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Treinadores negros na elite do futebol europeu; por que tão poucos?

No dia do técnico, Lance! traz o cenário dos comandantes no maior nível do futebol

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Rio de Janeiro (RJ)
Supervisionado porNathalia Gomes,
Dia 14/01/2026
15:03
Nuno Espírito Santo, Liam Rosenior e Vincent Kompany (Foto: Arte/Lance!)
imagem cameraNuno Espírito Santo, Liam Rosenior e Vincent Kompany (Foto: Arte/Lance!)

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Conteúdo Especial
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O acesso aos cargos de comando no futebol europeu ainda é marcado por barreiras estruturais que vão além de apenas mérito esportivo — realidade que se reflete até mesmo em anúncios celebrados como históricos, como a recente chegada de Liam Rosenior ao Chelsea.

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Embora atletas negros sejam protagonistas históricos dentro de campo, a transição para posições de poder — como os bancos de reservas — permanece limitada por redes de influência, critérios subjetivos de confiança e por uma cultura que, historicamente, associa liderança, autoridade e o chamado "perfil ideal" a treinadores brancos.

Neste dia do treinador, o Lance! mergulha na história e faz uma reflexão sobre a desigualdade existente entre comandantes brancos e negros nos principais clubes de futebol da Europa.

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Desigualdade no Velho Continente

Essa desigualdade se evidencia no recorte mais recente da elite do futebol europeu. No começo de 2026, o Chelsea anunciou Rosenior como novo treinador após a saída de Enzo Maresca. O inglês tornou-se apenas o segundo técnico negro da história do clube, repetindo um feito que não ocorria desde Ruud Gullit, em 1998. Mais do que um dado isolado, a nomeação expõe um padrão estrutural: Rosenior é apenas o 12º treinador negro a assumir uma equipe da Premier League desde a fundação da liga, em 1992.

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Liam Rosenior em sua estreia como treinador do Chelsea (Foto: Ben STANSALL/AFP)
Liam Rosenior em sua estreia como treinador do Chelsea (Foto: Ben STANSALL/AFP)

A vitória por 5 a 1 sobre o Charlton, no último sábado (10), em sua estreia no comando dos Blues, reforça que a escassez histórica não se explica por falta de competência ou desempenho. Ainda assim, o cenário pouco se altera quando o olhar se amplia para o continente. Nas cinco principais ligas europeias — Premier League, La Liga, Bundesliga, Serie A e Ligue 1 — apenas quatro clubes contam atualmente com treinadores negros. La Liga (Espanha) e Serie A (Itália), duas das ligas mais tradicionais do futebol mundial, não têm hoje nenhum técnico negro em seus bancos.

Os clubes que fogem a esse padrão são Chelsea (Liam Rosenior), Bayern de Munique (Vincent Kompany), West Ham (Nuno Espírito Santo) e Rennes (Habib Beye).

Mais de 20 anos sem um treinador negro vencer a Champions

Os números ajudam a dimensionar o problema. Em 71 anos de história da Champions League, apenas um treinador negro conquistou o título: Frank Rijkaard, campeão com o Barcelona na temporada 2005/06. Duas décadas se passaram desde então sem que outro técnico negro sequer voltasse a erguer a principal taça do futebol de clubes.

Frank Rijkaard é o único treinador negro a vencer a Champions League (Foto: Divulgação/Barcelona)
Frank Rijkaard é o único treinador negro a vencer a Champions League (Foto: Divulgação/Barcelona)

Um funil estreito que começa antes da elite

A escassez de treinadores negros na elite não nasce no topo. Ela é resultado de um processo longo, estrutural e cumulativo. Para Rodrigo Wenceslau, treinador do sub-17 do Boavista, o caminho até cargos de maior visibilidade passa por um funil ainda mais estreito para profissionais negros.

Segundo ele, o acesso ao alto nível do futebol raramente se dá por processos transparentes ou meritocráticos.

— Existe um processo que é mais interno do que externo, muito baseado em indicação — afirma o comandante do time de Saquarema.

Rodrigo Wenceslau está no Boa Vista desde janeiro de 2025 (Foto: Divulgação)
Rodrigo Wenceslau está no Boa Vista desde janeiro de 2025 (Foto: Divulgação)

Esse modelo, comum no futebol, tende a reproduzir perfis já consolidados nos espaços de poder, dificultando a entrada de novos nomes — sobretudo negros.

Rodrigo destaca que, muitas vezes, a necessidade de "se provar" vai além do desempenho profissional.

— Temos sempre que nos provar muito acima do que deveria. Não acredito que seja sempre um preconceito aberto, mas um pensamento inconsciente de que talvez não sejamos os melhores para gerir, pensar ou ordenar — analisa.

O cenário atual da Série A do Brasileirão escancara este cenário: apenas o Vitória, com Jair Ventura, possui um treinador negro entre os 20 clubes da competição

Essa percepção influencia, inclusive, decisões de carreira. Mesmo se projetando como treinador, ele optou por aceitar uma proposta para estruturar um departamento de scout, enxergando ali uma possibilidade maior de visibilidade e abertura de portas. A escolha, segundo ele, reflete uma leitura pragmática de um sistema que historicamente limita o acesso de pessoas negras a cargos de comando.

Categorias de base: um espaço menos hostil, mas ainda limitado

Se no futebol profissional a exclusão é mais evidente, as categorias de base oferecem um cenário ligeiramente diferente. Rodrigo avalia que, nas divisões inferiores, há maior abertura para treinadores negros, em parte pela menor pressão por resultados imediatos.

