Esquema 4-2-4 da Seleção deixa dúvida sobre fragilidade e encaixe de Neymar
Técnico e analista explicam a tática ofensiva de Ancelotti na Copa do Mundo

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O controverso esquema 4-2-4, com apenas dois volantes e quatro atacantes, foi o mais utilizado pela Seleção Brasileira sob comando de Carlo Ancelotti. Só cinco meio-campistas integram a lista dos 26 escolhidos pelo italiano para a Copa do Mundo, reforçando a ideia de um setor central menos povoado. Mas será que isso indica um time muito ofensivo e exposto na defesa? E Neymar se encaixaria nesta formação? É o que o Lance! tenta explicar com a ajuda do treinador Maurício Barbieri (Juventude) e do nosso colunista Gustavo Fogaça, o Guffo.
— O esquema pode assustar quando visto como algo estático ou rígido. O que vai determinar e possibilitar esse equilíbrio é justamente a forma como esse esquema vai se flexibilizar ou adaptar ao que os jogos e adversários exigirem. Ou seja, o esquema (estrutura) em si não é determinante, mas sim como esse esquema ou estrutura funciona — refletiu o técnico ex-Flamengo e Vasco.

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Retorno às raízes?
Em 1958 e 1962, o Brasil foi bicampeão mundial com um 4-2-4: Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo formavam a base do quarteto ofensivo. Pelo menos na nomenclatura, o mesmo esquema é apontado como favorito para a Copa do Mundo de 2026. Mas é claro que a suposta igualdade numérica não se reflete totalmente no posicionamento em campo.
Mesmo o time de 68 anos atrás já não era tão rígido. Zagallo executava o papel revolucionário de "falso ponta": saía da ponta esquerda para povoar o meio-campo. Pelé várias vezes se comportava como um camisa 10, com a função também de armar o jogo. No futebol de hoje, nem se fala. Boa parte dos times se posiciona de um jeito com a bola, de outro sem. E os limites entre 4-2-4, 4-3-3, 4-2-3-1 ou 4-4-2 não são tão claros assim.

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Esquema com quatro atacantes é tão ofensivo?
Para o jornalista e analista de desempenho Guffo, a segurança da possível formação de Ancelotti passa pela recomposição dos pontas e o resguardo da dupla de volantes. Quando o adversário estiver atacando, o Brasil defenderá no clássico 4-4-2.
— Para ter equilíbrio defensivo, os extremos (pontas) precisam recompor rapidamente, fechando os corredores para a subida dos laterais adversários. Ou seja, o time precisa saber se fechar sem a bola em duas linhas de quatro de forma rápida e eficiente. Para isso, o papel dos volantes é fundamental em guardar posição. Essa movimentação de quem joga pelo lado sem a bola será o segredo para o esquema não ser uma peneira — analisou.
O colunista não descarta, porém, que o italiano mude de esquema quando a Copa do Mundo começar. Até mesmo no último amistoso, contra a Croácia, o desenho da Seleção Brasileira se assemelhou ao 4-3-3, com o meia-atacante Matheus Cunha voltando para ajudar os volantes na armação.
— Ancelotti sempre soube montar times muito fortes no 4-3-3. Eu diria que é o seu esquema tático favorito. Não seria estranho que, durante a Copa, ele entendesse que a Seleção deve jogar assim. Mudar o esquema pelo adversário não é muito recomendável. O melhor sempre é mudar as funções dos jogadores para surpreender — acrescentou Guffo.
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Onde Neymar se encaixaria?
Ancelotti não chegou a testar Neymar desde que assumiu a Seleção Brasileira. Segundo Barbieri, a entrada do craque no time titular não alteraria necessariamente o esquema.
— Sim, é possível encaixar Neymar nessa formação, o desafio é criar situações que possibilitem à equipe ter mais equilíbrio e melhor preenchimento de espaços sem bola — explicou.
Sem a mesma intensidade de outrora, o astro santista pode ser um dos dois atacantes mais avançados do 4-2-4. Dessa forma, teria responsabilidade na armação, mas sem tanta exigência defensiva.
— A única função possível de encaixar o Neymar, para mim, é a de falso 9, dando total liberdade para circular entrelinhas e atacar espaços na área. Para isso, quem jogar ao seu lado no ataque vai precisar correr por ele sem a bola. Então, acho pouco provável que Neymar e Vini Jr. joguem juntos, por exemplo. Salvo, claro, em uma situação de desespero, em que tenha que reverter um resultado — opinou Guffo.

