Da Barreira do Vasco à Copa do Mundo, Rayan chega como caçula da Seleção
Na série Os 26 de 26, a ascensão meteórica do garoto criado em São Januário

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O penúltimo nome anunciado por Carlo Ancelotti na convocação da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo de 2026 carregava um simbolismo especial. Aos 19 anos, Rayan será o caçula do Brasil no Mundial e chega ao torneio embalado por uma ascensão meteórica, que começou na Barreira do Vasco e o levou, em menos de dois anos, de promessa contestada em São Januário ao status de sensação da Premier League.
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Revelado pelo Vasco e atualmente no Bournemouth, da Inglaterra, o atacante entrou definitivamente no radar da Seleção em março, na última data Fifa antes da convocação final para o Mundial. A lembrança daquele momento ainda emociona o jogador.
— O coração está quase saindo (de emoção). Depois do Neymar ali, cara… a rapaziada ficou gritando "Neymar, Neymar". Veio o Raphinha e eu pensei: "Já era, o homem esqueceu de mim". Na hora em que ele falou "Rayan", foi uma sensação inexplicável — contou o atacante em entrevista à Cazé TV.
Da Barreira do Vasco para o mundo
A história de Rayan com o Vasco começou muito antes da estreia no profissional. Criado na Barreira do Vasco, comunidade localizada no entorno de São Januário, o atacante cresceu respirando o clube. Neto de Ademir e Taninha, moradores históricos da região, ele é filho de Valkmar da Silva Rocha, ex-zagueiro revelado pelo Vasco e campeão da Libertadores de 1998, além dos Brasileiros de 1997 e 2000.
Foi no clube também que Valkmar conheceu Vanessa, mãe do jogador e então funcionária vascaína. O DNA cruzmaltino acompanhou Rayan desde os primeiros passos. Aos seis anos, ingressou nas categorias de base do Vasco, inicialmente entre o sub-7 e o sub-8, e rapidamente passou a ser tratado como uma joia rara.

Os números impressionavam desde cedo. Até os 11 anos, acumulava cerca de 280 gols nas categorias infantis. No sub-17, entre 2021 e 2023, marcou 31 gols em 44 partidas. Antes mesmo de assinar o primeiro contrato profissional, em dezembro de 2023, já atuava pelo sub-20 aos 15 anos. Somando todas as categorias, ultrapassou a marca de 300 gols na base vascaína.

Apesar de a primeira convocação para a Seleção principal ser em 2026, Rayan sempre teve destaque nas divisões de base da Amarelinha. O atacante passou pelas categorias sub-15, sub-17 e sub-20. No sub-17, participou do título do Sul-Americano de 2023 e também disputou a Copa do Mundo da categoria naquele ano.

