo, não se sentia pronta: olhar novamente para algumas das partes mais dolorosas de sua própria história. A judoca, pioneira do Brasil nos Jogos Olímpicos, revisitou memórias da infância, da carreira e do processo que enfrentou para disputar Atlanta 1996.
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O resultado dessa experiência foi a biografia "Edinanci Silva, Mulher Forte Sim Senhor", escrita pela jornalista Helena Rebello, e lançada na última sexta-feira (21), em São Paulo. Natural de Sousa, no sertão da Paraíba, a judoca sempre se considerou muito "bicho do mato" para conversar com a imprensa. O forte preconceito e a exposição pública de sua condição de intersexo fizeram com que ela evitasse ainda mais os holofotes.
— Foram 50 anos para tomar coragem e vergonha na cara de contar a minha história. Tiveram muitos pontos que eu tive que resgatar e foram muito doloridos. Cicatrizes que a gente tem que apertar pra sentir a mesma dor e relembrar todo o processo. Fica o orgulho de criar coragem para respirar e encarar esses fantasmas que estavam ali no passado - contou Edinanci.
Apesar da dor, Edinanci faz questão de lembrar que sua trajetória não é feita apenas de histórias tristes. Atleta de judô desde os 15 anos, ela se tornou a primeira mulher brasileira a disputar quatro edições de Olimpíadas (Atlanta 1996, Sidney 2000, Atenas 2004 e Pequim 2008), alcançando o quinto lugar como melhor resultado. Conquistou duas medalhas de bronze em Campeonatos Mundiais e foi bicampeã dos Jogos Pan-Americanos. Em 2025, foi oficialmente eternizada no Hall da Fama do Comitê Olímpico do Brasil (COB).
— É muito importante deixar tudo isso documentado, não só a minha história, mas a de todos aqueles que fizeram parte dessa caminhada comigo. Técnicos, amigos... Desafetos também, que colaboraram muito para que eu pudesse me reinventar e me superar - completou.

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O trauma de 1996 que ainda reverbera
Às vésperas de disputar as Olimpíadas pela primeira vez, Edinanci enfrentou um episódio que marcou sua vida pessoal e carreira: descobriu que era, desde o nascimento, uma pessoa que tinha características biológicas tanto femininas quanto masculinas. Em 1996, ano dos Jogos de Atlanta, ela passou por cirurgia para retirada dos testículos internos — um procedimento que protegeria a saúde da atleta no futuro e permitiria que ela passasse nos "testes de feminilidade" exigidos pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) à época.
Alvo de muito preconceito no final da década de 1990, Edinanci não se surpreende ao ver as discussões sobre gênero no esporte serem revisitadas trinta anos depois. Em 2026, o COI anunciou que exigirá testes genéticos para a elegibilidade de mulheres nos Jogos Olímpicos. Políticas semelhantes foram adotadas pela WTA e, no Brasil, pela Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), restringindo a participação de atletas trans na modalidade.
— A humanidade é isso, de tempos em tempos a gente redescobre dilemas na sociedade, que a gente precisa sentar, respirar, e discutir com calma. Hoje a gente percebe que ainda existe esse debate em outras áreas, como o caso da transexualidade e outras questões também ligadas à genética. O meu caso foi algo que impactou muito dentro do esporte e na socidade também, foi muito discutido. Nós, como seres humanos, temos que acolher e não criar bolhas sociais - pontuou.
A preocupação de Edinanci é justamente evitar que outras atletas vivam a mesma exposição e constrangimento que enfrentou no passado. Por isso, defende que entidades esportivas tenham papel ativo para que o debate avance sem que uma pessoa seja transformada em alvo de ataques públicos.
— As confederações e federações precisam conscientizar os atletas também, para que não se criem bodes expiatórios dentro do esporte, para que não se crie um sensacionalismo e um ponto de fragilidade que algum desafeto ou político possa usar para radicalizar ainda mais o discurso. É nosso papel dentro e fora do esporte levantar essa bandeira e discutir esses assuntos pra poder chegar à melhor decisão - finalizou.
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