Uefa, Concacaf e AFC se unem contra Infantino e elevam a tensão na Fifa
Confederações divulgaram uma carta conjunta em que criticam a entidade

A crise política na Fifa ganhou um novo capítulo nesta segunda-feira (10). Uefa, Concacaf e Confederação Asiática de Futebol (AFC) divulgaram uma carta conjunta em que criticam a condução da entidade e questionam diretamente a liderança de Gianni Infantino. As três confederações classificaram a tentativa de criar uma empresa para comercializar ativos das competições da Fifa como uma grave falha de julgamento e defenderam uma investigação independente sobre o episódio.
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O documento foi assinado pelos presidentes e secretários-gerais das três confederações. Aleksander Ceferin, da Uefa, Victor Montagliani, da Concacaf, e Salman bin Ibrahim Al Khalifa, da AFC, além dos respectivos secretários-gerais, fizeram um apelo por uma liderança que, segundo eles, esteja a serviço do futebol e não concentrada na manutenção de poder.
A manifestação aconteceu pouco depois de a própria Fifa divulgar um comunicado em defesa de Infantino. No sábado, a entidade afirmou existir um "esforço concertado e contínuo" para enfraquecer o presidente e a organização e acusou críticos de tentarem alcançar, por meio de alegações e insinuações, resultados que não conseguiriam pelos mecanismos eleitorais da instituição.
A nova carta, porém, mostra que Uefa, Concacaf e AFC mantêm a posição de confronto com a direção da Fifa.
Venda de participação na Copa do Mundo desencadeou crise
O principal ponto de discordância é a Fifa Forward Enterprise (FFE), projeto que previa a criação de uma empresa responsável por operações comerciais e de eventos da entidade, incluindo direitos relacionados à Copa do Mundo e ao Mundial de Clubes.
A proposta previa a abertura de participação minoritária para investidores privados. O objetivo seria ampliar a capacidade de arrecadação da organização, mas a iniciativa provocou forte reação entre diferentes setores do futebol mundial.
A Uefa foi a principal voz de oposição e chegou a ameaçar um boicote às futuras competições da Fifa. Concacaf e AFC também se posicionaram contra o projeto. Diante da pressão, Infantino desistiu da iniciativa poucos dias depois de sua apresentação.
Para as três confederações, no entanto, o encerramento do projeto não resolveu a questão. Na avaliação dos dirigentes, a Fifa tratou o episódio como uma falha de comunicação ou um problema no processo de apresentação da proposta, enquanto deveria reconhecer que a própria ideia representou um erro grave de julgamento.
– Não há qualquer reconhecimento de que a proposta em si era intrinsecamente errada. Persiste a falta de reconhecimento de que a tentativa de vender uma participação na Copa do Mundo da Fifa foi uma profunda falha de julgamento – diz a carta.

