Medalhistas não veem com surpresa pior resultado do Brasil no vôlei de praia e pedem reflexão de envolvidos
Pela primeira vez na história dos Jogos Olímpicos, o vôlei de praia brasileiro não ganhou medalhas. Adriana Samuel e Bárbara Seixas apontam as barreiras que o país enfrenta

Depois de conquistar treze medalhas em Jogos Olímpicos em sete edições seguidas, o Brasil ficou fora do pódio no vôlei de praia em Tóquio pela primeira desde que a modalidade foi introduzida no programa, em Atlanta-1996. As quatro duplas que representaram o país no Japão (Bruno/Evandro, Alison/Álvaro Filho, Ágatha/Duda, Ana Patrícia/Rebecca) caíram nas quartas de final.
O esporte foi criado nos anos 1920 na Califórnia, nos Estados Unidos, mas o Brasil sempre se destacou na modalidade. Para Adriana Samuel, uma das primeiras mulheres a ganhar uma medalha no vôlei de praia em Olimpíadas, o mau resultado não vem de hoje e está relacionado a uma gama de fatores.
- Passa por uma série de questões. Desde a gente olhar para o cenário internacional e ver que o mundo mudou, que o vôlei de praia mudou, evoluiu e cresceu, e nós não. Vários países estão investindo muito no vôlei de praia. É uma modalidade que não requer investimentos altíssimos. Esses países olharam para isso alguns anos atrás e entenderam que era uma uma modalidade muito interessante de investir. Nós vemos arenas em todos os jogos lotadas. É totalmente diferente de 10 ou 15 anos atrás, quando havia duas potências mundiais, que eram o Brasil e os Estados Unidos - comentou Adriana Samuel, que esteve no pódio olímpico duas vezes, uma em Atlanta-1996 (prata ao lado de Mônica Rodrigues) e outra em Sydney-2000, com o bronze (com Sandra).
Ela também explica que não se trata apenas da evolução no cenário externo, mas também da queda do patamar de investimentos no Brasil, o que fica evidente com a diminuição do número de etapas do Circuito Brasileiro. Ela acredita que os gestores da modalidade no país precisam rever o planejamento financeiro para que o país volte a brilhar nas areias.
- O que aconteceu em Tóquio é reflexo de um processo que vem acontecendo aqui dentro, com um número menor de etapas do Circuito Brasileiro. É uma cadeia de fatores, que passa pela redução também de investimento. Se a gente olhar para os anos 1990 e 2000, tínhamos no mínimo doze etapas do torneio, além de eventos e exibições. Você passava o ano inteiro jogando. Isso, do ponto de vista técnico, sobe o nível. O Brasil durante muitos anos foi referência. Muitas duplas do mundo queriam vir jogar aqui - lembrou a ex-jogadora.
Medalhista de prata na Rio-2016 ao lado de Ágatha, Bárbara Seixas admite sentir os efeitos do novo cenário do vôlei de praia. Neste ciclo olímpico, ela formou parceria com Fernanda Berti, mas elas não alcançaram a classificação para os Jogos do Japão.
A atleta concorda com Adriana que todos os times se tornaram adversários fortes, e conta que a ausência do país no pódio não a revoltou.
- Não me causou revolta. Apenas constatou o que já temos acompanhado aos longo dos anos: o vôlei de praia não se trata mais de Brasil e Estados Unidos. Basta olhar os pódios das edições passadas. Hoje, temos praticamente todos os continentes com times competitivos - comentou Bárbara.
A jogadora acredita que o país não pode se acomodar diante do aumento de competitividade no cenário internacional se quiser recuperar a condição de potência. Ela diz que o momento é de reflexão e planejamento.
- É maravilhoso saber que o esporte está crescendo, melhorando seu nível e exigindo novos caminhos. E é exatamente por esta razão que se torna fundamental o Brasil acompanhar essa evolução e se reinventar em relação às necessidades que os anos e esse crescimento vão exigindo. Esse momento é importante principalmente para refletirmos sobre o que precisa ser melhorado, em todos os aspectos que regem nosso esporte - Bárbara Seixas finalizou.
Confira abaixo as medalhas do Brasil na modalidade:
1996- Jaqueline/Sandra (ouro) e Mônica/Adriana (prata)
2000- Adriana/Shelda (prata), Zé Marco/Ricardo (prata) e Sandra/Adriana (Bronze)
2004- Ricardo/Emanuel (ouro) e Adriana/Shelda (prata)
2008- Fabio/Márcio (prata) e Ricardo/Emanuel (Bronze)
2012- Alison/Emanuel (prata) e Juliana/Larissa(bronze)
2016- Bruno/Alison (ouro) e Ágatha/Bárbara (prata)
* Colaboração para o LANCE!
Veja abaixo o quadro de medalhas dos Jogos Olímpicos de Tóquio:

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