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Começo turbulento no profissional
A estreia no profissional aconteceu ainda em 2023, contra o Audax, pelo Campeonato Carioca. Com apenas 16 anos, cinco meses e 17 dias, tornou-se o jogador mais jovem a atuar pelo Vasco no século. O início, porém, esteve longe de ser simples.
Dividido entre categorias de base e elenco principal, Rayan sofreu com a adaptação ao futebol profissional. O primeiro gol veio no Beira-Rio, em derrota para o Internacional, mas a irregularidade acompanhou o jovem ao longo de 2024. Em meio às dificuldades, viveu um dos episódios mais delicados da carreira quando foi cobrado de maneira dura por torcedores em manifestação no CT Moacyr Barbosa.
— Você é o mais frouxo desse elenco. Tem 17 anos, joga desde a base e entra com preguiça — ouviu o atacante.
Naquele momento, o futuro ainda parecia indefinido. A Eagle Football, holding responsável pela SAF do Botafogo, chegou a tentar sua contratação em um negócio que envolveria transferência para o Lyon. A negociação não avançou, e o atacante permaneceu em São Januário. Em campo, terminou 2024 com números discretos: dois gols e uma assistência em 33 jogos.
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A virada com Fernando Diniz
A transformação de Rayan começou em maio de 2025, com a chegada de Fernando Diniz ao Vasco. Desde os primeiros dias no clube, o treinador adotou postura protetora em relação ao atacante e pediu publicamente para que a diretoria segurasse a joia cruzmaltina.
— O Rayan é imperdível. Vender o Rayan agora é vender por um valor muito menor do que ele vai valer. Você não contrata outro Rayan. Ele estava muito abaixo do que pode render — afirmou Diniz na época.
O ponto de virada aconteceu em agosto de 2025, durante uma partida contra o Corinthians. Após um gol sofrido pelo Vasco, Diniz chamou a atenção do atacante de forma intensa à beira do campo, chegando a puxá-lo pelo braço para corrigir o posicionamento defensivo. A cena viralizou nas redes sociais e virou símbolo da relação entre treinador e jogador.
Dentro de campo, a resposta veio imediatamente. Rayan explodiu na temporada e encerrou 2025 com 20 gols e uma assistência — 17 dessas participações diretas em gols sob o comando de Diniz. A valorização acompanhou o desempenho: o Vasco recusou propostas entre 15 e 20 milhões de euros e passou a projetar o atacante em uma faixa superior a 30 milhões.
Depois do gol marcado no empate com o Flamengo, Diniz voltou a exaltar a joia vascaína.
— O Rayan é um jogador raríssimo, com poder de desequilíbrio gigantesco.
A identificação com a torcida cresceu na mesma velocidade. Em São Januário, o coro "Oi, boa noite. Será que vai ter gol do Rayan hoje?" virou trilha sonora das partidas do Vasco e consolidou o atacante como principal símbolo da nova geração cruzmaltina.
O próprio jogador reconhece a importância de Diniz em sua trajetória.
— Eu sou muito grato pelo Vasco. E o Fernando Diniz, eu vou ligar para ele, porque ele foi muito especial na minha vida, me ajudou bastante. Ele acreditou muito em mim. Se não fosse ele, eu não estaria aqui — afirmou em entrevista à CazétTV após a convocação para a Copa do Mundo.

Personalidade forte e identificação com a torcida
Além do desempenho em campo, Rayan rapidamente ganhou notoriedade pela personalidade forte nos clássicos. Em 2024, protagonizou uma discussão com André, então volante do Fluminense, após o rival questionar o nome "Valkmar" estampado em sua camisa em homenagem ao pai.
A resposta veio já em 2025: provocou o rival tricolor ao fazer o gesto de "C", em referência à Série C disputada pelo Fluminense em 1999. Mesmo após críticas, manteve o posicionamento.
— É provocação do jogo. Clássico é assim. Não vou mudar minha personalidade — disse Rayan após a partida.
No segundo turno daquele Brasileirão, voltou a marcar contra o rival e repetiu o gesto na vitória por 2 a 0, reforçando a conexão com a torcida vascaína.
Despedida em São Januário
Mesmo com o esforço da diretoria e os pedidos públicos de Diniz para mantê-lo no elenco, o Vasco entendeu que o ciclo de Rayan no clube estava chegando ao fim. O Bournemouth apareceu como destino ideal tanto para o estafe quanto para o jogador, principalmente pela perspectiva de minutagem imediata na Premier League.
A negociação girou em torno de 35 milhões de euros (aproximadamente R$ 220 milhões), tornando-se uma das maiores vendas da história do Vasco. Rayan deixou São Januário com 99 jogos, 25 gols e duas assistências pelo profissional.

Adaptação relâmpago na Inglaterra
A adaptação ao futebol inglês foi imediata. Desde sua chegada ao Bournemouth, o atacante rapidamente se transformou em peça central da equipe. Com Rayan em campo, o clube chegou a uma sequência de 16 jogos sem perder — a maior invencibilidade da Premier League na temporada.
Nos primeiros 14 jogos como titular, acumulou cinco gols e duas assistências, assumindo rapidamente o posto de principal referência ofensiva da equipe. O desempenho transformou o brasileiro em xodó da torcida inglesa, que criou uma música em sua homenagem.
"Quando o ritmo do samba começa a tocar,
Dance comigo e me faça balançar
Rayan Rocha correndo pela ala
Marcando gols, fazendo o Bournemouth cantar"
O impacto do atacante foi decisivo para que o Bournemouth conquistasse, pela primeira vez em sua história, uma vaga em competição internacional.

Agora, aos 19 anos, Rayan chega à Copa do Mundo como o mais jovem da Seleção Brasileira e como um dos rostos da nova geração da Amarelinha. Da Barreira do Vasco aos palcos do Mundial, o atacante alcança agora a maior vitrine de sua carreira. E carrega a história de um garoto de São Januário que fez da pressão sua força e se transformou em protagonista.
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