Willian Batista exalta geração sub-20 do Corinthians: 'Fome de competir'
Base vive temporada de evolução e mira maior integração com profissional

O sub-20 do Corinthians vive uma temporada de recuperação dentro e fora de campo. Após voltar à segunda fase do Campeonato Brasileiro depois de três anos e alcançar sua melhor campanha no Paulistão no período, a equipe encontrou no resgate da autoestima e na exigência dos treinamentos alguns dos pilares para a evolução. Em entrevista ao Lance!, o técnico Willian Batista falou sobre o trabalho desenvolvido na categoria, a formação dos jogadores e os caminhos para aproximá-los do profissional.
A equipe comandada por Willian Batista soma 39 jogos no ano, com 21 vitórias, oito empates e dez derrotas, em uma campanha que apresenta números semelhantes aos de 2022, quando o clube contava com uma geração que revelou diversos jogadores para o futebol profissional.
O desempenho também chama atenção no Campeonato Paulista. Em 15 partidas, o Corinthians soma 12 vitórias, dois empates e apenas uma derrota, com três gols sofridos, todos em partidas disputadas fora de casa. A equipe terminou a primeira fase com a melhor defesa da competição e também registra sua melhor campanha no estadual dos últimos três anos.
— Tivemos alguns pilares que foram fundamentais para essa evolução do nosso trabalho durante a temporada. O primeiro foi a recuperação da autoestima da categoria. Isso foi baseado muito nos valores do clube, o que é o Corinthians, para que a gente conseguisse criar um ambiente no dia a dia de alto nível de exigência e cultura de excelência no treinamento. Isso foi muito pautado em dedicação, empenho, esforço, tudo aquilo que tem no DNA do Corinthians. Acredito que, a partir daí, conseguimos nos desenvolver como equipe, como um time durante a temporada. A partir do momento em que isso acontece, os jogadores passam a ter performance melhor, conseguem produzir mais em relação àquilo que eles são durante os jogos. Isso foram alguns aspectos fundamentais para a nossa temporada fosse superior em relação aos últimos anos. Conseguimos a classificação no Brasileiro e a própria performance no Paulistão. Temos que ressaltar o respaldo da diretoria, de ter acreditado no que a gente poderia chegar, onde todos nós desenvolvemos juntos, principalmente, no pós-Copa São Paulo. Quando Damiani organiza os processos com a gente e nos coloca o que precisamos fazer, as nossas metas durante a temporada, com a ajuda do Ricardo Drubscky, que também está conosco no dia a dia, a gente consegue ir atingindo as metas tanto esportivas de resultado quanto o desenvolvimento de cada atleta também — disse o técnico.
Na geração de 2022, nomes importantes como o zagueiro Murillo, atualmente no Nottingham Forest, Breno Bidon, titular do Corinthians e convocado para a Seleção Brasileira, além de Kayke, hoje integrante do elenco profissional do Timão, ganharam espaço e chegaram à equipe principal.
— A geração de 2022 é uma geração bem interessante. Porque, se a gente olha, quase que a equipe toda de 2022 virou. Vingou para o próprio clube ou para outros mercados. Estão tendo sucesso em outros mercados. Nossos números da temporada, em percentual de aproveitamento ou número de vitórias, são até muito semelhantes. E me lembro até que eu enfrentei este em 2022, estando pelo América-MG. É um grande time com o Leo Maná, Murillo, Tchoca, Ryan, Biro, Kayke, Arthur Soares... É um grande time. Comparado até pela questão de aproveitamento, acredito que seja mais interessante. É que a nossa equipe de 2026 tem muita fome de competir. É um time que entende o peso da camisa. Eles sabem o que estão representando. É aquilo que é a nossa ideia de jogo, de ser um jogo agressivo, um jogo que pressiona o adversário, um jogo que tenha capacidade de ficar com a bola nos momentos necessários para que a gente consiga, todos juntos, se aproximar daquilo que é o grande objetivo coletivo como equipe e, também, individualmente de cada jogador. Estar mais próximo de realizar o sonho de cada um. É legal esse paralelo em relação à equipe de 2022 com a de hoje. Talvez eu pudesse pontuar a grande característica da nossa equipe desse ano, é a vontade de competir que esses jogadores têm, o que é uma coisa que nos deixa muito felizes — comenta.

