Após 32 anos, Remo retorna à Série A querendo vaga em competições sul-americanas
Entre 1994 e 2026, clube passou por anos sem divisão e reestruturação administrativa

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"O Remo quer sempre algo a mais". É dessa forma que o presidente do clube, Antônio Carlos Teixeira, o Tonhão, classifica o momento vivido pelo Leão. Após mais de 30 anos, o clube retorna à Série A do Campeonato Brasileiro em um dos principais capítulos da centenária história azulina.
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- Vai trabalhar para se manter (na Série A) e buscar uma competição como a Sul-Americana, a Libertadores. Vamos disputar (o Brasileirão) e, com o apoio da torcida, conquistar esse objetivo - detalhou o dirigente em entrevista exclusiva ao Lance! após a vitória do Remo em cima do Bragantino, no último sábado (24), na abertura do Campeonato Paraense.
Prestes a encerrar o primeiro mandato como presidente do clube, Tonhão acumula um passado dentro e fora do Remo. Aos 63 anos, o atual mandatário azulino, advogado por formação, passou por - praticamente - todas as funções na diretoria.
Em 1992, na última vez em que o Remo chegou à Série A do Brasileiro, Tonhão era o diretor de futebol, cargo que manteve nos anos seguintes. Já no século XXI, ele foi vice-presidente em 2005, quando da conquista da Série C do Campeonato Brasileiro, até então o único título nacional do clube.
- Mudou muita coisa (em mais de 30 anos). Estou sentindo essa mudança porque em 1992, na última vez em que subimos (à Série A), a situação era totalmente diferente. Eu era o vice-presidente de futebol. O futebol evoluiu, teve uma profissionalização. Temos que dar segmento ao trabalho sério e honesto que estamos fazendo no Clube do Remo para que possamos continuar profissionalizando o clube em todos os segmentos.
A chegada do Remo à primeira divisão em 2026 acontece em meio a um intenso processo de reformulação interna. Neste século, o clube viveu altos e baixos dentro e fora das quatro linhas. Em 2003, ainda no antigo formato do Brasileirão, o Leão chegou a disputar a segunda fase da Série B, mas acabou não conquistando o acesso.
Dois anos depois, já na Série C, o inédito título nacional para a galeria do clube com vitória fora de casa contra o Novo Hamburgo, na última rodada do torneio, aliado a uma combinação de resultados. No entanto, mais dois anos à frente e um retorno à terceira divisão nacional. Momento que culminou com o pior período da história do clube.
- Sempre fui torcedor do Remo. Ia com o meu pai ao estádio desde os três anos de idade. Ali em 2011 o Remo vivia um dos piores anos da história. Chegou a ficar sem divisão, precisando ganhar o estadual para disputar o Campeonato Brasileiro. Eu, como torcedor, vivi todo aquele 'inferno' de perto e decidi fazer algo - relembra o ex-presidente e atual presidente do Conselho Deliberativo do Remo, Fábio Bentes, em entrevista exclusiva ao Lance!.

Anos de Série D e sem divisão
A primeira "passagem" azulina na quarta divisão nacional foi em 2010, após o rebaixamento no ano anterior. Na ocasião, liderou o Grupo 1 com 11 pontos em seis jogos, mas queda na segunda fase após dois empates - o segundo pelo "gol fora" - com o Vila Aurora, do Mato Grosso, em Belém.
No ano seguinte, o Remo saiu do Campeonato Brasileiro após não conseguir a classificação no Campeonato Paraense. A final do torneio estadual foi entre Paysandu e Independente. O Papão, na época, disputava a Série C e a vaga na quarta divisão ficou com a equipe de Tucuruí.
No entanto, em 2012 o Remo retornou ao torneio, mas com polêmica. Vice-campeão estadual, o Leão foi acusado de "comprar a vaga" do campeão Cametá, que alegou não ter condições financeiras para disputar o torneio. Apesar do "esforço", o roteiro foi o mesmo de 2010: líder na primeira fase e eliminado, em casa, na segunda fase. Dessa vez, para o Mixto.
- Infelizmente passamos por esses momentos (ruins ao longo dos anos). Acima de tudo, não foi a minha gestão (que salvou o clube). Foi a gestão do Fábio (Bentes, presidente do Remo entre 2019 e 2023), foi a nossa, do Manoel Ribeiro, enfim. Essas administrações que me antecederam deixaram um alicerce para conseguir agora o acesso - destaca Tonhão.
Na época, além da crise esportiva, o Remo atravessou um período ruim financeiramente. Fábio Bentes relembrou que o clube depende, quase que exclusivamente, da bilheteria para sobreviver.
