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O olhar humano de Diniz: como a formação em psicologia pode ajudar o Corinthians

Formado, treinador alia leitura emocional para potencializar o desempenho coletivo e individual

Guilherme Lesnok
São Paulo (SP)
Dia 18/04/2026
09:30
Atualizado há 3 minutos
Fernando Diniz e a psicologia no Corinthians (Foto: IA/Google Gemini)
imagem cameraFernando Diniz e a psicologia no Corinthians (Foto: IA/Google Gemini)

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Fernando Diniz sempre deixou claro que sua visão de futebol vai além de bola e campo. Com formação em psicologia, o treinador construiu a carreira defendendo a importância do aspecto humano no rendimento esportivo, valorizando fatores como confiança, coragem e tomada de decisão. No Corinthians, onde a pressão por resultados é constante, esse olhar pode se tornar um diferencial na gestão do elenco e no desempenho dentro de campo.

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Mais do que uma proposta tática, o trabalho de Diniz costuma estar ligado à construção emocional dos jogadores. Em ambientes de alta cobrança, como o vivido no Corinthians, a capacidade de fortalecer o psicológico do grupo pode influenciar diretamente na performance coletiva, especialmente em momentos de instabilidade. Ao priorizar relações, comunicação e confiança, o treinador tenta criar um time mais seguro e resiliente, algo que pode ser decisivo ao longo da temporada.

— Eu tenho um tipo de pensamento diferente da maioria. Respeito muito os dados fisiológicos, mas futebol não é só osso e músculo. Tem a vontade de jogar, o momento que ele vive. Se não tivesse ninguém suspenso, poderia repetir uma quarta vez. Lesão tem componente biológico, mas tem outros elementos que não podem ser desprezados: medo, coragem, alegria, entusiasmo. Isso não se dimensiona. E isso é o que mais me interessa. Isso vem da conversa, da relação com os jogadores. O futebol e a vida, para mim, são mais sentir do que medir. Não desprezo o que a biologia diz, mas integro outros componentes — comentou Diniz após a vitória diante do Santa Fe, pela Libertadores.

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Nesse contexto, o Lance! ouviu personagens da trajetória do treinador e uma profissional da área da saúde para entender como a formação em psicologia pode ajudar o Corinthians no trabalho com Fernando Diniz.

Fernando Diniz, técnico do Corinthians (Foto: Ettore Chiereguini/AGIF/Folhapress)
Fernando Diniz, técnico do Corinthians (Foto: Ettore Chiereguini/AGIF/Folhapress)

Como a psicologia entra no futebol? 

A psicologia ganhou relevância no esporte nos últimos anos, impulsionada pela busca por desempenho aliado ao equilíbrio emocional. Fernando Diniz está entre os técnicos que ajudaram a trazer esse debate para o futebol brasileiro, embora não seja o único a abordar o tema.

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— A partir de sua formação em Psicologia, Fernando Diniz tende a apresentar um olhar mais atento às questões emocionais e comportamentais de seus atletas, principalmente em momentos de pressão. Em posição de técnico, seus aprendizados durante sua formação podem vir a contribuir em sua comunicação com elenco, escuta ativa e olhar mais sensível e integral de sua equipe - entendendo seu lugar de liderança. No entanto, é importante destacar que estamos falando de um treinador, aquele com visões técnicas e táticas para seu elenco, e não de um psicólogo do esporte. Logo, a forma como esse conhecimento aparece na prática, vai depender muito de como Diniz integra sua formação às demandas do mundo esportivo, em meio a todas as cobranças por resultados, mídia esportiva e expectativas do clube e torcida — disse Maria Eduarda Figueiredo, psicóloga clínica e do esporte.

Apesar dessa bagagem acadêmica, a aplicação prática no futebol profissional depende de uma série de fatores, como o contexto do clube, a rotina intensa de jogos e a cobrança por desempenho imediato. A influência desse olhar mais sensível pode contribuir na gestão do grupo, mas não substitui a atuação especializada dentro de uma estrutura multidisciplinar, comum em equipes de alto rendimento.