As confederações também rejeitaram a interpretação de que a disputa tenha relação com dinheiro ou com a distribuição de recursos entre as associações nacionais.
Segundo o documento, decisões como a expansão das competições, a distribuição de vagas para a Copa do Mundo e a escolha das sedes de 2030 e 2034 não estão sendo questionadas. A crítica, afirmam os dirigentes, está relacionada à forma como a Fifa conduz sua governança.
– Trata-se de algo mais fundamental: a integridade do jogo e a integridade daqueles que foram eleitos para liderá-lo – escreveram.
Confederações querem investigação independente
Outro ponto central da carta é a revisão interna anunciada pela Fifa. Depois de uma reunião realizada em Rabat, no Marrocos, a entidade informou que faria uma análise dos acontecimentos e apresentaria um relatório ao Conselho da Fifa na próxima reunião.
Uefa, Concacaf e AFC consideram a medida insuficiente. As três confederações defendem que a investigação seja conduzida por uma terceira parte independente, sem participação da administração da Fifa ou de funcionários ligados à entidade.
A reclamação também envolve a própria reunião realizada no Marrocos. Segundo a carta, apenas um dirigente eleito esteve presente no encontro, enquanto integrantes do Conselho da Fifa e representantes das associações filiadas não foram convidados. A reunião contou principalmente com membros do Comitê de Gestão da entidade. Para as confederações, a escolha do local e dos participantes reforçou as dúvidas sobre a transparência do processo.
– A administração da Fifa não deve desempenhar qualquer papel na condução da revisão – afirmaram.
O documento ainda reforça uma cobrança anterior da Uefa para que todos os documentos e registros relacionados à FFE sejam preservados. A carta termina com uma crítica direta ao modelo de liderança adotado pela Fifa, embora não cite nominalmente Infantino no trecho final.
– Há silêncio onde deveria haver prestação de contas, distância onde deveria haver transparência.
A mensagem mantém, na prática, a pressão pela saída do presidente da Fifa. A Uefa já havia declarado que perdeu a confiança em Infantino e confirmou que essa posição não foi alterada após o pedido de desculpas do dirigente e o apoio recebido de membros da administração da entidade.
Crise divide o futebol mundial
Apesar da oposição formada por Uefa, Concacaf e AFC, Infantino ainda conta com aliados importantes dentro do futebol internacional.
A Confederação Africana de Futebol (CAF) afirmou ter "reafirmado unanimemente seu apoio" ao presidente da Fifa e declarou que pretende continuar trabalhando em conjunto com a entidade. A Conmebol, por sua vez, manifestou preocupação com decisões unilaterais e pediu união da chamada família do futebol antes da eleição presidencial.
Entre as associações nacionais, também existem posições favoráveis a Infantino. A Federação Mexicana de Futebol declarou apoio ao presidente, apesar de a Concacaf, confederação à qual o México pertence, ter assinado a carta crítica desta segunda-feira. Na Ásia, algumas federações também manifestaram apoio ao dirigente.
O cenário torna a eleição presidencial da Fifa, marcada para março de 2027, ainda mais importante. Infantino anunciou em abril que pretende buscar a reeleição para um novo mandato.
A disputa, porém, ganhou contornos diferentes após o fracasso da FFE. A Uefa passou a defender abertamente uma mudança na presidência e mantém a ameaça de boicote às competições da Fifa. As três confederações também iniciaram, segundo informações citadas por fontes ligadas à oposição, conversas preliminares sobre possíveis competições alternativas caso a crise provoque um afastamento entre os torneios da Fifa e parte das federações.

Até o momento, não foram apresentados detalhes sobre um eventual torneio paralelo, nem houve um compromisso público da Concacaf ou da AFC com um boicote às competições da entidade.
A primeira situação concreta envolvendo a ameaça da Uefa pode ocorrer já nas próximas semanas, com a Copa do Mundo Feminina Sub-20 da Fifa, que será disputada na Polônia e terá participação de seleções europeias. A França, por exemplo, indicou que pretende disputar o torneio.
A composição política do Conselho da Fifa também ajuda a explicar o peso da disputa. O órgão tem 37 integrantes, distribuídos entre as seis confederações: nove da Uefa, sete da AFC, seis da CAF, cinco da Concacaf, cinco da Conmebol e três da Oceania, além do presidente e do secretário-geral da Fifa.
Para que uma reunião extraordinária do Conselho seja convocada para discutir a situação de Infantino, é necessário o pedido de 19 integrantes.
Enquanto a oposição tenta ampliar sua base, o presidente segue sustentado por confederações e associações que permanecem ao seu lado. A Fifa, por sua vez, afirma que Infantino mantém apoio dentro da estrutura da entidade e que qualquer mudança em sua liderança deve respeitar os mecanismos eleitorais previstos nos estatutos.
A disputa, portanto, chega à reta que antecede a eleição presidencial com posições cada vez mais definidas. De um lado, Uefa, Concacaf e AFC cobram mudanças na condução da Fifa e uma investigação independente sobre a FFE. Do outro, Infantino mantém o respaldo de parte das confederações e das associações nacionais, enquanto a entidade que preside rejeita as acusações de falta de transparência e defende a legitimidade de seu mandato.
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