- Naquela época, diria que cerca de 90% da arrecadação era da bilheteria. Fizemos um choque de gestão. (…) A camisa inteira do Remo, na época, era R$ 50 mil. Hoje, estamos com uma camisa acima dos R$ 3 milhões por mês, somando todos os patrocinadores.
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Reinvenção administrativa do clube
A saída do Remo da Série D do Campeonato Brasileiro aconteceu em 2015. A partir de então, foram anos na terceira divisão até o - breve - retorno à Série B em 2020.
Naquele momento, o clube já estava inserido em um novo modelo de gestão, voltado para sanar as dívidas, trazer equilíbrio financeiro e pavimentar o futuro. Processo esse iniciado por Fábio Bentes, diretor de marketing na gestão Zeca Pirão (2013 e 2014), vice-presidente na gestão de André Cavalcante (2016) e presidente entre 2019 e 2023.
- Conseguimos virar a chave em 2019. O Remo tinha uma dívida trabalhista dita por muitos como impagável. Todo ano pagava em torno de R$ 6 milhões de dívida trabalhista e entravam novas dívidas, porque tu não conseguia honrar os compromissos atuais. Em paralelo, atrasava salário de funcionário. Sem jogos, a receita caia. Quando não ia bem no campeonato, a receita caia - explicou Bentes.
O dirigente foi além.
- A nossa primeira folha foi R$ 200 mil para o estadual e depois subiu um pouco para o Brasileiro, em torno de R$ 300 mil. Mas era a folha inteira do primeiro ano de gestão. Hoje, isso é o salário de um jogador que está no clube - completou.
E todo esse fluxo de reorganização do clube é valorizado por um dos símbolos da era de ouro do Remo. Na década de 90, Agnaldo "Seu Boneco" liderou o chamado "Time Cabano" azulino, que, entre outras conquistas, esteve na Série A do Brasileirão em 1993 e 1994, empilhou uma sequência de cinco títulos seguidos de Campeonato Paraense e um tabu de 33 jogos, entre 1993 e 1997, em cima do maior rival Paysandu.
Para ele, a evolução do clube ao longo dos últimos anos trouxe de volta a credibilidade do Remo dentro do cenário do futebol brasileiro.
- Eu vejo uma evolução (no clube) a partir de Fábio Bentes até hoje na gestão do Antônio Carlos Teixeira. O Remo não foi descoberto agora. Já vem em evolução com muita credibilidade há anos. Eu senti na pele o que é a bagunça e falta de credibilidade. Hoje é o contrário. Tiro pelo Osorio, treinador de Seleção Mexicana. Para nós é grandioso ver um clube do Norte na primeira divisão - contou em entrevista exclusiva ao Lance! o ex-jogador, treinador e auxiliar técnico do Remo.
Um novo Remo além dos gramados
Além do novo modelo de administrar o clube, o Remo vem passando por uma série de reformas na parte estrutural. Ainda em 2019, no primeiro ano da gestão Fábio Bentes, o clube teve a criação do Núcleo Azulino de Saúde e Performance, o Nasp, que conta com uma estrutura completa de academia, fisioterapia, consultórios médicos e aparelhos modernos de recuperação física.
No mesmo ano, o Estádio Banpará Baenão foi reaberto em uma força-tarefa que uniu torcida e diretoria. A casa azulina estava fechada desde 2014.
Hoje, as últimas etapas concluídas foram as entregas das novas salas do departamento de futebol, comunicação e marketing, análise de desempenho, vestiário e refeitório, todos no Estádio Banpará Baenão.
- Desde quando assumi, estamos fazendo um trabalho de reestruturar o clube. Não só no aspecto físico, diretivo, organizacional, administrativamente falando. Estamos conseguindo com muito esforço porque toda mudança requer recursos financeiros. Estamos entrando agora na Série A em uma situação melhor. Estamos apenas iniciando. Esperamos que no final do ano possamos estar com uma estrutura melhor do que estamos hoje - ressaltou Antônio Carlos Teixeira.
Embora o Estádio Banpará Baenão esteja sendo ampliado, o Remo dificilmente vai utilizar o local para os jogos da Série A do Campeonato Brasileiro. Assim como aconteceu em 2025, o Estádio do Mangueirão será a casa azulina no torneio nacional.
A ida ao Baenão, que será usado como "CT", vai acontecer somente quando houver conflito de datas de shows no Estádio do Mangueirão. Além disso, a casa azulina deve receber apenas alguns jogos do Campeonato Paraense e Copa Norte/Verde.
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