— Esse conhecimento pode sim fazer diferença, especialmente na forma como o treinador conduz seu grupo, interpreta os comportamentos e se comunica com eles dentro e fora de campo. Por outro lado, seu conhecimento acadêmico tende a ser parcial se não houver um trabalho estruturado por um psicólogo do esporte dentro do clube. O mundo do futebol é marcado por pressões, urgência por resultados, rotatividade de técnicos e jogadores entre clubes, e por isso, a importância de alguém que tenha um olhar e cuidado para além do desempenho. Ou seja, o conhecimento acadêmico de Fernando Diniz pode contribuir, mas não substitui a atuação de um psicólogo do esporte — complementou a profissional.

Como Fernando Diniz se destaca? 

O futebol moderno vai além de campo e bola e envolve uma série de fatores externos, como a pressão da torcida, a presença constante da imprensa e o impacto das redes sociais. Nesse cenário, o aspecto mental passou a integrar de forma mais evidente a estrutura dos clubes, influenciando diretamente o desempenho e a carreira dos atletas.

Casos de jogadores que não conseguiram se firmar por dificuldade em lidar com a pressão se tornaram mais frequentes no debate esportivo. É nesse cenário que o trabalho de Fernando Diniz ganha destaque, especialmente na condução de atletas mais jovens e na tentativa de prepará-los para as exigências emocionais do futebol profissional.

— Hoje o pilar mental é de suma importância. A diferença de um atleta que se destaca na Série A do Brasileiro para outros que, de repente, não vingam é muito por conta da parte mental. De não conseguir suportar a pressão, não lidar com a pressão do dia de jogo, com a pressão da imprensa, da torcida, julgamento o tempo inteiro. Hoje a gente vive uma época de rede social, onde a exposição é ainda maior. Então é muito importante, sim, o lado humano. O treinador, os líderes se preocuparem realmente com a história de cada um, de onde cada um vem, a história familiar. Isso tudo faz toda a diferença para que o atleta possa evoluir, se desenvolver melhor e, na hora em que ele estiver dentro de um contexto de pressão, em jogos importantes, jogando em grandes clubes, ele possa lidar bem, ter confiança nele principalmente, e aí, com certeza, as coisas acontecem — disse o empresário Bruno Martins, que foi atleta de Fernando Diniz no Paulista. 

Fernando Diniz e Bruno Martins (Foto: Reprodução)
Fernando Diniz e Bruno Martins (Foto: Reprodução)

Para quem acompanhou esse processo de perto, esse modelo de liderança é um dos principais diferenciais do treinador. André Mazzuco, que trabalhou como executivo de futebol no Santos durante a passagem de Diniz pelo clube, explicou que o diferencial do treinador está na maneira como lida com os atletas, valorizando aspectos emocionais e a construção de confiança.

— O Fernando tem uma gestão de elenco, de equipe, realmente diferente nesse sentido. É uma abordagem mais humana, uma abordagem de preocupação com o ser humano. O Fernando usa muito exemplos da vida dele, de toda a carreira, de frustrações, de decepções, de atitude e, claro, dos pontos positivos nessa abordagem com os jogadores, na questão humana mesmo, na questão da vida. Ele enfatiza muito que futebol e vida são coisas que não são separadas, andam juntas, então isso é importante. Então é essa abordagem realmente desse lado humano, de fazer o ser humano estar bem, com a cabeça boa, com o corpo são, para poder realmente desenvolver. Até aproveitando a última entrevista dele, em que ele coloca que usa todas as ferramentas necessárias fisiológicas, de performance, mas é muito mais pelo estado da cabeça do jogador, da vontade, dessas capacidades que o atleta tem, e isso ele explora muito no dia a dia, em treino, em jogo e fora de treino. Ele tem essa abordagem constante com os atletas e com o próprio staff — explicou.

Um dos casos que ilustram esse cenário é o do meia-atacante Gabriel Pirani, do DC United. O jogador trabalhou com o mineiro no Peixe e voltou a ser comandado pelo treinador no Fluminense, após um pedido direto do técnico pela sua contratação.

Sob o comando de Diniz, Pirani apresentou evolução de desempenho, marcou o gol decisivo do título da Taça Guanabara contra o Flamengo e chegou a ser convocado para a Seleção Brasileira de base. A relação, porém, não se destacou apenas pelos aspectos táticos.

— Ele é próximo dos jogadores, sempre procura saber sobre a família, os amigos, as pessoas que te ajudaram, um pouco da sua história passada e recente. A partir disso, ele cria essa conexão mais humana, que também ajuda na evolução dentro de campo — contou.

