O clássico sem rival: uma década de torcida única em São Paulo
Medida não tem previsão de ser revista pelas autoridades paulistas

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O domingo 3 de abril de 2016 entrou para a história do futebol paulista antes mesmo de a bola rolar. Corinthians e Palmeiras se enfrentariam à tarde no Pacaembu, mas a cidade já vivia um cenário de guerra desde a manhã. Na Praça Padre Aleixo Monteiro Mafra, em São Miguel Paulista, zona leste, integrantes das organizadas Gaviões da Fiel e Mancha Alviverde se encontraram e a discussão virou confronto aberto. Barras de ferro e pedaços de madeira circularam entre os grupos. No meio do tumulto, um disparo atingiu um homem que apenas passava pelo local.
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José Sinval Batista de Carvalho, 53 anos, nascido em Parapiranga, na Bahia, não participava da briga. Morreu ali, vítima de bala perdida. No dia seguinte, autoridades trataram o episódio como limite. Em 16 de abril de 2016, foi implantada a política da torcida única nos clássicos do estado — medida emergencial que, uma década depois, permanece em vigor e transformou a maneira de viver o futebol.
— Essas datas e essas efemérides são importantes para pensar e geram reflexão sobre os aspectos positivos e negativos e que podem ser diagnosticados em relação a isso — analisa Bernardo Buarque de Hollanda, que é professor-adjunto da Escola de Ciências Sociais, da Fundação Getúlio Vargas.
A mudança produziu efeitos que não cabem em planilhas. Sem setor visitante, o futebol paulista passou a se parecer com um espetáculo de voz única, um monólogo onde falta o antagonista. O gol do adversário, que antes explodia em contraste, virou silêncio protocolar. O clássico, por definição encontro de opostos, transformou-se em evento homogêneo.
— Você pode ver que hoje os clássicos são todos com o estádio lotado. E por quê? Porque um pai de família fica mais à vontade para ir na torcida única, porque sabe que não vai ter confronto, não vai encontrar a torcida do outro time. Portanto, eu acho que essa medida é salutar, acho que é uma grande bobagem esse negócio de falência do Estado. Nós temos aí o problema da violência urbana, que é intrínseca da sociedade, intrínseca do ser humano, que está muito mais relacionada à cultura, à educação, às condições sociais. Nós precisamos muito evoluir. Lembrando também que a violência no futebol não é um privilégio do Brasil. Ocorre no mundo inteiro. Portanto, eu acho que é uma medida que deu certo — defende o procurador de Justiça Paulo Castilho, que foi o promotor que conduziu a implantação da medida em 2016.
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A capital que tinha uma importante cultura de arquibancada passou a ser exceção: enquanto o Rio de Janeiro ainda convive com setores mistos e presença simultânea das duas torcidas, o principal centro econômico do Brasil optou pela interdição total.
O problema, porém, não foi eliminado. Os confrontos migraram para bairros distantes, rodovias e datas sem jogo, dificultando a prevenção. A morte de José Sinval, ocorrida longe do estádio, tornou-se símbolo dessa dinâmica: o perigo não estava nas arquibancadas, mas nos caminhos da metrópole.
— Eu sempre gosto de fazer uma distinção que o futebol faz parte da sociedade, portanto, a violência do futebol, ela é a violência que existe na sociedade e cabe ao Estado coibir isso e tomar medidas para que isso não afete a sociedade — afirma o jornalista Rodrigo Barneschi, pesquisador do tema e que acompanha o assunto de perto.
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Enquanto o poder público comemorava a queda de incidentes no perímetro dos estádios, surgiam registros de brigas combinadas em locais sem policiamento específico. A torcida única conteve o choque frontal no evento esportivo, mas não dissolveu a lógica de rivalidade organizada que se move pela cidade.
— O que me incomoda profundamente é a incapacidade do poder público de construir um debate em torno do assunto. O poder público simplesmente virou e falou, "ó, é isso aí, a gente decretou e aí a cada ano vai sendo prorrogado e simplesmente o debate, hoje, ele foi asfixiado. Não existe um debate sobre o assunto. As pessoas vão tomando como algo natural, entendem que não tem volta e que nem se deve discutir o assunto. É uma pena. Lamento profundamente, não é uma solução adequada. É o Estado, de maneira incapaz de garantir a segurança de quem vai aos estádios, e tem se mostrado incapaz de punir os responsáveis pela violência no futebol — afirma o jornalista Rodrigo Barneschi, pesquisador do tema e que acompanha o assunto de perto.
Os documentos oficiais registram ainda diminuição de ocorrências no entorno imediato das arenas. Para o Estado, o clássico tornou-se um evento mais previsível e controlável.
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A consequência é uma geração que nunca viu um clássico com cores misturadas. Para muitos, isso representa segurança e conforto; para outros, um empobrecimento cultural que atinge o coração do jogo.
— É claro que a circulação de torcidas pelo Brasil, gera os encontros, gera atritos, gera potenciais danos que têm que ser observados e monitorados pelas autoridades policiais. Isso continua sendo uma questão e aqui e ali acontecem incidentes nos mais variados níveis. Por outro lado, a torcida única, e aí temos esses índices estatísticos que tentam mostrar a eficácia, gera também efeitos indiretos nessa vivência do estádio quando você tem apenas um clube presente com os seus torcedores, que são também algo que já acontece há algum tempo, mas que potencializam, em alguns casos, algumas desavenças internas entre torcidas do mesmo time — explica o professor Bernardo Buarque de Hollanda.
