Gestão Esportiva na Prática: O lado invisível da voz do torcedor

A ascensão das redes criou pertencimento, mas também impôs pressa, superficialidade e julgamentos que ferem o futebol

PorFelipe Ximenes
Colunista
Rio de Janeiro (RJ)
19/11/2025 06:59
Atualizado em 19/11/2025 17:01

Autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, esse texto não reflete necessariamente a opinião do Lance!
Torcida faz a festa no Maracanã no jogo entre Brasil e Chile
Torcedor tem papel importante no futebol (Foto: Pablo Porciuncula/AFP)

Quando o torcedor ganha voz, o futebol ganha vida. Porém, quando essa voz chega sem profundidade, o futebol perde a verdade.

Na minha última coluna falei sobre a importância de trazer o torcedor para o centro da relação com o clube. Hoje quero olhar para o outro lado dessa transformação. Todo avanço carrega um risco. E no futebol brasileiro, esse risco já é visível todos os dias, em todas as telas. Se você não leu a coluna da semana passada, leia antes de continuar.

Da opinião à imposição

A democratização das redes deu ao torcedor algo poderoso: o "lugar de fala". Porém, a fala deixou de ser opinião e virou sentença. Perdeu? Demite o treinador. Empatou? O atacante não tem nível. Tomou gol? O zagueiro não presta. Não foi campeão? Gestão incompetente.

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Torcedor utiliza perfis em redes para se manifestar (Foto: Divulgação)

O tempo do futebol, que precisa ser lento, agora é atropelado pelo tempo das redes. Uma jogada vira debate de milhões de visualizações em minutos. Uma substituição vira dossiê. Uma coletiva vira polarização. Ou seja, a ansiedade virou análise e a impaciência virou diagnóstico.

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E os clubes, não raras vezes, passaram a reagir mais ao barulho do que ao planejamento.

A informação que não informa

O torcedor moderno consome futebol vinte e quatro horas por dia, mas de uma forma completamente diferente dos anos 90 e 2000. Vive num ambiente em que a verdade importa menos que a narrativa. Relatórios internos, dados de performance, planejamento de microciclos e processos de recuperação física viraram detalhes irrelevantes diante de um corte de vídeo de dez segundos.

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Vejo isso diariamente. Um vídeo fora de contexto explica "o problema do time". Uma estatística solta vira prova definitiva. Uma fala incompleta condena um profissional. Para ganhar curtidas, suaviza-se o que é duro. Para ganhar seguidores, exagera-se o que é pequeno.

Não à toa, pesquisas recentes mostram que mais de 70% dos torcedores afirmam formar opinião sobre o desempenho de um treinador a partir de recortes de vídeos, não de jogos completos. É a era da análise superficial.

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O linchamento digital e os alvos invisíveis

Treinadores e comissões técnicas convivem hoje com um fenômeno que vai além da pressão esportiva. É o linchamento digital. Não se criticam ideias, atacam-se pessoas. Não se questionam escolhas, atacam-se valores.

Reputações construídas em décadas se perdem em uma sequência ruim de três jogos. Já vi profissionais experientes, competentes e dedicados serem transformados em inimigos públicos em quarenta e oito horas. E quem promove esse ambiente, muitas vezes, nem percebe o dano humano que está causando.

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A cada rodada, alguém precisa ser o culpado do algoritmo.

O risco de agradar o torcedor e a perda de identidade

Outro efeito colateral dessa nova realidade é silencioso. É a tentação de agradar. Atletas, dirigentes e treinadores sabem que qualquer discurso pode virar corte, meme ou combustível para críticas. E isso muda comportamentos. Muda escolhas. Muda, até mesmo convicções.

Decisões importantes passam a ser avaliadas pelo impacto nas redes, e não pelo impacto no jogo. E quando um clube começa a atuar para agradar o momento, perde o processo, o plano e a identidade.

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O futebol não foi feito para gerar aprovação instantânea. Foi feito para sustentar ideias.

Quando todo mundo fala, quem realmente escuta?

Protagonismo do torcedor no futebol

O protagonismo do torcedor é irreversível e positivo. Eu acredito nisso. Mas transformar opinião em sentença, julgamento em conteúdo e barulho em critério é perigoso. Não apenas para os clubes, mas para o próprio torcedor, que passa a consumir um futebol cada vez mais distorcido.

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O ecossistema como um todo precisa aprender a navegar neste ambiente com maturidade. Escutar sem se submeter. Dialogar sem se curvar. Informar sem abrir mão da responsabilidade. Proteger seus profissionais sem blindá-los do mundo.

O torcedor precisa ser parte. Nunca carrasco.

O equilíbrio que precisamos reencontrar

O futuro do futebol está na conexão, não na contaminação. Está na confiança, não no ruído. Está no diálogo real, não na disputa de narrativas. O torcedor seguirá no centro do jogo. Mas o jogo não pode ser refém da ansiedade coletiva.

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Se perdermos a capacidade de contar histórias verdadeiras, de contextualizar derrotas, de proteger processos e de respeitar as pessoas, perderemos aquilo que torna o futebol maior que o próprio resultado.

O protagonismo do torcedor é avanço. O colateral tóxico precisa ser enfrentado com coragem e lucidez.

Sem verdade não existe pertencimento. E sem pertencimento o TUDO perde sentido. Inclusive, o jogo.

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Felipe Ximenes escreve sua coluna no Lance! todas as quartas-feiras. Confira outras postagens do colunista:

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