— Hoje se fala bastante sobre o quanto o futebol é mental e emocional, e o Diniz sempre buscou me ajudar nisso. Além do dia a dia de treinos, que me fez evoluir, aprender a controlar a parte emocional e mental dentro de campo e fora dele me trouxe uma outra visão sobre tudo — seguiu.

Pirani se destacou ao lado do técnico Fernando Diniz (Foto: Marcelo Gonçalves/FFC)
Pirani se destacou ao lado do técnico Fernando Diniz (Foto: Marcelo Gonçalves/FFC)

Casos de indisciplina e rendimento 

Recentemente, o Corinthians viveu dois episódios de indisciplina dentro de campo. Allan, contra o Fluminense, e André, diante do Palmeiras, fizeram gestos obscenos e acabaram expulsos, reacendendo o debate sobre controle emocional em jogos de alta pressão. Situações como essas costumam estar diretamente ligadas ao aspecto psicológico, especialmente em ambientes de tensão e cobrança intensa.

— A formação em psicologia de Fernando Diniz pode, em tese, contribuir com sua interpretação à respeito dos episódios de indisciplina de seus jogadores, buscando compreender, naquele momento, o que levou a aquele comportamento. Sobretudo, mesmo com seu repertório acadêmico, seu papel como treinador visa principalmente o olhar técnico sobre o jogo. As expulsões, por exemplo, prejudicam de forma significativa o decorrer da partida e a organização do time dentro de campo. Por isso, a presença de um psicólogo do esporte se torna essencial neste contexto, uma vez que seu trabalho abrange intervenções tanto no nível individual quanto em grupo. O psicólogo do esporte atua de forma integrada a comissão técnica, e assim, contribui na criação estratégias que considerem não apenas aspecto tático, mas também o preparo psicológico dos atletas - e por isso, também pode auxiliar nesses episódios de indisciplina e como lidar com eles — detalhou a psicóloga Maria Eduarda. 

O desempenho não se baseia apenas nos treinos, mas em um contexto mais amplo de fatores que impactam diretamente a performance dos atletas. André Mazzuco destacou que a preparação vai além das questões técnicas e físicas, com influência determinante do aspecto mental.

— Vamos lembrar que um atleta é a projeção daquilo que ele produz como ser humano, seja no estado físico, seja no estado mental. Então o atleta é essa reprodução, porque o que ele precisa, além das técnicas e das habilidades, é estar em um estado mental e físico apropriado para aquele momento. Então a parte mental tem total influência no desempenho. E o Fernando, claro, nessa abordagem dele, vai sim, dentro da intensidade, buscar o melhor do desempenho, principalmente nessa questão realmente mental do atleta, para que ele esteja bem e possa entregar ou desempenhar aquilo que precisa — comentou.

Pirani destacou que o trabalho do treinador contribuiu para a melhora do ambiente no clube e teve impacto direto no rendimento coletivo.

— Em qualquer profissão, quando existe proximidade, confiança e pessoas que querem a sua evolução, a autoestima de todos melhora. Isso cria um ambiente mais leve, feliz e confiante, o que acaba gerando bons resultados, tanto coletivos quanto individuais — apontou.

Fernando Diniz também jogou no Corinthians, mas se aposentou cedo (Crédito: Leonardo Colosso/Folhapress)
Fernando Diniz também jogou no Corinthians, mas se aposentou cedo (Crédito: Leonardo Colosso/Folhapress)

Fernando Diniz já afirmou, em entrevistas recentes, que a vivência no esporte o fez enxergar o futebol com outros olhos e que jogar deixou de ser motivo de felicidade para se tornar angústia e sofrimento. Esse contexto ajuda a explicar, talvez, a aposentadoria precoce, aos 38 anos, e os caminhos que o levaram a escolher a psicologia e a carreira de treinador.

— Ele sempre foi um cara extremamente preocupado com isso. De dar muita confiança, de colocar realmente o jogador para cima, de se preocupar com o lado pessoal dele, se está tudo bem, se está com algum problema, para que pudesse ir para o campo sempre com a cabeça tranquila para jogar. E, quando ele sentia que tinha algo errado, ele dava um carinho a mais. Então ele sempre foi um cara que sempre acreditou nisso. Até porque o futebol é muito mental e acredito que uma grande proporção de sucesso que o Diniz teve na carreira é muito por conta do que ele faz com a parte mental dos atletas. Ele consegue realmente tirar o melhor de cada jogador porque faz o jogador ficar à vontade para poder desempenhar o papel dele — contou Martins.

