Wladimir Mattos detalha projeto para o Santos e destaca papel de Neymar: 'Fundamental'
Candidato à presidência do Peixe, empresário fala sobre gestão, SAF, categorias de base, estádio e planos para tornar o clube novamente competitivo

Administrador e candidato à presidência do Santos, Wladimir Mattos concedeu entrevista exclusiva ao Lance! e detalhou as principais propostas de seu projeto para o clube. Entre os pilares apresentados estão a profissionalização da gestão, o equilíbrio financeiro e a busca por um time mais competitivo, com maior aproveitamento das categorias de base. Ele também destacou o papel de Neymar em seu projeto e afirmou que o atacante pode ser importante tanto na geração de receitas quanto na atração de novos jogadores.
Na conversa, o candidato falou ainda sobre a possibilidade de transformar o Santos em SAF, os planos para a Vila Belmiro e a ideia de levar mais jogos para São Paulo. Wladimir explicou como pretende conduzir os primeiros anos de uma eventual gestão e estabeleceu um prazo para que o clube volte a ter uma equipe capaz de brigar por títulos.
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Confira os principais trechos da entrevista
O que mudou no projeto de 2023 para 2026?
Não mudou nada, porque o princípio daquilo em que nós acreditamos, que é governança, só evolui. Então, aquilo que nós propusemos e que não aconteceu, pelo menos nos últimos 30 anos no Santos, é o que nós observamos até hoje: o continuísmo. O clube na mão dos mesmos grupos, sempre, e, a cada eleição, promessas novas de mudança. A palavra-chave sempre foi e sempre será: governança, profissionalização, transparência, métodos. Algo que, no Santos, até hoje, a gente não viu.
Qual vai ser a primeira medida nos primeiros três meses?
Colocar a "casa em ordem". Eu acredito e trabalho em equipe. Parte já está montada e os outros profissionais já comprometidos. E algumas coisas são fundamentais, por exemplo: o diagnóstico financeiro, a auditoria de contratos, entender o caixa, tanto o que temos a pagar quanto o que temos a receber. Obviamente, já se inicia a negociação de dívidas e começaremos a estabelecer alguns critérios muito rigorosos para investimentos e gastos no clube. Essa primeira medida vai acontecer no dia seguinte da eleição.
Eu fui buscar especialistas em crise. Eu não acho que o Santos seja um paciente terminal, mas acho que todos nós concordamos que ele está na UTI, então fui buscar agentes especializadas na UTI do futebol. São pessoas que passaram, vivenciaram situações tão ruins quanto a do Santos e foram muito bem-sucedidas.
Como equilibrar a dívida e também investir no futebol?
Hoje o produto futebol é um produto extremamente caro. Se a gente parar para analisar, hoje os orçamentos dos clubes que puxam a tabela da Série A do Campeonato Brasileiro, com exceção do Athletico Paranaense, já passaram da casa do bilhão. E também temos um fato que a gente não pode deixar de levar em consideração, que é o Fair Play Financeiro, que limita os gastos do futebol em até 70% da tua receita estimada para o ano vigente.
A gente sabe que nós vamos ter um orçamento apertado, mas também não podemos perder de vista que o Santos é um time de futebol e precisa ser competitivo. Se não na condição de protagonista, pelo menos que ele não deixe de ser um mero figurante, como tem sido nos últimos anos, brigando para não cair.
A nossa intenção é voltar a ter uma equipe competitiva, mesclando aquilo que o Santos sempre fez de melhor, que é o equilíbrio geracional: o aproveitamento dos seus meninos da base juntamente com a experiência de outros atletas com mais bagagem, com mais casca. É proibido gastar mais do que se arrecada.
Vai tentar segurar os meninos da base por mais tempo?
Houve uma mudança na legislação que hoje permite ao clube assinar o seu primeiro contrato por até cinco anos. Claro que existe uma limitação, e essa limitação não é pequena. Mas isso já, desde que haja planejamento, te permite garantir que esses jogadores fiquem com você até os 21 anos. Então, você vai ter aquela janela de oportunidade que dá ao jogador a possibilidade de jogar 100, 150 partidas na equipe profissional. Lembrando que o Santos, historicamente, é um clube que começa a aproveitar seus meninos na categoria principal a partir de 17, 18 anos.
A gente sabe que, durante três anos, além de dar a ele a oportunidade de aparecer na equipe profissional, nós estamos valorizando o nosso ativo. O menino hoje já assina o primeiro contrato pensando em jogar na Europa, porque ele vai ganhar em euros, porque hoje a informação que chega até eles mostra esse glamour do futebol europeu. Então, o que a gente tem que fazer é aproveitar o máximo esse tempo que ele vai ficar conosco, dando a ele a oportunidade de jogar, de aparecer.
