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Gestão Esportiva na Prática: o estatuto como arma ou como proteção. Por que a maioria dos clubes ainda se sabota por dentro

Como a origem amadora, a arquitetura de poder e a resistência à mudança explicam a instabilidade crônica do futebol brasileiro

SAFs e Gestão Esportiva (Foto: Imagem gerada por Inteligência Artificial)
imagem cameraA chegada das SAFs mexeu com os clubes e com o futebol brasileiro (Foto: Imagem gerada por Inteligência Artificial)
Autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, esse texto não reflete necessariamente a opinião do Lance!
Dia 21/01/2026
09:31

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Onde tudo começou

O futebol brasileiro não nasceu profissional. Nem estruturado. Muito menos planejado. Nasceu dentro de clubes sociais, em ambientes amadores, onde muitas vezes nem era o esporte principal. Eram associações recreativas, sustentadas por mecenato, paixão e voluntariado. Cresceu a partir de rivalidades municipais, que se tornaram regionais, depois estaduais e, por fim, nacionais. Dentro desse improviso, o futebol explodiu como fenômeno popular.

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O atleta evoluiu. O clube ficou para trás

O crescimento foi tão rápido quanto desorganizado. A CLT foi promulgada em 1927. Em 1930, o jogador de futebol já era reconhecido como profissional. Mas os clubes não acompanharam essa evolução. O atleta virou trabalhador. O clube seguiu amador. Essa assimetria estrutural nunca foi corrigida. Apenas foi empurrada com a barriga.

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Estatutos de bairro para instituições de massa

O futebol virou paixão nacional, indústria bilionária, ativo cultural e econômico do país. Mas as instituições que o sustentam continuaram regidas por estatutos desenhados para outra era. Documentos pensados para clubes de bairro, não para organizações com milhões de torcedores, exposição internacional e impactos financeiros gigantescos.

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Poucos decidem por muitos

O resultado é um paradoxo que beira o absurdo. Instituições com milhões de apaixonados têm seus destinos decididos por poucos milhares de votos. A disputa pelo poder se dá em arenas políticas pequenas, fechadas, muitas vezes capturadas por grupos internos, enquanto a responsabilidade é pública, ampla e histórica. Isso não é detalhe técnico. Isso é o puro suco da arquitetura de poder.

O futebol como objeto de desejo político

E é por isso que a independência do futebol dentro dos clubes segue sendo tão difícil. O futebol é o maior ativo. O maior palco. O maior objeto de desejo. Onde há poder, há disputa. Onde há disputa, há resistência à mudança. Estatutos não são neutros. Eles protegem ou aprisionam.

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Libra tem discutido a divisão das receitas para a criação da Liga (Foto: Rodrigo Corsi/FPF)
Libra tem discutido a divisão das receitas entre os clubes para a criação da Liga (Foto: Rodrigo Corsi/FPF)

A SAF como janela, não como muleta

Nos últimos anos, a chegada das SAFs abriu a maior janela de oportunidade institucional da história do futebol brasileiro. Não apenas para quem decidiu se transformar, mas também para quem escolheu permanecer como associação. A SAF escancarou a fragilidade dos modelos antigos, expôs as distorções de governança e colocou luz sobre algo incômodo: não dá mais para gerir futebol moderno com regras do século passado.

Alguns clubes usaram a SAF para reconstruir estruturas, separar política de gestão, profissionalizar decisões e criar mecanismos de proteção institucional. Outros apenas trocaram de dono e mantiveram velhas práticas com nova embalagem. A diferença não está na lei. Está na coragem de reformar o sistema por dentro.

A reforma que ninguém quer fazer

E aqui está o ponto central. A SAF não é o fim da discussão estatutária. Ela é o começo. Mesmo os clubes que optarem por não se transformar precisam revisar seus estatutos, redefinir pesos e contrapesos, qualificar seus conselhos, blindar a gestão do personalismo e criar regras que protejam a instituição do humor do cargo.

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Mudar estatuto é uma das tarefas mais difíceis na vida de um clube. Porque não se mexe apenas em artigos. Mexe-se em privilégios, em zonas de conforto, em feudos históricos. É cirurgia sem anestesia. Mas é a única forma de separar clube de cargo, instituição de indivíduo, futebol de política interna.

O ciclo que insiste em se repetir

Enquanto isso não acontecer, seguiremos tentando profissionalizar organizações com base amadora, cobrar performance de estruturas frágeis e exigir estabilidade de sistemas desenhados para instabilidade.

Não existe gestão forte com estatuto fraco.
Não existe projeto de longo prazo com poder mal distribuído.
E não existe independência do futebol sem coragem política para reformar o próprio jogo.

O futebol brasileiro não é refém apenas de calendário, arbitragem ou dinheiro. Ele é, antes de tudo, refém das próprias regras internas que se recusa a atualizar.

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Felipe Ximenes escreve sua coluna no Lance! todas as quartas-feiras. Confira outras postagens do colunista:

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