É nesse ponto que muitos descrevem São Paulo como um túmulo do futebol. Não pelo número de mortos — que, felizmente, diminuiu —, mas pela morte simbólica da festa que fazia dos estádios um território de convivência tensa e ao mesmo tempo civilizada.

— A torcida única criou uma geração de torcedores que desaprendeu a conviver com o contraditório. Tem uma geração de torcedores mais jovens que nunca viu um clássico com duas torcidas. As organizadas de hoje, elas são um ambiente de um público muito jovem. É uma galera que nunca viu um clássico com duas torcidas e que, sim, ficou mais intolerante, ficou mais incapaz de conviver com o contraditório, com o que é o oposto a ele. É muito ruim isso do ponto de vista de sociabilização, de construção de laços que as pessoas precisam ter. É uma sociedade mais intolerante hoje e para mim a torcida única nos clássicos paulistas, ela reforça essa questão, infelizmente. Então, sim, existe hoje uma mudança de comportamento do torcedor. O torcedor desaprendeu a conviver com o contraditório e, portanto, mudou a forma dele de se comportar no estádio — diz Barneschi, autor do livro "Forasteiros".
— O Forasteiros, que foi publicado em inglês como Outsiders, está no mundo inteiro. É um livro sobre o torcedor visitante. Ele reúne muitas das minhas experiências aí de 30 anos de arquibancada e de viagens pelo mundo inteiro para ver o Palmeiras e outros jogos, inclusive. E ele virou um livro em defesa da causa do torcedor visitante. O forasteiro que encara situações adversas e todos os obstáculos para conseguir chegar num estádio e, diante de uma maioria do outro lado, canta e tenta fazer a sua parte ali para impor ao seu time a vitória — explica o jornalista Rodrigo Barneschi.
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— Podemos dizer, à luz de dez anos, que essa medida não se nacionalizou justamente pela sua impopularidade. Salvo alguns momentos e jogos em particular, houve algumas partidas em que houve torcida única interestadual, ainda que isso fosse um desejo, seja da polícia, seja de alguns segmentos do Ministério Público, de que isso se nacionalizar — afirma Bernardo Buarque de Hollanda.
O impacto da decisão passou a ser acompanhado pelo 2º Batalhão de Polícia de Choque, cuja Seção de Planejamento e Operações estruturou um estudo comparativo utilizado pelo Ministério Público de São Paulo. A análise considerou seis indicadores: número de confrontos entre torcidas rivais, público presente, efetivo policial na área interna do estádio, efetivo na área externa, efetivo total empregado e quantidade de escoltas de torcidas e delegações.
O método adotado foi comparar períodos equivalentes antes e depois da mudança. Foram observados inicialmente 19 jogos com duas torcidas, entre abril de 2015 e abril de 2016, e, na sequência, quatro intervalos com torcida única, de 2016 a 2019, totalizando 70 partidas. Para permitir equivalência estatística, o estudo também confrontou 56 clássicos anteriores à medida com 56 posteriores.
Os resultados apontados pelo Ministério Público indicam que, nos 56 jogos com duas torcidas, o público total foi de 1.634.867 pessoas. No bloco de 56 partidas com torcida única, o número subiu para 2.103.050. A média por jogo passou de 30.680 para 37.357 torcedores, alcançando 39.045 em um dos períodos analisados. Paralelamente, houve redução expressiva do volume de escoltas policiais e do efetivo empregado, sobretudo na parte externa dos estádios, onde historicamente se concentravam emboscadas e deslocamentos de risco.
Procurado, o Ministério Público de São Paulo rechaçou a ideia de voltar a ter clássicos com duas torcidas no estado.
— O MPSP informa que não há perspectiva de mudança a respeito da Torcida Única, nos termos atuais em que está traçada, nas partidas de futebol realizadas nos estádios do Estado de São Paulo e sua Região Metropolitana, dado o seu sucesso — afirmou, em nota, o órgão.
Já a Secretaria de Segurança Pública destacou o efetivo policial destacado em dias de jogos e que apenas cumpre determinação dos órgão competentes.
— A SSP esclarece que as restrições a duas torcidas são determinadas pela Federação Paulista de Futebol (FPF), seguindo a recomendação do Ministério Público. As forças de segurança atuam nos eventos, conforme estabelecido pela Lei Geral do Esporte (Lei 14.597/2023), no Artigo 149, independentemente da presença de torcida visitante. Vale destacar que, no Estado de São Paulo, o policiamento nas regiões dos estádios é reforçado em dias de jogos. A Polícia Militar realiza reuniões preparatórias com órgãos públicos estaduais e municipais, representantes do estádio, torcidas e moradores do bairro e a Polícia Civil, dispõe da Delegacia de Polícia de Repressão aos Delitos de Intolerância Esportiva (Drade), especializada nas ocorrências registradas no âmbito do esporte — afirmou, em nota, a pasta.
Entre a eficiência policial e a perda do encontro entre rivais, o futebol paulista passou a habitar um território ambíguo. É mais seguro, mas também mais silencioso. Mais organizado, porém menos plural. A cidade que um dia se orgulhou de clássicos divididos ao meio convive agora com arenas que parecem grandes salas de eco.
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