Análise Tática do Guffo: o moedor de técnicos e a falência da inteligência tática
Anselmi, do Botafogo, é o mais novo treinador demitido do mercado

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O futebol brasileiro não demite técnicos; ele descarta processos. A demissão de Anselmi do Botafogo, e o que vimos neste início de Brasileirão 2026 (Filipe Luís, Tite, etc), é a repetição de uma patologia que nos mantém no subdesenvolvimento tático: a gestão por pânico. Enquanto o mundo discute modelos de jogo e evolução sistêmica, nossos dirigentes seguem operando com a memória de um peixinho dourado, limitando a análise de um trabalho à janela emocional dos últimos quatro jogos.
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Os números são um soco no estômago da lógica. Permanecer no cargo por uma média de 65 dias não é um projeto; é um estágio probatório mal remunerado emocionalmente. O estudo de econometria de Matheus Galdino de 2018 é definitivo: a troca constante não garante vitórias. No máximo, gera um "fato novo" no primeiro jogo, mas o impacto real no longo prazo é nulo. O clube gasta milhões em multas rescisórias para comprar uma ilusão de mudança, enquanto o nível tático da equipe é resetado, obrigando os jogadores a uma fadiga de adaptação que destrói qualquer coesão coletiva.
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Tática demanda tempo de trabalho
Taticamente, o prejuízo é incalculável. Um time precisa de repetição para coordenar gatilhos de pressão e rotas de saída. Quando um treinador cai, cai junto a linguagem comum do elenco. O jogador para de interpretar o espaço e passa a operar em modo de sobrevivência, com medo de errar e ser o próximo "queimado" pela nova metodologia que virá na segunda-feira. Internalizar movimentos e rotinas leva tempo e repetição. O atleta precisa ter o direito de errar para aprender e corrigir. E assim evoluir individual e coletivamente.
O mais bizarro é que a demissão no Brasil é especulativa, não resultadista. Como aponta a pesquisa, se o dirigente "acha" que o time deveria vencer — baseado em uma expectativa inflada e desconectada da realidade do elenco — o risco de demissão sobe 36% após um tropeço. Se Guardiola ou Klopp treinassem por aqui, seriam demitidos por não entregar o que a diretoria "supõe" que ele deveria entregar, sem qualquer avaliação de contexto, lesões ou calendário. É o triunfo do achismo sobre a ciência do esporte.
A cultura do "extintor de incêndio" também ignora o custo invisível: o burnout dos atletas. O estresse crônico de mudar de filosofia de trabalho três vezes por ano gera exaustão física e mental. O atleta perde o engajamento porque sabe que o que ele treinou hoje pode não valer nada amanhã. É um ciclo vicioso que nivela o nosso futebol por baixo, transformando o campeonato nacional em uma disputa de quem erra menos na gestão do caos, e não de quem joga melhor.
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Mudar uma cultura não é fácil
Para mudar esse cenário, a solução não é mágica, é governança. Os clubes precisam de departamentos de futebol que protejam o treinador da volatilidade da arquibancada e da diretoria. Estabilidade não é passividade; é vantagem competitiva. O estudo mostra que o mando de campo e a diferença de pontos pesam muito mais no resultado do que o "sangue novo" no banco de reservas.

O fechamento da conta é simples e cruel: enquanto tratarmos o treinador como o único culpado por problemas estruturais, continuaremos exportando matéria-prima e importando conceitos atrasados. O futebol brasileiro tem dinheiro e talento, mas falta-lhe a coragem de sustentar uma convicção. Talvez o Palmeiras de Leila e Abel sejam a exceção que comprovem a regra. Mas sem essa coragem e convicção, seremos eternamente o país do drible individual e da pobreza coletiva.
O moedor de técnicos e a falência da inteligência tática faz do Brasil o país que mais demite treinadores no mundo. O título de "campeão mundial de demissões" é a única taça que o futebol brasileiro deveria ter vergonha de exibir na galeria. Estabilidade ganha jogo, ganha campeonato e, acima de tudo, ganha respeito. Se a CBF quer buscar o aprimoramento do nosso futebol e da nossa cultura tática, chegou a hora de pensar no técnico e sua comissão como base dessa estrutura.
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Gustavo Fogaça escreve sua coluna no Lance! nas noites de segunda e quinta-feira. Leia outras publicações do colunista nos links abaixo:
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