Na temporada passada, André, Gui Negão e Dieguinho também deixaram a categoria para integrar o elenco profissional. Em 2026, Yago Mello, Iago Machado, Luizinho e Matheus Corrêa já tiveram oportunidades no time de cima.
— A gente fica feliz toda vez que sobe um jogador para a equipe principal. Isso também é um objetivo nosso. Que a gente consiga colocar o maior número de jogadores da equipe profissional e possamos desenvolver os jogadores para que, quando eles subirem, consigam ter rápida adaptação e se sintam bem para poder desenvolver o talento deles. Acredito que o mais importante, além da parte técnica e da parte física, é a mentalidade que o jogador precisa ter para poder estar no Corinthians, para poder servir aqui ao time principal do Corinthians. Quando eles estão em várias competências preparados, estamos mais próximos de servir bem à equipe de cima e o Corinthians ganha retorno esportivo e financeiro com esses jogadores — explica.
A pressão pela subida precoce ao profissional também foi abordada por Willian Batista, que defende respeitar o tempo de desenvolvimento de cada jogador.
— Acredito que o mais importante é a gente olhar com individualidade para cada jogador, porque o tempo de cada um é relativo à capacidade do bloco de desenvolvimento. Por isso, nós não podemos fazer comparações: se um transita durante três meses e consegue jogar, se outro demora um ano, outro que demora três anos. Acredito que cada jogador tem uma particularidade, e isso faz com que o tempo de cada um seja único. Por isso, é importante não julgar todos da mesma maneira e não fazer comparativos. Porque aí jogadores que vão transitar com 17 anos e ter alta performance, outros que vão estar no profissional com 17 anos, mas que talvez performem só com 22. E o mais importante é fazer com que cada um desses jogadores entenda, de maneira tranquila e sem muita ansiedade, que, a partir do momento em que ele trabalha e se dedica no dia a dia, estará mais próximo de aproveitar a oportunidade que terá. O mais importante, mais do que quando vai ser, é ele pensar: "como eu vou estar quando for?". Isso tem a ver com como o jogador se prepara no dia a dia — comenta.
Pressão externa e formação de jogadores
A pressão externa sobre os jovens e o papel do treinador nesse processo também faz parte do trabalho de Willian Batista. O técnico ressaltou que a formação do atleta não depende apenas da comissão técnica e que o entorno do jogador também tem papel importante.
— O treinador é um pouco difícil. O treinador está numa fração de tempo do jogador. Muito pouco no dia, né? São duas horas durante o dia. O treinador que fala que ele muda a vida do jogador, que ele ajuda o cara, é quase uma utopia, porque, no final, se o treinador consegue minimamente intervir sobre a vida do jogador, ele consegue ajudar o jogador de alguma maneira. Tem mais a ver com o interesse do jogador de transformar e evoluir por meio daquelas informações do treinador do que propriamente com o quanto o treinador conseguiu ajudar, porque, senão, vira uma hipocrisia muito grande. Tem muitos jogadores que precisam de ajuda no dia a dia e não conseguem ser ajudados. A gente acaba falando mais dos que têm sucesso em ajudar e toma o mérito para si. A gente precisa ser um interlocutor, intermediador dessa ajuda. Mas quem aproveita a ajuda é o jogador — comentou.
— Agora, ele passa a maior parte do tempo com a família dele em casa, ou ele conversa com os amigos, com o empresário. E essa dependência ainda da família, do empresário e das pessoas que cercam o jogador talvez seja a parte mais importante do processo. E essas pessoas jogam muita responsabilidade para cima deles, desenvolvendo o jogador de maneira humana. Quando esse papel deveria ser dividido por todo mundo. Cada um tem uma porcentagem, algo um pouco maior, um pouco menor, um olhar um pouco mais relevante, mas todos são parte de um processo, ou de sucesso ou de insucesso, na vida de cada um desses jovens — seguiu.
