Raul Costa Jr.: o desabafo de Caio
Entenda por que defender a apuração e o fato é o único caminho para salvar a imprensa

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Hoje vou pedir licença aos meus leitores e àqueles que gastam seu precioso tempo com este que escreve. Vou pedir licença para falar de um profissional que aprendi a admirar e respeitar durante quase dez anos de convívio muito próximo: Caio Ribeiro, comentarista esportivo da TV Globo.
Para quem não acompanhou, esta semana Caio foi assunto por cobrar, em uma entrevista, o fim da militância no jornalismo esportivo. Caio fez uma crítica veemente aos jornalistas que usam dos espaços que possuem para militar, acabar com carreiras e por fazerem dos espaços palanques ideológicos. Já, para começar, quero dizer que, em mais de três décadas de jornalismo, nunca tive medo de patrulha, muito menos ideológica.
Sinceramente, acho patrulheiro ridículo, apesar de reconhecer talento em alguns deles, que ainda têm minha admiração e respeito. Mas quem patrulha é aquele que não tem condições de fazer uma defesa lógica dos seus argumentos, visto que patrulha é recurso de idiota, recurso que se aproxima das crianças no "é por que é" ou "não porque não" ou melhor, "fulano é bom porque pensa como eu e ciclano é ruim porque está do outro lado".
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Patrulha na imprensa
Dito isso, Caio é um dos profissionais mais sérios, ponderados e preparados com quem trabalhei. Nunca fomos muito próximos, até pela questão geográfica (ele mora em São Paulo e eu morava no Rio de Janeiro) e pela agenda apertada. Caio foi brilhante quando, esta semana, fez um alerta sobre a patrulha na imprensa brasileira.
Meu longo tempo de direção em redações, emissoras, na formação de talentos, sempre me levou a conviver com profissionais de esquerda e de direita, profissionais com espírito crítico e profissionais sem tanto espírito crítico.
A crença na liberdade de opinião me levou a defender a opinião clara, direta e aberta, mas desde que feita claramente no espaço de opinião. E sempre garanti que qualquer opinião tem que ser bem embasada e sem paixão. Opinião é opinião, não é simpatia, alinhamento. Hoje, o que vejo é que, em muitos veículos, o lado ideológico é que define opinião.

Nunca aceitei redator ou repórter querendo fazer panfleto na matéria. Nunca aceitei e nunca aceitarei. Sempre defendi opinião com base em dados concretos: "Acho isso porque tenho confiança nisso e nisso". Vários dos meus grandes amigos na imprensa são fortemente posicionados, tanto à direita quanto à esquerda.
Mas, sempre que trabalharam comigo, nunca permiti que militassem e sempre cobrei muita apuração e certeza no que publicavam. Minha postura intransigente na apuração e na construção da informação sempre me deu tranquilidade de que ninguém trabalhava contra este modelo de forma sorrateira. Nunca, em 30 e poucos anos de jornalismo, alguém disse ou poderá dizer que censurei. Nunca aceitei nada tendencioso.
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Transformação da opinião em causa
O pior é que muitos tentam passar a imagem de que militância é dar opinião. Não é verdade. Militância mesmo é quando se transforma a opinião em causa. E isso não pode ser admitido. Nem para um lado e nem para outro. Militância é desonestidade com o público, é mascarar interesses inconfessáveis confundidos com informação.
Vamos combinar: quem em tempo de redes sociais, em que milhões de pessoas têm espaço para se manifestar, protestar, insuflar, alguns acreditarem que podem vender sonhos sem questionamento é burrice. É o mesmo que pensar ser possível negar uma informação acreditando que ela não fosse circular, que desaparecesse por um passe de mágica. Acordem, os jornais não são mais impressos e a informação chega ao público a cada segundo. Atualmente, somente a cegueira consegue manter "profissionais" que acreditam que é possível esconder os fatos. Ah, os fatos são relativos…
Não, os fatos podem ter diferentes versões, mas não dá para fugir à realidade, aos números, mesmo que muitas estatísticas sejam duvidosas. Está na hora de crescer. Parabéns, Caio. O teu desabafo é um alerta importante, no momento em que jornalistas profissionais são cada vez mais criticados e cobrados para se diferenciarem de influencers fanáticos por causas.
A única forma de superar estes personagens é uma informação completa, bem apurada e de qualidade, não importando a quem doer. A militância só fará crescer irresponsáveis em busca de cliques, em busca do que pode ser tudo, menos jornalismo. Acabar com a militância nas redações é que salvará o jornalismo. Caio, não é fácil ter coragem de defender a liberdade de todos. A militância fica nervosa. Mas não dá para ter medo.
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Raul Costa Jr. escreve às segundas-feiras no Lance! sobre os vários lados do esporte. Leia outras publicações do colunista nos links abaixo:
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