Ednaldo Rodrigues*
16/08/2016
19:11
São Paulo (SP)

É unânime que o futebol feminino no Brasil não recebe a devida atenção e prestígio que merece. É o velho vício do imediatismo. Quando chegam as grandes competições, as pessoas tendem a acompanhar com uma intensidade maior. As empresas até tentam associar suas marcas às benfeitorias e conquistas de momento. Mas elas se acabam na mesma proporção com que começam, e boa parte de nossos atletas continuam órfãos de apoio. A culpa não parte de apenas um setor ou indivíduo em específico. É algo enraizado em nossa sociedade, que precisa ser debatido e solucionado em um projeto de médio e longo prazo.

A alta exposição que as meninas vem obtendo nos Jogos Olímpicos-2016 pode ser o pontapé inicial para uma comoção geral. Independentemente do resultado, o futebol apresentado empolga na busca pela evolução do esporte. Mais do que a qualidade, as mulheres demonstram garra com a camisa da seleção, algo tão importante em esportes de alto rendimento.

Diferentemente da Olimpíada de 2004, em Atenas, e 2008, em Pequim, quando os bons resultados serviram para a tomada de algumas iniciativas -muitas delas sem eficácia, esperamos que o fato de estarmos recebendo um dos maiores eventos esportivos do mundo possa fomentar o crescimento da modalidade e a captação de investimentos com efetividade.

É aí que entra o trabalho da Federação Bahiana de Futebol (FBF), entidade que presido. É muito comum e casual citar que as federações deixam a desejar no aporte, investimento e acompanhamento de determinados esportes ou modalidades que não sejam o futebol profissional. No nosso caso, o caminho é o inverso. Além de financiar e promover competições amadoras em todo o estado da Bahia, tentamos fazer com que o futebol feminino ganhe fôlego há quase vinte anos, desde 1998.

Além do Campeonato Baiano, buscamos novas jogadoras em celeiros pouco explorados do interior da Bahia. No ano passado, criamos um projeto inovador para expandir a competição para regiões carentes: a Caravana do Futebol Feminino. Foi montada uma equipe de coordenação para alavancar a ideia. O grupo responsável é formado pelo fundador do Flamengo de Feira Futebol Clube, Edmilson Amorim (Michelinho), o técnico e coordenador do São Francisco, Mário Augusto, e a ex-jogadora da Seleção Brasileira, Solange Bastos, que passou por diversos clubes e disputou Mundiais e Olimpíadas.

O projeto surgiu da observação de que um dos principais entraves para o prosseguimento de uma carreira é a dificuldade de encontrar apoio e uma equipe profissional para atuar. Acreditamos que a interiorização do futebol feminino desenvolverá a modalidade, já que talentosas meninas param de jogar por falta de oportunidade e estrutura. Neste ano, a ideia é expandir ainda mais o projeto. Em 2015, 10 jogadoras foram selecionadas e participaram do estadual da modalidade.

Com isso, já conseguimos fazer projeções no aumento do número de jogadoras baianas na seleção brasileira. Na Olimpíada 2016, Rafaelle, Fabiana e Formiga, ícone do futebol feminino, são nascidas na Bahia e iniciaram a trajetória aqui. Assim como a jogadora Elaine Estrela, que brilha na Suécia há anos. Na seleção sub-20, temos a Raquel Beatriz, Maryana e a Milene Bispo, convocadas com frequência. Esperamos que, progressivamente, sejamos um dos principais celeiros do país.

O esporte precisa crescer de forma homogênea, com obrigatoriedade de todas as federações. Sem exceção, todas elas precisam organizar um campeonato estadual minimamente decente, de forma anual. Precisamos colocá-lo no calendário esportivo e dar condições para as mulheres se desenvolverem tão ou melhor que o futebol masculino. Isso é essencial.

Neste período de trabalho diário para o engrandecimento do esporte feminino em nosso estado, fui convidado para fazer parte do Comitê de Reformas da CBF. São diferentes itens a serem debatidos e melhorados, mas minha experiência faz com que a proximidade ao futebol feminino seja melhor explorada. Nosso esforço, inclusive, foi reconhecido em 2015, quando a entidade fez questão de nos parabenizar pelo trabalho realizado com a modalidade na Bahia.

Diante de todo esse contexto, o projeto precisa ir além dos resultados e da exposição de quatro em quatro anos. Com autocrítica, todos devemos melhorar e apoiar a modalidade no Brasil. Só assim teremos, de fato, uma evolução verdadeira. Mais do que isso, inserir o futebol feminino na cultura da nossa sociedade. Novos caminhos estão aí, prontos para serem abraçados e colocados em prática. E a Olimpíada pode mostrar que a hora da mudança chegou.

*Ednaldo Rodrigues é presidente da Federação Bahiana de Futebol e compõe a comissão de reforma do Estatuto da CBF.