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Lúcio de Castro: a última ceia de Filipe Luís

Filipe Luís deixa o comando do Flamengo após um período de pressão

Filipe Luís na vitória do Flamengo sobre o Madureira pela semifinal do Carioca (Foto: Jorge Rodrigues/AGIF/Gazeta Press)
imagem cameraFilipe Luís na vitória do Flamengo sobre o Madureira pela semifinal do Carioca (Foto: Jorge Rodrigues/AGIF/Gazeta Press)
Autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, esse texto não reflete necessariamente a opinião do Lance!
Dia 06/03/2026
07:00
Atualizado há 2 minutos

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Conteúdo Especial
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Naquela noite, fizeram tudo igual como sempre faziam.

Ceiaram, oraram, conversaram.

Atravessaram o Vale do Cédron, subiram ao Monte das Oliveiras até chegarem ao Jardim do Getsêmani.

Foi ali no Getsêmani que teve lugar a maior traição da história.

Por 30 moedas.

Foi o Getsêmani o palco em que se ouviu a súplica para que o cálice fosse afastado.

Foi ali que Judas Iscariotes ouviu: "O que tens a fazer, faze logo". E deu o beijo da traição.

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A noite do último 2 de março era para ser só um Flamengo x Madureira.

Quis o destino que Getsêmani tenha renascido no Maracanã.

O futebol é afeito aos próprios caminhos e hábitos, ainda que não devesse ser assim.

Parte do mundo, nada justifica que tenha códigos próprios de ética. E que algumas práticas sejam naturalizadas.

Pois foi nesse mundo em que quase nada mais espanta, que todo mundo ainda se espantou com a demissão de Filipe Luís e a forma como se deu.

Dois dias antes do Maracanã virar Getsêmani, o Flamengo postou em seu perfil oficial a saudação pelos 100 jogos do treinador.

Filipe Luís comanda o Flamengo contra o Lanús (Foto: EDU ANDRADE/Fatopress/Gazeta Press)
Filipe Luís comandou o Flamengo contra o Lanús (Foto: Edu Andrade/Fatopress/Gazeta Press)

"Parabéns, Fili! Vamos juntos e por muito mais".

A mais pura e resumida peça de cinismo.

Hoje sabemos que ali a sorte já estava lançada.

Hoje já sabemos que outro já estava acertado.

Faltava apenas o comunicado.

Faltou outra coisa: reviver a frase bíblica em que o anúncio do Judas é pressentido: "aquele que vai me entregar está chegando".

Filipe Luís comandou o time no 8 x 0.

Acabou o jogo, fez a coletiva de sempre, falou sobre sua devoção rubro-negra mesmo que não estivesse mais ali um dia…

Foi então que recebeu o beijo do Judas.

Um comunicado lacônico no meio da madrugada e pronto.

Demitido em 30 segundos, por meio de um preposto, de um estafeta, ora pois.

Porque nem a dignidade de olhar nos olhos Judas redivivo teve.

O pior: a infâmia prossegue. Diariamente. Viva nos vazamentos imundos para tentar manchar a imagem de um ídolo e assim justificar a própria aberração.

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Uma das maiores crônicas da covardia da história. Não só a história do futebol.

Mais do que isso.

Da falta de empatia e até de amor pela instituição, pelo ser Flamengo.

Porque Filipe Luís é uma glória rubro-negra.

E desrespeitar uma lenda é mais do que blasfêmia, é falta de amor e de saber o que é o amor pelo Flamengo.

A mais perfeita tradução do que Gandhi ensinou, que os covardes não são capazes de demonstrar amor. O Mahatma foi além: "mostrar amor é privilégio dos corajosos".

Há também no desprezo por símbolos e ídolos e ausência de devoção por quem fez, um tanto do desprezo. Por parte de uma gente que Darcy Ribeiro se negou a chamar de elite, por inadequado para descrever um grupo sem qualquer projeto de nação, preferindo "classe dominante".

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Os mesmos ardorosos defensores de que o estádio virasse um cenário para essa mesma classe. Ironizados na frase já nos anais do atual mandatário: "a precificação é mais complexa do que o romantismo".

Uma última ceia servida na infâmia, na vileza daqueles que olham de cima, com desprezo.

Mas que terão reservado na história um pé de página da dimensão dos homúnculos que são.

Passarão. Filipe Luís já é eterno no Flamengo.

E para não fugir a Darcy, "apesar de todos eles, havemos de amanhecer."

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