Willian Batista também falou sobre o equilíbrio entre a busca por resultados e a missão de desenvolver jogadores nas categorias de base. Para o treinador, as duas responsabilidades estão diretamente ligadas.
— De maneira muito natural, acredito. Jogador quando chega no Corinthians, o treinador da comissão, todos sabem que é um clube que tem como cântico de música do nosso torcedor "Todo-Poderoso". Sabem o que é preciso ser feito. É entregar vitórias, entregar performance e desempenho. Uma coisa não é contrária à outra. Se você vence mais, se você briga por título, isso significa que você, ao longo do tempo, está desenvolvendo jogadores melhores, jogadores que jogam melhor futebol, que pressionam mais, que defendem melhor, que atacam melhor com bola. Jogadores que fazem as coisas melhores no dia a dia são jogadores que se aproximam coletivamente de poder ganhar título — justifica.
— Isso é importante porque, se você desenvolve o jogador, você tem um retorno individual de cada um desses atletas, você tem um retorno para a instituição. Isso gera um retorno esportivo para o clube a nível de boas e sólidas campanhas. Uma coisa está muito conectada à outra. Você pode até ganhar hora ou outra, mas acredito que, se você desenvolve bem o jogador, você ganha por mais tempo, com mais consistência e sabendo do porquê está fazendo aquilo. Essa é a grande diferença — aponta.
Saúde mental
A pressão sobre os jovens, especialmente nas redes sociais, é outro desafio no processo de formação. Willian Batista explicou como os atletas podem lidar com a cobrança e transformá-la em parte do desenvolvimento.
— Muito complexo, porque hoje a rede social é um alimento para cada um dos seres humanos. A pessoa vai ali olhar aquilo para, de alguma maneira, se satisfazer. Na maioria das vezes, de maneira positiva. Entretanto, quando as coisas não andam bem, esse mesmo alimento é mais negativo do que positivo. O futebol traz essa pressão muito cedo para todos os jogadores, principalmente a relação baseada em vitória. A gente vive num país que valoriza muito quem ganha e não valoriza quem perde. Isso está muito claro. Acho que falar ao contrário disso é quase beirar a hipocrisia. Quando a gente fala que valoriza o desenvolvimento no nosso país como sociedade, não é como nos clubes. A gente está mentindo como sociedade. O Brasil valoriza muito aquele que vence e desvaloriza muito aquele que perde — lamenta.
— Acho que, cada vez mais, é importante para o jogador entender que a pressão é um privilégio. Porque ele sonhou com isso, e esse privilégio pode ser olhado com uma perspectiva positiva, em vez de negativa. É tentar fazer com que o alimento "rede social" seja cada vez menor em relação a tudo aquilo que mexe com ele, porque, na era digital em que a gente vive, é impossível abolir algo que é inerente ao dia a dia de cada um deles. Então, não vamos conseguir esconder nenhum deles do que é digital e rede social. É preciso saber como gerir tudo isso a nível de sentimento e maturidade — completa.

Construção, posse e interpretação de jogo
A construção desde trás e a capacidade de interpretar as diferentes situações de jogo são pontos centrais na visão de Willian Batista. O treinador destaca que o objetivo final deve ser sempre criar condições para marcar e evitar sofrer gols.
— Acredito que essa parte até de construir desde trás, se ela é vantagem ou não, é uma discussão que deveria, pelo menos no Brasil, já estar vencida, né? Porque, na Europa, não se discute mais se é vantajoso ou não construir desde trás. Lá já tem uma definição do que é vantajoso construir desde trás. O grande ponto da discussão é qual o tipo de ação que vai me dar mais vantagem. Isso é uma construção que supera linhas mais próximas? Se é uma construção que supera linhas mais médias ou se é uma construção que supera linhas mais distantes? Seja com passe curto, médio ou longo, de zagueiro, de goleiro ou de lateral? Isso é ensinar ao jogador capacidade para interpretar essas vantagens. E as variáveis que existem dentro dela, com os jogos, os dias de treinos, acredito que, como treinador e formador, o que eu preciso oferecer para o jogador é capacidade de repertório interpretativo, baseado nesses cenários todos. Acho que esse é o ponto mais importante em relação a toda essa discussão da construção desde trás — comenta.