— A credibilidade acaba sendo um pouco maior porque o foco está na formação, não apenas em ganhar — explica.

Ele cita o próprio Boavista como exemplo: em determinado momento, sub-15 e sub-17 eram comandados por treinadores negros, com uma comissão técnica majoritariamente composta por profissionais negros, incluindo a coordenação metodológica.

Rodrigo Wenscelau cita Boa Vista como exemplo de espaço para treinadores negros se desenvolverem nas categorias de base (Foto: Divulgação)
Rodrigo Wenscelau cita Boa Vista como exemplo de espaço para treinadores negros se desenvolverem nas categorias de base (Foto: Divulgação)

Ainda assim, esse espaço não costuma se converter em ascensão natural para o profissional. Muitos treinadores negros permanecem restritos aos clubes formadores, enquanto os grandes centros continuam reproduzindo os mesmos perfis nos cargos de maior visibilidade.

O estigma do 'executor', não do planejador

Para Marcus Carvalho, comentarista da "CazéTV", a raiz do problema está na forma como jogadores negros foram historicamente enquadrados no imaginário do futebol.

— Criou-se a imagem de que o negro é executor, não planejador — aponta.

Essa lógica, segundo ele, estende-se da análise do atleta para a percepção do treinador. O cargo de técnico, associado à estratégia, à inteligência e à liderança, ainda carrega uma barreira simbólica que afasta profissionais negros. A presença de nomes como Vincent Kompany, no Bayern, e Liam Rosenior, no Chelsea, embora relevante, ainda funciona mais como exceção do que como regra.

Rodrigo Seraphim, comentarista da "Xsports", reforça que o problema não se limita ao banco de reservas.

— Se olharmos para cargos de dirigentes e gestores, a carência é ainda maior — observa. Em levantamento realizado pelo comentarista, mais de 92% dos treinadores e dirigentes das Séries A e B do Campeonato Brasileiro eram brancos — um reflexo que dialoga diretamente com a realidade europeia.

Kompany, Rosenior e o peso da representatividade

Os exemplos recentes ajudam a tensionar esse cenário. Vincent Kompany, campeão da Bundesliga pelo Bayern de Munique, carrega múltiplas camadas: ídolo como jogador, ativista, empresário e agora treinador vencedor. Sua trajetória rompe estereótipos e amplia o imaginário sobre o lugar do negro no futebol de elite.

Liam Rosenior, simboliza um marco histórico. Para Paul Canoville, primeiro jogador negro da história dos Blues, a chegada do inglês de 41 anos vai além do campo.

Liam Rosenior, novo comandante do Chelsea, é um dos quatro treinadores negros presentes nas cinco grandes ligas da Europa (Foto: SEBASTIEN BOZON / AFP)
Liam Rosenior, novo comandante do Chelsea, é um dos quatro treinadores negros presentes nas cinco grandes ligas da Europa (Foto: SEBASTIEN BOZON / AFP)

— Quando crianças veem alguém que se parece com elas comandando seu clube, isso mostra que o caminho existe — afirmou em entrevista à "BBC".

Luis Fernando Filho, comentarista especializado em futebol africano, destaca o impacto simbólico desses exemplos.

— A cultura do exemplo inspira atletas negros a enxergarem o trabalho intelectual de treinador como um caminho possível — analisa.

Segundo ele, a simples presença desses profissionais ajuda a quebrar o imaginário racista que restringe o negro ao papel de engrenagem física do jogo.

Mudança estrutural ou faísca momentânea?

Apesar dos avanços pontuais, o consenso entre especialistas é cauteloso. Casos como os de Kompany e Rosenior não alteram, sozinhos, uma estrutura construída ao longo de décadas. Como alerta Seraphim, o debate no futebol é cíclico e condicionado a resultados.

— Se o Bayern perder três jogos, a discussão desaparece — pontua.

Vincent Kompany, do Bayern de Munique, é um dos quatro treinadores negros presentes nas cinco grandes ligas da Europa (Foto: Michaela Stache/AFP)
Vincent Kompany, do Bayern de Munique, é um dos quatro treinadores negros presentes nas cinco grandes ligas da Europa (Foto: Michaela Stache/AFP)

Dados reforçam essa fragilidade. De acordo com a Black Footballers Partnership, embora cerca de 43% dos jogadores da Premier League sejam negros, apenas 2% dos cargos de treinador sênior e pouco mais de 3% das posições de liderança nos clubes são ocupados por pessoas negras.

Para Marcelo Carvalho, diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, o problema não é mais qualificação, mas oportunidade.

— Você confia no negro para jogar, mas não confia para liderar — resume.

A mudança, na visão dele, precisa partir das estruturas de poder, das diretorias e das entidades que comandam o futebol.

O desafio que vai além do campo

A baixa presença de treinadores negros na elite europeia não é fruto do acaso, nem da falta de talento. Ela reflete um sistema que historicamente limita quem pode pensar, liderar e decidir.

Enquanto o futebol seguir tratando a desigualdade como exceção ou mérito individual, avanços continuarão sendo circunstanciais. A presença de Kompany, Rosenior, Espírito Santo e Beye é relevante, simbólica e necessária — mas ainda insuficiente.

Mais do que celebrar pioneiros, o desafio está em transformar exceções em normalidade. Só assim o futebol, que tanto se orgulha de sua diversidade dentro de campo, poderá refletir essa mesma pluralidade à beira dele.

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