A foto é melhor que o vídeo: a 'segundo-tempite' que preocupa o Flamengo
Vitória por 3 a 0 contra o Botafogo não esconde nova queda de rendimento na segunda etapa
O placar de 3 a 0 no clássico com o Botafogo, neste domingo (30), mostra uma grande vitória do Flamengo. É uma fotografia perfeita para quem olha apenas o resultado. O vídeo, porém, conta uma história mais complexa. Ao analisar os 90 minutos, aparece novamente um problema que tem acompanhado o time de Leonardo Jardim: um primeiro tempo dominante, seguido por uma queda brusca de rendimento logo após o intervalo. O Rubro-Negro constrói vantagem, mas volta para a segunda etapa mais lento, perde o controle da partida e permite que o adversário cresça.
Foi assim diante do Botafogo e já havia acontecido nos dois confrontos recentes com o Cruzeiro, pela Libertadores e pelo Brasileirão. A vitória por 3 a 0, portanto, não pode esconder um comportamento que começa a se repetir. O Flamengo sofre com a "segundo-tempite".
O Flamengo muda depois do intervalo
Os números do clássico ajudam a mostrar a diferença entre os dois tempos. No primeiro, o Flamengo finalizou 12 vezes, contra apenas quatro do Botafogo. O domínio se traduziu em volume, pressão e controle territorial. Depois do intervalo, o cenário mudou.
O Botafogo passou a finalizar dez vezes, enquanto o Flamengo teve apenas seis chutes. A equipe que havia criado 12 oportunidades em uma etapa passou a criar metade disso na outra, enquanto o rival aumentou seu volume de quatro para dez finalizações.
Não significa que o Flamengo tenha perdido o jogo. Pelo contrário: venceu por 3 a 0. Mas o recorte mostra que o controle apresentado antes do intervalo não foi sustentado durante os 90 minutos. E esse é o ponto que merece atenção.
O problema não aparece apenas quando o time está atrás no placar. Ele também surge quando a equipe está vencendo e tem a possibilidade de controlar o adversário a partir da vantagem construída.
O preciosismo também entra na conta
Antes da queda no segundo tempo, existe outro problema: a dificuldade para transformar o domínio em uma vantagem maior. O Flamengo faz um primeiro tempo forte, cria chances, mas nem sempre converte o volume em gols. Contra o Botafogo, conseguiu construir um placar confortável, mas a questão permanece porque esse comportamento já havia aparecido em outros jogos.
Leonardo Jardim, técnico do time rubro-negro, reconheceu a relação entre eficácia e a reação dos adversários.
— Às vezes estamos em um jogo em que amassamos o adversário e eles reagem na segunda parte, mas, se entrasse uma ou duas bolas, eles não iriam reagir — disse Jardim.

A lógica apresentada pelo treinador é simples: quanto maior a vantagem, menor a possibilidade de o adversário se sentir confortável para reagir. Por isso, o desperdício de oportunidades no primeiro tempo pode tornar ainda mais perigosa a queda após o intervalo.
Jardim também citou o desgaste e a necessidade de utilizar os jogadores que estão no banco, mas colocou a eficácia como um fator determinante para mudar o comportamento do adversário.
— Se a gente tiver um pouco mais de eficácia, mais um golzinho só, o adversário já tem outra postura porque vão ter que arriscar mais, e hoje a gente viu isso — afirmou.
Não parece ser apenas uma questão física
O próprio Jardim ajuda a afastar uma explicação simplista para o problema. O Flamengo continua apresentando desempenho físico ao longo das partidas, e o treinador também conta com jogadores no banco para promover alterações. Por isso, a queda observada depois do intervalo não parece estar ligada exclusivamente à capacidade física de sustentar a intensidade. O que chama atenção é a mudança de comportamento.
O Flamengo do primeiro tempo joga de uma maneira. O Flamengo, que retorna do vestiário, principalmente nos minutos iniciais, apresenta outra postura.
A equipe fica mais lenta, permite que o adversário tenha a bola, perde capacidade de pressão e passa a defender mais perto da própria área. A distância entre os dois momentos é grande demais para ser ignorada, ainda mais para uma equipe tão qualificada.
Uma questão de concentração?
Se a explicação física não parece suficiente, a queda pode indicar um componente mental. Concentração, leitura do momento da partida e capacidade de manter a mesma intensidade competitiva entram nessa equação. O Flamengo parece, em alguns momentos, relaxar depois de construir uma vantagem ou simplesmente não conseguir retornar do intervalo com a mesma energia apresentada anteriormente.
É uma hipótese que os próprios números ajudam a sustentar, ainda que não seja possível resumir o problema a um único fator. Contra o Cruzeiro, esse comportamento apareceu de maneira ainda mais evidente. No clássico deste domingo, voltou a aparecer.
A 'segundo-tempite' vira um alerta
A expressão pode até parecer informal, mas traduz bem o que vem acontecendo: o Flamengo tem sofrido com uma espécie de "segundo-tempite", conforme classificou o influenciador "Carter".
Não é um problema de um jogo específico. A queda já havia aparecido nos confrontos contra o Cruzeiro e voltou a ser perceptível diante do Botafogo. O roteiro se repete: primeiro tempo forte, domínio, criação de oportunidades e superioridade; depois do intervalo, queda de intensidade, menos produção ofensiva e maior espaço para o adversário.
O placar de 3 a 0 impede que essa queda tenha custado pontos contra o Botafogo. Mas o futebol não é apenas uma fotografia. O vídeo mostra os momentos de domínio e também os momentos de vulnerabilidade. E, neste momento, o Flamengo precisa olhar para os dois.
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