Milão–Cortina 2026 e o desafio de sustentar o Brasil no gelo e na neve
Medalha inédita amplia debate sobre planejamento e fortalecimento das modalidades esportivas

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Em meio ao calor do carnaval, o Brasil escreveu um capítulo inédito nos Jogos Olímpicos de Inverno Milão-Cortina 2026 ao conquistar sua primeira medalha - e de ouro - da história na competição. A vitória veio com Lucas Pinheiro Braathen, campeão no slalom gigante do esqui alpino, com um resultado que colocou o país, de forma definitiva, no cenário das modalidades de neve e gelo. A conquista histórica coincidiu com outro marco: uma delegação recorde de 14 atletas, entre brasileiros natos e filhos de brasileiros, na nona participação nacional na competição. O ouro não consagra apenas um desempenho individual extraordinário, mas também projeta visibilidade inédita sobre esportes que, até então, ocupavam espaço periférico na agenda esportiva brasileira.
Para um país tropical, sem tradição em esportes de neve e gelo, cada prova carrega não apenas o peso da competição, mas o esforço de uma estrutura construída quase sempre à margem das prioridades nacionais. O Brasil estreou em Jogos Olímpicos em 1920, mas só em 1992 conseguiu formar sua primeira equipe de inverno, sem apoio financeiro do Comitê Olímpico do Brasil (COB) e tendo que arcar pessoalmente com parte das despesas.
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Avanço no financiamento em modalidades de neve
Desde então, houve avanços graduais. A principal fonte de financiamento das modalidades de neve e gelo passou a ser a Lei Agnelo/Piva, também conhecida como Lei das Loterias. A legislação destina percentual da arrecadação das loterias federais ao esporte olímpico e paralímpico, distribuído pelo COB com base em critérios como desempenho esportivo e planejamento estratégico. Embora o modelo garanta autonomia às confederações, ele tende a priorizar modalidades com maior histórico de medalhas, o que coloca os esportes de inverno em desvantagem estrutural na disputa por recursos. Dos 14 atletas que representaram o país nesta edição, metade também contou com o suporte do Bolsa Atleta, que garante um suporte financeiro para manutenção de treinos e competições. Tratam-se de instrumentos fundamentais, mas que operam dentro de um orçamento limitado e distribuído entre dezenas de modalidades.
Os desafios, no entanto, vão além do financiamento direto. O custo logístico é estrutural. Sem estações de inverno e centros de treinamento adequados, atletas brasileiros precisam passar longos períodos no Hemisfério Norte para treinar e competir. Isso significa custos com equipes técnicas especializadas, equipamentos de alto valor e investimento em simuladores no Brasil. A busca por patrocínio privado, entretanto, ainda é difícil e distante, especialmente para atletas que não possuem reconhecimento global ou para modalidades que não oferecem retorno imediato de visibilidade no mercado nacional.
Em 2023, o Comitê Olímpico Brasileiro repassou R$ 7,9 milhões à Confederação Brasileira de Desportos no Gelo (CBDG) e R$ 6,6 milhões à Confederação Brasileira de Desportos na Neve (CBDN), segundo levantamento da agência Sports Value com base nos balanços patrimoniais do COB. No mesmo período, modalidades como boxe (R$ 11 milhões), canoagem (R$ 10,7 milhões) e surfe (R$ 9,5 milhões) receberam valores superiores. A diferença não é apenas numérica, mas revela uma lógica de priorização de políticas e investimentos orientados por histórico de resultados e potencial de medalhas, estratégia compreensível sob o ponto de vista competitivo, mas que limita a expansão de modalidades emergentes.
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Falta de estratégia específica
O Estado brasileiro tem demonstrado, ao longo dos anos, maior disposição para manter o país representado em todas as frentes olímpicas. Mas isso ainda não se traduz em uma estratégia específica para os esportes de inverno. No documento Ações Orçamentárias do Ministério do Esporte, que orienta o planejamento para 2026, por exemplo, não há previsão de programas dedicados exclusivamente às modalidades de gelo e neve, ao contrário do que ocorre com esportes de maior tradição nacional, como o futebol.
A inexistência de ações orçamentárias específicas para esses esportes não configura necessariamente omissão, mas evidencia uma escolha estratégica: concentrar recursos em modalidades de maior alcance social e tradição competitiva. Ao definir prioridades, o Estado opta por maximizar retorno social e medalhas, ainda que isso signifique manter determinadas modalidades em condição periférica dentro da política esportiva nacional.
O ponto-chave não é transformar o Brasil em uma potência de inverno, nem competir em igualdade de condições com países que possuem décadas de tradição e reconhecimento nessas modalidades. O desafio maior é garantir recursos e previsibilidade para atletas que já representam o país em nível internacional. Isso implica planejamento de longo prazo, coordenação entre União, confederações e iniciativa privada e uma política de financiamento que vá além do ciclo olímpico.
Criação da Universidade Federal do Esporte
A aprovação, pela Câmara dos Deputados, do projeto que cria a Universidade Federal do Esporte (PL 6133/25) indica que o debate sobre a qualificação estrutural do setor começa a ganhar dimensão institucional. Se implementada, a iniciativa poderá contribuir para a formação técnica, pesquisa aplicada e inovação, fatores essenciais para modalidades que dependem de tecnologia, biomecânica e preparação especializada, como os esportes de inverno.
O crescimento da delegação brasileira nos Jogos de Inverno demonstra que há talento, organização e capacidade competitiva. A questão que se impõe não é se o Brasil deve se tornar potência de neve e gelo, mas se o país pretende incorporar essas modalidades a uma estratégia esportiva mais ampla e previsível. Em um sistema que prioriza eficiência e retorno imediato, os esportes de inverno testam a capacidade do Estado de planejar além do ciclo olímpico e de enxergar o esporte como política pública de longo prazo.
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Os autores apresentam e defendem suas ideias e opiniões, esse texto não reflete necessariamente a opinião do Lance!.
Marcus Deois é publicitário, especialista em relações institucionais e governamentais, marketing e
comunicação institucional. É sócio-diretor da ÉTICA Inteligência Política e atua no mercado político há
mais de 15 anos.
Gabrielle de Castro é jornalista, com experiência em comunicação no setor de relações institucionais e
governamentais. Atualmente, é assessora de comunicação na ÉTICA Inteligência Política.
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