Proposta ruim e técnico revoltado: por que o Leverkusen se recusou a negociar Alario com o Palmeiras
Empresários avaliam que faltou conhecimento de mercado alemão ao Verdão

Com mais de 50% de suas ações pertencentes a uma conhecida empresa farmacêutica, o Bayer Leverkusen, da Alemanha, encarou como "ousada" a tentativa do Palmeiras de contratar o atacante Lucas Alario, de 29 anos, para ser o seu principal centroavante na temporada. A negociação foi oficialmente descartada na sexta-feira (14).
O clube germânico tem uma sólida estruturação financeira e política de compra e venda de jogadores. Faltou ao Verdão experiência para saber com quem estava lidando, avaliaram empresários que já negociaram atletas com clubes alemães ouvidos pelo LANCE!.
Durante o final de semana, fontes da diretoria palmeirense disseram que a oferta final foi de 1 milhão de euros (cerca de R$ 6,3 mi) pelo empréstimo de um ano do argentino, com opção de compra de 8,5 milhões de euros (aproximadamente R$ 53,7 mi).
Parece tentador para um atleta que está na reserva, com apenas um gol marcado em 16 partidas, mas o Leverkusen não negocia neste tipo de modelo, habitual entre clubes sul-americanos e até em outros mercados europeus, como o italiano. Por isso, achou o Palmeiras 'atrevido', no mínimo, na condução de suas tratativas.
Desde sempre, o objetivo dos alemães é recuperar pelo menos boa parte dos 25 milhões de euros (aproximadamente R$ 158,29 mi atuais) que pagaram ao River Plate, da Argentina, para ter Alario em 2017. Isso sempre ficou claro desde que o Verdão sondou o argentino ainda no ano passado.
- Faltou uma análise mais ampla do Bayer, de sua postura no mercado, de como são feitos seus investimentos e negociações. Na Alemanha, como um todo, não se utiliza o empréstimo com opção de compra. Os alemães tem uma economia sólida, não precisam correr risco em contratações e tampouco se desfazer de atletas que tenham um baixo rendimento - avaliou um agente que ajudou a vender dois flamenguista ao país europeu.
Outra prática comum no mercado sul-americano que causou revolta nos alemães, principalmente no técnico suíço Gerardo Seoane, foi o fato do Palmeiras ter acertado bases contratuais com Alario antes de falar com o Leverkusen.
- Esse tipo de situação varia de acordo com o clube ou o técnico. Mas no caso do Leverkusen, bastaria olhar para nesses sites de estatísticas para entender a situação - diz esse empresário.
Ele se refere ao fato dos alemães terem apenas Alario como opção formada para a reserva do astro checo Patrik Schick, autor de 18 gols em 20 partidas na temporada. São dois outros atletas para a posição, ambas com menos de 18 anos. Por conta disso, o Leverkusen já havia recusado investida do Bétis, da Espanha, para ter o argentino por empréstimo no início da temporada europeia.
E o fato do Verdão ter tentado se antecipar para convencer Alario a ser seu camisa 9 antes de ter o aval dos alemães pegou mal com o técnico que, mesmo com a recusa da diretoria do Leverkusen no negócio, reiterou seu veto, segundo a imprensa local.
Não é o que clubes alemães não negociem por empréstimo. Mas a prática só é comum quando as transferências são acordadas com mercados de poderio financeiro ainda maior, como o recente acordo do Borussia Dortmund com o Real Madrid, da Espanha, para ter o meia-atacante Reinier, ex-Flamengo, nesta temporada.
Ou, como no caso do Leverkusen, que tem quatro atletas emprestados nesta temporada, jogadores com valor de mercado extremamente baixo e contratos prestes a vencer. Mesmo na reserva e em baixa, Alario renovou com o clube até 2024.
- São alternativas que os alemães enxergam como forma de teste. Mas sempre é interno no mercado deles, europeu, e nunca com um sul-americano, ainda mais para saída. Nesse caso, tem que pagar em definitivo mesmo - apontou outro empresário ouvido pela reportagem, que não quis se identificar por ter atletas no elenco palmeirense.
E para entender essa logística, bastaria o Palmeiras olhar com atenção para as última negociações de impacto de brasileiros com clubes alemães, justamente de dois rivais.

A maior de todas é a do peruano Paolo Guerrero. O atacante, que tinha passagem pelo gigante Bayern de Munique, estava encostado no Hamburgo quando o Corinthians demonstrou interesse. Para tê-lo visando a disputa do Mundial de Clubes de 2012, precisou desembolsar 3 milhões de euros (cerca de R$ 7,5 mi na cotação da época).
Cinco anos depois, o valor necessário para o Santos repatriar o atual flamenguista Bruno Henrique do Wolfsburg já subiu: 4 milhões de euros (cerca de R$ 13,5 mi à época).
Nenhum dos dois, contudo, tem a saúde financeira do Leverkusen. Por mais que tenha uma das maiores torcidas da Alemanha, o Hamburgo patinou com más administrações e acabou rebaixado. o Wolfsburg perdeu o aporte de uma conhecida montadora de automóveis e reduziu os gastos drasticamente.
A força do Leverkusen vem justamente de sua solidez financeira, criada através de uma rede de olheiros que garimpa talentos como Alario para depois revender no Velho Continente. O clube tem portas abertas em todos os gigantes.
Foi desta forma que reforçou por exemplo um provável rival do Verdão no Mundial: o meia Kai Havertz, de 22 anos, vendido por 80 milhões de euros (cerca de R$ 505,1 mi) em 2020 para o Chelsea. Havia sido assim com brasileiros como o lateral e meia Zé Roberto, que jogou no Palmeiras, e os zagueiros Lúcio, pentacampeão mundial, e Juan, ex-Flamengo. Todos revendidos por um valor muito maior depois.
E é assim que o clube alemão espera ser com Alario e o brasileiro Paulinho, comprado do Vasco por 18,5 milhões de euros (cerca de atuais R$ 116,8 mi) em 2018 e por quem, assim com o argentino, recusaram propostas de empréstimo de clubes espanhóis no início da temporada.
TABELA
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