— Lembrar sempre que o foco do jogo é fazer gol, e isso tudo acontece para que uma equipe faça gol e evite tomar um gol. Acredito que, quando se tem esses dois pensamentos, todas essas coisas estão um pouco mais próximas de acontecer, não com um fim nelas mesmas, mas como um objetivo muito maior, que é fazer gol e não tomar — segue.
Na sequência, o treinador explicou como trabalha a posse de bola com o sub-20 do Corinthians. Para Willian, os jogadores precisam entender as vantagens de cada ação e desenvolver a capacidade de interpretar os diferentes momentos da partida.
— A gente tem construído algumas coisas no sub-20 do Corinthians que norteiam muito o nosso dia a dia. Tentamos ensinar o jogador a interpretar qual é a maior vantagem em relação a quando o time tem a bola, tanto para quem vai passar a bola. Qual é a maior vantagem para quem vai passar a bola, quanto para quem vai receber, qual é a maior vantagem para quem vai receber? Então, quando a gente fala em vantagem, a gente pode falar em atacar para frente ou jogar para um lado e tentar fazer uma circulação. Ou até mesmo jogar para trás. Isso tudo dá um apoio, e acredito na evolução da equipe como um todo, nos jogadores que estão dentro do campo, nas interações que existem entre eles, na coordenação coletiva. É um conjunto — aponta.
— Eles precisam sempre conseguir perceber qual é a maior vantagem, se é progredir, circular ou apoiar, do que jogar para trás em cada instante de jogo? Porque isso é muito variável, e acredito que a equipe fluida faz isso de maneira orgânica, natural, conseguindo explorar as vantagens ofensivas, as desvantagens defensivas que o adversário proporciona para ela. Então, é muito pautado na interpretação, na percepção e no aproveitamento dessas vantagens em relação aos nossos jogadores, para que a gente consiga ter um jogo fluido e atacar o gol do adversário — completa.
Espaço para treinadores brasileiros
A presença de estrangeiros no futebol brasileiro é um dos pontos analisados por Willian Batista, que destacou a qualidade dos profissionais formados no país e defendeu mais oportunidades para os jovens treinadores.
— É uma boa pergunta. Acredito que não é o tipo de treinador que o Brasil precisa formar. Eu acho que o Brasil forma bons treinadores. A gente tem exemplos de bons treinadores na base que hoje estão no profissional, em Brasileiro de Série A, outros de Série B. Talvez o grande ponto seja a coragem para oportunizar os treinadores. Esse é o grande ponto: é a coragem que precisa ter para oportunizar o treinador brasileiro que está na base, ele também pode estar no profissional. Isso tem que acontecer sem olhar CPF, sem olhar a idade, sem olhar as coisas que geralmente são olhadas. É necessário olhar a competência, se tem ou não, isso independentemente da idade ou faculdade e/ou clube em que foi formado. Isso também passa pela competência de quem olha a capacidade desses treinadores em relação ao treinador estrangeiro — avaliou.
— Eu acho que isso evolui para melhor o futebol brasileiro, mas também não é garantia de sucesso, né? Na medida em que tem mais treinador estrangeiro no país, teremos mais treinadores tendo insucesso no país também, mesmo sendo estrangeiro, porque, no final do campeonato, só um ganha, todos os outros perdem. Aí tem aquilo que é o objetivo coletivo de cada equipe na temporada. E é mais fácil oportunizar um estrangeiro e ter uma justificativa no pós-demissão do que oportunizar um brasileiro jovem e ter uma justificativa que blinde quem precisou ter coragem para oportunizar, só para ver. O grande ponto não é nem o treinador estar formado, acho que temos grandes treinadores. A grande questão é como cada um enxerga a "oportunização" desses treinadores que estão precisando de uma chance — conclui Willian Batista.

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