Opinião: Memphis Depay é o 'fator uau' do Corinthians
Camisa 10 foi o protagonista da classificação às quartas da Libertadores

Esse não é um texto para avaliar relatórios, planilhas, dinheiro, cálculos financeiros ou qualquer outro aspecto da renovação de Memphis Depay. Isso fica para outro momento. Apesar de ser extremamente importante e, sim, fazer diferença, aqui o assunto é outro: campo e bola. Sentimento. Torcedor. Emoção. O fator uau.
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A série que mais assisti na vida foi Modern Family, que acompanha o cotidiano de uma família e transforma situações comuns em histórias. Em um dos episódios das 11 temporadas, Claire Dunphy e Cameron Tucker compram uma casa para reformar e, depois, revender. O problema é que, durante a obra, Cam decide instalar uma fonte no quintal. Ele enxerga aquilo como um "fator uau", algo capaz de fazer um futuro comprador entrar na casa e se apaixonar pelo imóvel.
Uso essa metáfora para falar de Memphis Depay.
Depois de uma longa novela, que chegou ao ponto de o Corinthians recuar nas negociações pela renovação, o camisa 10 voltou a vestir a camisa do clube. E não precisou de mais de 20 minutos para mostrar por que sua permanência faz sentido dentro de campo. Memphis entrou no segundo tempo e deu a assistência para o gol que garantiu a classificação do Corinthians às quartas de final da Libertadores.
Não foi uma atuação brilhante. Nem precisava ser.
Em 20 minutos, Memphis deu uma assistência, acertou três dos seis passes que tentou, sofreu uma falta, realizou seis conduções e venceu um dos quatro duelos disputados. Também errou. Mas, no momento decisivo, fez a diferença.
Durante semanas, diversos aspectos da renovação do holandês foram discutidos. Dinheiro, contrato, duração, valores e condições. Tudo isso é importante. Mas, muitas vezes, esquecemos de olhar para aquilo que Cameron enxergava naquela fonte: o elemento capaz de mudar a percepção de quem entra na casa. O "fator uau".

Em Modern Family, os personagens chegam a chamar uma empreiteira para avaliar a instalação da fonte. A recomendação é simples: se eles fossem morar naquela casa, deveriam fazer. Era algo que não necessariamente mudaria a estrutura do imóvel, mas poderia mudar a maneira como as pessoas se sentiriam dentro dele.
Com Memphis, acontece algo parecido.
O retorno dentro de campo é evidente. E o jogador também fez sua parte para que ele acontecesse. Reduziu valores, esperou semanas de incerteza e voltou ao Corinthians mesmo depois de o clube indicar publicamente que não pretendia renovar seu contrato. Memphis quis continuar. Quis estar ali.
E há algo que o futebol não consegue colocar em uma planilha.
Memphis já entregou títulos ao Corinthians. Esteve na conquista do Paulistão, da Copa do Brasil e da Supercopa Rei. Em jogos de mata-mata pelo clube, são 22 partidas, quatro gols e nove assistências.
Não é possível prever o que virá daqui para frente. Memphis não é mais o jogador de 25 anos. Assim como não existe garantia de que a história terá o mesmo final que o torcedor imagina. Futebol não funciona assim.
Mas existe o passado recente. Existem os títulos. Existem as assistências. Existe a capacidade de aparecer quando o jogo pede algo diferente. E existe o que aconteceu ontem.
Na chegada ao estádio, torcedores usavam faixas na cabeça, camisas com o número 10 e o nome de Memphis. Quando Fernando Diniz chamou o holandês para entrar em campo, a reação da torcida parecia a comemoração de um gol do Corinthians.
E, depois do apito final, ficou uma sensação difícil de medir em números: a de que aquele torcedor podia enfrentar qualquer time do mundo.
Não necessariamente porque o Corinthians havia jogado o melhor futebol. Não porque Memphis tivesse feito uma partida extraordinária. Mas porque, por alguns minutos, ele devolveu ao clube algo que também faz parte do futebol: confiança e autoestima. A sensação de que é possível.
Talvez seja esse o verdadeiro "fator uau" de Memphis Depay. Não está apenas nos gols, nas assistências ou nos títulos. Está na capacidade de fazer um estádio inteiro se levantar, de transformar sua entrada em campo em um acontecimento e de fazer o torcedor olhar para o próprio time de outra maneira.
No fim, entre crises financeiras, escândalos de dirigentes e problemas internos, Memphis reacende no corintiano algo que nunca deixou de existir: a sensação de que é possível acreditar outra vez.
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