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Fair play, catimba e malandragem: a ética no futebol é mais elástica?

Atitudes de jogadores em campo levantam questões e polêmicas a todo momento

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Marcio Dolzan
Rio de Janeiro (RJ)
Dia 16/02/2026
06:50
Clássico paulista entre Corinthians e Palmeiras teve confusão e catimba (Foto: Esdras Martins/Gazeta Press)
imagem cameraClássico paulista entre Corinthians e Palmeiras teve confusão e catimba (Foto: Esdras Martins/Gazeta Press)

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Em 1986, um dos gols mais antológicos da história das Copas do Mundo contou com uma mãozinha (literalmente) de Maradona. Em 2010, a França esteve no Mundial da África do Sul muito graças a um toque de mão de Henry. Em 2002, Rivaldo simulou ter sido atingido no rosto por um jogador turco na estreia do Brasil naquela Copa, provocando a expulsão do adversário. Há menos de uma semana, Andreas Pereira esburacou a marca da cal antes de Memphis Depay cobrar um pênalti (e errar) no clássico entre Corinthians e Palmeiras, pelo Paulistão. No dia seguinte, Alisson Safira, atacante do Juventude, entrava livre na área do São José quando parou a jogada para atendimento de Diney, zagueiro do time adversário. Àquela altura, o time de Caxias do Sul perdia para o Zequinha e estava sendo eliminado do Gauchão, mas ainda assim o jogador optou pelo fair play, o chamado jogo limpo.

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Catimba, malandragem, trapaça, falta (e, às vezes, excesso) de fair play. Há inúmeros nomes para atitudes como essas, e a validade delas, juízo à parte, depende muito da ótica de quem vê. Mas será que a ética nos campos de futebol é mais elástica?

Para Alberto Reinaldo Reppold Filho, da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), o futebol é um microcosmo da sociedade e expõe a diversidade de valores que coexistem nela.

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— Os dois episódios ilustram bem essa realidade. O gesto do jogador do Juventude chamou atenção justamente por colocar o cuidado com o outro acima do resultado. Trata-se de um lance que reafirma o sentido mais nobre do esporte. Por outro lado, a tentativa do jogador do Palmeiras de interferir na marca da cobrança de um pênalti revela outro lado do jogo: a busca por vantagem a qualquer custo, ainda que isso implique ultrapassar limites éticos — diz Reppold Filho, que é membro da Academia Olímpica Brasileira e da Academia Olímpica de Portugal. Ele também já foi integrante do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

No dia 12 de fevereiro, Andreas Pereira minimizou seu ato no clássico paulista e argumentou que "só estava limpando a chuteira". A declaração rendeu muitas críticas nas redes sociais e em programas esportivos, mas também apoio de parte dos torcedores palmeirenses, principalmente pelo lance ter sido diante de um rival histórico.

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A ação de Alisson Safira, por sua vez, também rendeu reações distintas, sobretudo na noite do jogo. Boa parte de quem torcia pelo Juventude protestou contra o jogador, enquanto quem assistia à partida sem envolvimento emocional elogiou, ao menos em sua maioria.

Safira reiterou a atitude após o jogo — vale lembrar que o Juventude virou a partida nos minutos finais e se classificou à semifinal do Campeonato Gaúcho.

— É um companheiro de profissão. Eu vivo para servir e eu fiz o que eu gostaria que fizessem comigo — declarou o atacante à "Rádio Caxias". 

— É o meu caráter, é a minha pessoa, eu sou assim. Foi assim que eu aprendi em casa. O meu caráter foi forjado assim no meu berço. Na hora eu nem pensei, vi ele caído e foi uma atitude espontânea de prestar uma ajuda para o companheiro de trabalho. Na hora eu não pensei em resultado, não pensei em nada. Só pensei no lado humano, por mais que muitos não entendam e tenham vaiado. É meu caráter, eu sou assim, e acho que se tivesse que fazer eu faria de novo — acrescentou Alisson Safira.

No fundo, a reação dos torcedores, de apoio ou crítica, acaba repetindo a lógica demonstrada pelos jogadores em campo.

— De modo geral, episódios como esses tendem a reforçar valores que o público já carrega consigo. Quem valoriza o respeito e o fair play vê nos gestos solidários uma confirmação de que a ética deve prevalecer. Já aqueles que entendem o futebol como uma competição em que se busca a vitória a qualquer custo podem interpretar atitudes oportunistas como parte legítima do jogo — pondera Alberto Reppold Filho, da UFCSPA.

Juventude x São José
Jogo entre Juventude e São José terminou com cinco expulsos, mas também teve exemplo de fair play (Foto: Luiz Erbes/Gazeta Press)

O pesquisador preferiu não opinar se o jogador brasileiro é mais malandro do que a média mundial ("não conheço estudos empíricos que sustentem essa ideia"), mas fez outra ponderação.

— A palavra "malandro" possui significados distintos, que variam conforme o contexto. No futebol, ela pode oscilar entre um sentido positivo (associado à astúcia, criatividade e inteligência tática) e um sentido negativo (ligado à deslealdade ou à trapaça) — destaca Reppold Filho.

Para o acadêmico, a tal da "malandragem" está menos ligada a uma característica individual do jogador, mas a um reflexo cultural do país.

— O que parece ocorrer, no caso brasileiro, é uma supervalorização da chamada malandragem. Quando entendida em seu sentido negativo, isto é, como a tentativa de obter vantagem por meios ilícitos ou eticamente injustificáveis, ela parece, por vezes, ser relativizada ou até tolerada por determinados grupos ligados ao futebol. Portanto, trata-se menos de uma característica individual do atleta brasileiro e mais de um reflexo cultural que o futebol torna visível e amplifica.


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