SAF
Sou 100% favorável à SAF. A SAF, hoje, no futebol brasileiro, da forma como esse produto está evoluindo e, ao mesmo tempo, se tornando cada vez mais caro, é uma necessidade para devolver ao Santos o protagonismo. Hoje, o Santos não tem condição de contratar jogadores de R$ 40, R$ 50 milhões com toda essa dívida que tem para pagar. Não vejo a SAF como uma solução para o pagamento de dívida. Eu não consigo me conformar com essa hipótese.
O produto futebol brasileiro não atingiu a maturidade suficiente para chamar a atenção dos verdadeiros investidores, aquele pessoal que hoje investe em uma NBA, uma NFL, uma Premier League, num campeonato francês. Nós temos problema de calendário, de gestão, de arbitragem e uma série de problemas das duas ligas. Essa desorganização que existe no futebol brasileiro faz com que apenas investidores médios venham, com a perspectiva de organizar o futebol nacional e revender depois.
Precisamos entender o tamanho da dívida do Santos, a necessidade para resolver essa dívida e, a partir daí, definir com a nossa equipe quanto dessa SAF poderemos manter sob controle do clube. Meu sonho é que o Santos mantivesse 30%, 40% da SAF. Vai ser possível? Eu não sei. Mas a gente sabe que a SAF, para deixar o Santos competitivo de volta entre os seis maiores do Campeonato Brasileiro, de volta a uma Libertadores e aos principais campeonatos de forma constante, passa necessariamente por uma SAF.

Construção de um estádio
Nós não vamos pensar na construção de um estádio primeiro por conta do custo. Segundo, porque, no regime associativo, se eu fosse buscar um investidor internacional, ele não vai trazer dinheiro para cá sabendo que, daqui a três anos, vai se deparar com um novo presidente com quem ele pode não se dar bem. É uma questão de risco: ele não vai arriscar um investimento de 30, 40 anos sabendo que, daqui a três anos, poderemos ter um novo dirigente.
Também existe uma diferença gigante entre o que, por exemplo, arrecada o Palmeiras em um dia de jogo e o que o Santos arrecada de bilheteria. Nesse sentido, a volta a São Paulo é uma necessidade do Santos, mas é uma volta planejada para São Paulo.
Meu sonho de consumo seria sentar com o Pacaembu, fazer um contrato de cinco, dez anos, pagando um valor fixo anual. E lá dentro eu digo o seguinte: eu quero o meu escudo do Santos Futebol Clube no Pacaembu, quero meu vestiário decorado com os motivos do Santos Futebol Clube e quero uma loja dentro do Pacaembu. O Santos precisa voltar a jogar em São Paulo.
Vila Belmiro
Eu diria para você o seguinte: eu tenho como projeto tirar toda aquela área administrativa. Eu entendo que seria necessário deixar a Vila Belmiro para os jogos de futebol e para o Museu do Santos Futebol Clube. A partir dessas mudanças, trabalhar alguma melhoria. Isso é possível, mas não tem dinheiro.
Santos competitivo no primeiro ano de mandato?
Vamos lembrar que a gente assume um clube com jogadores com contrato. Então, vai haver um equilíbrio entre o elenco. Obviamente, acontecerão rescisões e chegadas, mas a gente não pode ser irresponsável de ter jogadores no elenco encostados, treinando em separado, porque não faz parte do nosso projeto. Precisamos equilibrar isso.
O primeiro ano é um ano de ajustes. No segundo ano, nós começamos a construir a nossa cara da gestão, com mais jogadores da base subindo. E, no último ano, é o que a gente acredita que já consiga entregar aquilo que nós acreditamos. Somos um time de futebol, e um time de futebol é aquele que briga por títulos.
Neymar
Costumo dizer que o Neymar, com uma perna só, ainda é melhor que muitos jogadores do futebol brasileiro. Ele é uma ferramenta, um vetor de receita impressionante para o Santos. Ele foi muito mal aproveitado. Eu, por exemplo, teria jogado muito mais vezes em São Paulo com o Neymar.
E outra coisa: o Neymar é um menino que cativa. Quando você vê esse caso do torcedor do Corinthians, que pede uma camisa para ele e leva, você vê a proporção que tomou aquele assunto. O Neymar é isso. É um vetor de negócios e de receita para o Santos que não pode ser desprezado.
Dentro desse projeto, sabendo que o Neymar tem essa capacidade de convencimento (para trazer jogadores), por que desprezar? Nós queremos agregar. Neymar, para nós, é fundamental nesse projeto de gestão. É único? Não. Mas a gente nunca vai desprezar uma figura importante na história do Santos, como é o Neymar.
Neymar continua?
Eu gostaria muito que o Neymar continuasse no Santos, mas isso vai depender muito dele, da vontade dele, dos projetos que ele tem. Mas eu sempre vou falar uma coisa: Santos Futebol Clube, Pelé e Neymar, todos cabem na mesma frase.
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