A Coreia do Sul e o mito do "doping" de Ginseng em 1954
A verdade sobre o mito da exausta seleção coreana na Copa de 1954.

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A Copa do Mundo é o cenário perfeito para o surgimento de grandes lendas que atravessam gerações. Entre gols antológicos e esquadrões inesquecíveis, algumas histórias de bastidores ganham contornos quase folclóricos. Uma das mais curiosas, e frequentemente repetidas, envolve a primeira participação da Coreia do Sul em Mundiais, na edição de 1954, disputada na Suíça. O Lance! explica a história da Coreia do Sul e o mito do "doping" de Ginseng em 1954.
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A Coreia do Sul e o mito do "doping" de Ginseng em 1954
Durante décadas, circulou pelo mundo do futebol o boato de que a delegação sul-coreana teria tentado tirar vantagem física ao utilizar uma suposta "poção mágica". O ingrediente principal seria o ginseng, tradicional raiz asiática conhecida mundialmente por suas propriedades energéticas. Segundo a lenda urbana, a equipe asiática estaria sob efeito de um rudimentar "doping de ginseng" para conseguir igualar a força física das potências europeias em campo.
No entanto, as evidências históricas e os registros oficiais da FIFA contam uma história completamente diferente. Longe de serem beneficiários de qualquer substância dopante ou de um superpreparo físico milagroso, os jogadores sul-coreanos foram, na verdade, vítimas de um dos maiores pesadelos logísticos já registrados na história do esporte de alto rendimento.
Ao separar o mito da realidade, descobrimos que a primeira seleção asiática a disputar uma fase final de Copa do Mundo entrou em campo vivendo uma verdadeira tragédia de exaustão extrema. Mais do que uma anedota sobre trapaça, a campanha da Coreia do Sul em 1954 é o retrato duro do imenso abismo estrutural que existia entre o futebol europeu e o resto do planeta na metade do século passado.
O pesadelo logístico e a estreia na Suíça
A Coreia do Sul garantiu sua vaga histórica ao superar o Japão nas eliminatórias, tornando-se a primeira equipe do continente asiático a alcançar a fase final. O prêmio, porém, foi cair no grupo da temida Hungria de Ferenc Puskás e da forte seleção da Turquia.
A viagem para a Europa foi um verdadeiro calvário. Os relatos históricos apontam que os jogadores encararam cerca de 46 horas de voo para chegar à Suíça. O desembarque no país europeu aconteceu apenas dez horas antes do apito inicial contra a poderosa equipe húngara. Em campo, o resultado da falta de preparo e da viagem brutal foi trágico: quatro atletas coreanos chegaram a desmaiar de exaustão durante a partida. O placar terminou em um impiedoso 9 a 0 para a Hungria. No jogo seguinte, nova goleada pesada: 7 a 0 para a Turquia, encerrando a participação com saldo de 16 gols sofridos e nenhum marcado.
Como surgiu a lenda do doping da Coreia do Sul?
Se a equipe estava tão debilitada, de onde surgiu o mito do ginseng? A resposta está na própria cultura do país. A Coreia é historicamente conhecida como a "terra do ginseng", e o consumo da raiz é uma parte forte de sua identidade nacional. Esse imaginário popular, somado à mística da medicina tradicional asiática, facilitou a criação da anedota de uma seleção "turbinada" pela raiz, mesmo que os resultados em campo mostrassem exatamente o oposto.
Não existe nenhum relatório médico, documento da FIFA ou pesquisa histórica séria que aponte qualquer caso de doping da seleção de 1954. Historiadores do esporte acreditam que o mito possa ter ganhado força — ou sido retroprojetado no passado — após um escândalo real e mais recente: na Copa do Mundo Feminina de 2011, cinco jogadoras da Coreia do Norte foram pegas no antidoping para esteroides. Na ocasião, a federação norte-coreana alegou que as atletas haviam tomado um "remédio tradicional" à base de glândulas de cervo.
A realidade nua e crua do torneio
O legado da Coreia do Sul na Copa de 1954 passa longe de qualquer polêmica química. O que fica para os livros de história são os números cruéis (9 a 0 e 7 a 0) e o pioneirismo de uma nação que ousou cruzar o mundo para jogar futebol.
O suposto "doping de ginseng" não passa de uma curiosidade de bastidor, um folclore que contrasta bizarramente com o drama de atletas que mal conseguiam ficar de pé no gramado suíço. Em 1954, a única coisa que os jogadores sul-coreanos tinham nas veias não era energia extra, mas sim a pura exaustão de quem desbravou o caminho para o futebol asiático.
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