A convocação brasileira oferece diferentes opções de jogadores de alta intensidade e entrega defensiva, que poderiam formar essa dupla com Vini ou Neymar. É o caso de Matheus Cunha, Rayan, Endrick e Igor Thiago. Os pontas também se notabilizam pela dedicação nos dois lados do campo. Gabriel Martinelli, Luiz Henrique e Raphinha são opções, mas Cunha, Rayan e Endrick podem jogar abertos. Por essas características, o 4-2-4 é menos desequilibrado do que parece à primeira vista.
E existe até a possibilidade de Neymar e Vini Jr., hoje as duas maiores estrelas do time, formarem dupla mais à frente no ataque. Ambos têm menor poder de marcação e caberia mais aos pontas a função de recompor e ajudar a defesa quando o time perdesse a bola. Neste caso, Matheus Cunha e Martinelli sairiam da equipe titular, Luiz Henrique entraria na ponta-direita e Raphinha jogaria mais à esquerda.

Essa formação se aproxima bastante da função exercida por Neymar no Santos sob o comando de Cuca. No clube paulista, Neymar deixou de atuar preso ao lado do campo e passou a flutuar pelo setor ofensivo, aproximando-se mais da bola e participando intensamente da construção ofensiva. A movimentação constante também ajuda a abrir espaços para infiltrações dos companheiros na Seleção Brasileira, especialmente jogadores rápidos como Vinícius Júnior, Raphinha ou Luiz Henrique.
Paquetá seria coringa no meio-campo
A versatilidade das peças é outra vantagem da convocação. Raphinha também pode jogar como meia-atacante. Matheus Cunha roda por todas as posições do ataque. Entre os meias, destaque para Lucas Paquetá, que pode ser segundo volante, formar uma trinca com dois parceiros de meio-campo e até atuar aberto por qualquer um dos lados. Por esses motivos, o que começa como aparente 4-2-4 pode virar outros esquemas ao longo da Copa do Mundo e de cada partida.
— O esquema se transforma em campo. Essa análise ou convicção sobre o 4-2-4 tem maior relação com as características dos jogadores do que com o funcionamento real do sistema. Os dois pontas descem e temos um 4-4-2, um atacante desce, os pontas buscam o interior e temos um 4-2-3-1, ou seja, o que no fim determina são os movimentos e dinâmicas que são criados a partir dessa estrutura inicial — concluiu Maurício Barbieri.

Convocação de Carlo Ancelotti
Goleiros:
Defensores:
- Marquinhos (Paris Saint-Germain)
- Gabriel Magalhães (Arsenal)
- Bremer (Juventus)
- Danilo (Flamengo)
- Ibañez (Al-Ahli)
- Wesley (Roma)
- Douglas Santos (Zenit)
- Alex Sandro (Flamengo)
- Léo Pereira (Flamengo)
Meio-campistas:
- Casemiro (Manchester United)
- Bruno Guimarães (Newcastle)
- Fabinho (Al-Ittihad)
- Danilo (Botafogo)
- Lucas Paquetá (Flamengo)
Atacantes:
- Raphinha (Barcelona)
- Gabriel Martinelli (Arsenal)
- Luiz Henrique (Zenit)
- Vini Jr (Real Madrid)
- Matheus Cunha (Manchester United)
- Neymar (Santos)
- Endrick (Lyon)
- Igor Thiago (Brentford)
- Rayan (Bournemouth)

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