Gestão Esportiva na Prática: os dias depois da derrota
Na reta final de uma temporada, a pressão expõe comportamentos que a vitória consegue esconder. Saber observá-los é uma ferramenta de gestão

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Na semana passada escrevi sobre o luxo de observar. Defendi que, em um futebol cada vez mais inundado por números, ainda existem informações que aparecem primeiro diante dos nossos olhos. No campo, no banco, no vestiário e nos corredores. Quero continuar, nesta coluna, exatamente dali.
Porque observar é importante, mas saber o que observar, principalmente quando uma temporada entra em sua fase mais aguda, é ainda mais.
A vitória facilita muita coisa. Depois dela, quase todos parecem comprometidos, o ambiente fica mais leve, as diferenças diminuem e as relações funcionam melhor. Há abraços, discursos positivos e uma sensação de unidade que, algumas vezes, é verdadeira. Em outras, porém, essa unidade apenas não foi suficientemente testada.
A derrota, não. Ela faz esse teste em seu estado mais puro.
Não gosto da simplificação de que basta perder para conhecermos definitivamente o caráter de alguém. Pessoas frustradas ficam irritadas, silenciosas ou reagem de maneiras diferentes. Um gesto isolado não define ninguém, muito menos um olhar.
Não transformar a observação em julgamento é um cuidado que todo gestor precisa ter. Mas existe algo muito valioso quando a pressão aumenta: os padrões começam a aparecer.
Quem assumia responsabilidades começa a procurar culpados? Quem defendia o coletivo passa a proteger apenas a própria posição? Quem cobrava coragem desaparece quando chega a hora de enfrentar a crise? Quem estava sempre presente deixa de aparecer? Quem dizia respeitar decisões muda completamente quando a decisão o atinge?
E o contrário também é verdadeiro. Há quem fale menos e trabalhe mais. Há quem tenha perdido espaço e continue comprometido. Há quem proteja um companheiro mesmo estando insatisfeito. Há quem procure o treinador para ajudar, e não apenas para reclamar. Há profissionais que, pressionados, continuam tratando da mesma maneira o presidente, o roupeiro, o jogador titular e aquele que não entra há três partidas.
É justamente aí que a minha observação da semana passada ganha outra dimensão. Não se trata de tentar descobrir quem está mentindo pela posição das mãos ou quem está inseguro porque desviou o olhar. Trata-se de conhecer suficientemente as pessoas para perceber quando seus comportamentos mudam.
Obviamente, não estou falando apenas de jogadores. Estou falando também de treinadores, executivos, dirigentes, funcionários, conselheiros, empresários e todos aqueles que orbitam o vestiário e o ambiente de um clube de futebol. Quanto maior a dificuldade, maior a quantidade de interesses que começa a circular pelos corredores.
Derrota produz informação juntamente com ansiedade
Os momentos agudos de uma temporada produzem ruído. Surgem conselhos que ninguém havia pedido, soluções simples para problemas complexos, vazamentos convenientes, mudanças de discurso e uma impressionante quantidade de pessoas preocupadas em explicar de quem foi a culpa. Para um gestor, tudo isso representa informação tão importante quanto aquela produzida pelos departamentos de desempenho, fisiologia ou
análise de mercado.
Mas existe uma condição fundamental: não decidir no mesmo ritmo em que a emoção acontece.
A derrota produz informação juntamente com ansiedade. E gestores ansiosos são perigosos porque começam a confundir urgência com velocidade. É necessário qualidade de observação.
Entender se aquilo foi apenas uma reação humana ao fracasso ou se estamos diante de um padrão. Perceber se determinado comportamento representa frustração momentânea ou ruptura de confiança. Comparar o que aquela pessoa dizia nos bons momentos com aquilo que faz quando existe algum custo pessoal envolvido.
Porque é neste ponto que o caráter realmente começa a aparecer. Não em um gesto, mas nas escolhas. Especialmente naquelas feitas quando fazer o que é certo ficou mais difícil.
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Estou tentando fazer das minhas últimas colunas, quase sem planejamento, uma espécie de caderno para a reta final das competições. Um período em que há menos tempo, mais pressão, mais hostilidade e decisões cada vez mais caras.
É justamente quando o gestor precisa falar menos, observar mais e impedir que a temperatura do ambiente determine suas decisões.
Derrotas nos tiram três pontos.
Mas os dias que vêm depois delas nos oferecem algo que nenhuma vitória entrega com a mesma facilidade: informação sobre as pessoas com quem estamos dividindo a caminhada.
A tabela nos mostra o que aconteceu. Os corredores nos mostram com quem podemos construir o que ainda precisamos fazer acontecer.
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