O trabalho de Diniz e psicólogos no clube

Como citado anteriormente, a presença de Fernando Diniz não elimina a necessidade de um profissional de psicologia no clube. A questão central é que o treinador, muitas vezes, precisa adotar um olhar crítico, pautado pela realidade do momento e pelo aspecto técnico. Com isso, reforça-se a importância de um profissional dedicado exclusivamente ao cuidado com a saúde mental.

— No esporte de alto rendimento, o trabalho multidisciplinar é fundamental. O fisioterapeuta, o preparador físico, o nutricionista, o departamento médico, o analista de desempenho e o massoterapeuta, por exemplo, têm funções únicas e específicas dentro do clube. E pensando na psicologia, não é diferente. Independentemente da formação do treinador em psicologia, o mesmo vai apresentar um olhar técnico sob sua equipe. E por isso, a importância de um psicólogo do esporte; quem vai atuar de forma direcionada ao desenvolvimento das habilidades psicológicas, no acompanhamento individual e nas intervenções em grupo. A troca entre todas essas áreas é imprescindível, entendendo que cada profissional contribui dentro de sua especialidade para um mesmo objetivo: potencializar o desempenho e alcançar o melhor resultado possível da equipe, de forma integrada e sustentável — detalhou Maria Eduarda Figueiredo.

André Mazzuco e Fernando Diniz nos tempos de Santos (Montagem feita pela IA nas fotos do fotógrafo Ivan Storti/Santos FC)
André Mazzuco e Fernando Diniz nos tempos de Santos (Montagem feita pela IA nas fotos do fotógrafo Ivan Storti/Santos FC)

No Corinthians, Fernando Diniz vai enfrentar uma grande pressão. Na semana em que assumiu o comando do clube, torcedores protestaram em frente ao CT Dr. Joaquim Grava em busca de melhores resultados.

— Eu acho que o Corinthians e o Diniz são quase uma simbiose. Corinthians é um clube intenso, extremamente intenso de emoção, de pressão, de torcida, e o Diniz é um cara extremamente intenso. Ele é muito intenso no dia a dia, muito intenso no trabalho, na abordagem, na preocupação, nos detalhes. É um cara que eu não tenho dúvida de que se adapta fácil a esse ambiente do Corinthians, porque, se há uma coisa com a qual o Diniz não tem preocupação, é com pressão, porque ele é uma pressão nesse sentido (risos). No bom sentido, ele é uma pressão, ele é uma intensidade, ele se preocupa demais com todas as abordagens no trabalho. Então eu acho que é uma relação que, com as características do Corinthians e a característica do Diniz, tem uma grande chance de dar certo — exemplificou Mazzuco. 

A liderança de um técnico de futebol

Formado em psicologia no fim de 2012 pela Universidade São Marcos, Fernando Diniz escolheu como tema de seu TCC "a importância da liderança do técnico em uma equipe de futebol", trabalho que foi desenvolvido em conjunto com seu amigo Leonardo Simões. Em sua tese, o treinador defendeu que:

 — É fundamental ao técnico: conhecer as pessoas e sua natureza humana; obter um relacionamento interpessoal com uma boa comunicação; liderança; motivação; conhecimento dos atletas e suas necessidades, que serão seus aprendizes direto.

— Liderar uma equipe de futebol é uma tarefa que exige de seu comandante postura e sensibilidade. Existem características em um líder que são importantes, como carisma, mas não é o que determina se este líder fará com que seus liderados o sigam — concluiu.

Já era um sinal claro de que Fernando Diniz colocaria sempre à frente de seu trabalho algo que vai além da bola e do aspecto tático, valorizando elementos da vida que, segundo ele, o levaram a afirmar, em diferentes momentos, que ajudou Bruno Guimarães, nos tempos de Audax, a não encerrar a carreira precocemente — e que hoje brilha na Seleção Brasileira.

No Corinthians, esse trabalho mental pode fazer a diferença em diversos aspectos, ajudando desde atletas mais experientes, como Gabriel Paulista, até jovens em ascensão, como Kayke, além de nomes de maior destaque, como Yuri Alberto e Memphis Depay, a enxergar o futebol sob a mesma perspectiva com que Diniz construiu sua carreira.

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