Logo do Lance! branca com exclamação amarela

Caso Manchester City: entenda o impacto do veredito no clube inglês

Veja todas as atualizações do caso

PorTiago Teixeira Mendes•Rio de Janeiro (RJ)
01/10/2026 13:50

Supervisionado porNathalia Gomes,
Jogadores do Manchester City comemorando gol contra o Fulham (Foto: Paul Ellis/AFP)
Jogadores do Manchester City comemorando gol contra o Fulham (Foto: Paul Ellis/AFP)

O Manchester City entrou em uma nova fase do processo que investiga suas finanças depois que uma comissão independente considerou o clube culpado de 114 das 115 acusações apresentadas pela Premier League. Entre as principais conclusões, estão a superestimação de receitas e a redução de despesas em um total de 921,4 milhões de libras entre 2009/10 e 2017/18. O período coincide com a transformação do clube em uma potência do futebol inglês, marcada por grandes investimentos, contratações de estrelas e conquistas de títulos.

➡️ Tudo sobre os maiores craques no seu WhatsApp! Entre no Lance! Futebol Internacional!

O veredito, porém, ainda não encerra o caso. O City tem até sexta-feira (2) para recorrer, e as possíveis punições serão definidas em uma etapa posterior. Entre os cenários previstos estão multa, perda de pontos, rebaixamento e até expulsão da Premier League. Clubes que entendam ter sido prejudicados também já avaliam possíveis medidas jurídicas.

continua após a publicidade

Como o Manchester City chegou a esses números?

Para entender o tamanho do caso, é preciso separar os valores apresentados pelo Manchester City daqueles que a comissão independente considerou corretos.

Segundo o "The Athletic" e a "BBC", a investigação analisou as temporadas entre 2009/10 e 2017/18. Nesse período, a comissão concluiu que o clube apresentou informações financeiras incorretas que somaram 921,4 milhões de libras. Desse total, 855,2 milhões de libras correspondem a receitas consideradas superestimadas, enquanto 66,2 milhões de libras estão relacionados a despesas que, segundo a comissão, foram subestimadas.

continua após a publicidade

A maior parte da diferença está ligada a contratos de patrocínio com empresas de Abu Dhabi. Nas contas do City, esses acordos representaram 949,9 milhões de libras em receitas comerciais durante o período analisado.

A comissão, entretanto, concluiu que os patrocinadores haviam pago apenas 119,3 milhões de libras desse montante. Os outros 830,7 milhões de libras foram desembolsados pela Abu Dhabi United Group (ADUG), empresa proprietária do Manchester City.

continua após a publicidade

Segundo a comissão, dinheiro que saía dos proprietários do clube era registrado como receita de patrocínio. Dessa maneira, as contas apresentavam uma capacidade comercial maior do que aquela que, na avaliação da comissão, existia de fato.

Os contratos também foram considerados problemáticos porque os valores apresentados eram superiores ao que seria considerado compatível com o mercado. Além disso, o patrocinador não arcava integralmente com o valor registrado: uma parcela era paga pela própria ADUG.

continua após a publicidade

A diferença fica ainda mais clara quando se olha para a receita comercial total do Manchester City. Entre 2009/10 e 2017/18, o clube declarou 1,335 bilhão de libras nessa categoria.

Gol de Sané - Manchester City x Fulham
Jogadores comemora gol de David Silva (Foto: Oli Scarff / AFP)

Se fossem considerados apenas os valores efetivamente pagos pelos patrocinadores, sem os recursos desembolsados pela ADUG, a receita comercial do período teria sido de 398,7 milhões de libras, segundo a análise apresentada pelo The Athletic. Esse montante colocaria o City na sexta posição entre os clubes ingleses naquele intervalo, acima do Aston Villa, mas abaixo do Tottenham entre os chamados "Big Six".

continua após a publicidade

Outro mecanismo analisado pela comissão foi o chamado "Acordo Fordham". A operação envolvia uma suposta terceira parte que teria adquirido do Manchester City direitos relacionados à exploração comercial dos direitos de imagem dos jogadores.

A comissão concluiu, porém, que a Fordham era "pouco mais que uma fachada para a ADUG". O entendimento foi de que o acordo permitia ao clube registrar despesas operacionais menores do que aquelas que realmente havia realizado.

continua após a publicidade

Por isso, os 855,2 milhões de libras em receitas consideradas superestimadas são divididos em duas partes: 830,7 milhões de libras relacionados aos patrocínios financiados pela ADUG e 24,5 milhões de libras referentes ao Acordo Fordham.

Há ainda outro número importante. Entre a aquisição do clube, em 2008, e o fim da temporada 2017/18, o Manchester City recebeu 1,287 bilhão de libras em financiamento da ADUG que foi corretamente registrado nas contas.

continua após a publicidade

Quando são somados esses recursos aos valores que, segundo a comissão, foram apresentados de outra maneira, o financiamento total dos proprietários nos primeiros dez anos da gestão de Abu Dhabi chega a 2,209 bilhões de libras.

Qual foi o impacto desses valores no futebol?

Os números financeiros ganham outra dimensão quando comparados ao que aconteceu dentro de campo. Entre o verão de 2009 e janeiro de 2018, o Manchester City gastou aproximadamente 1,2 bilhão de libras em contratações. No mesmo período, conquistou sete troféus importantes: três títulos da Premier League, uma FA Cup e três Copas da Liga Inglesa.

continua após a publicidade

Foi também durante esses anos que o clube contratou alguns dos jogadores que se tornaram símbolos de sua ascensão. Sergio Agüero, David Silva, Yaya Touré e Kevin De Bruyne estão entre os nomes que chegaram ao City no período abrangido pela investigação.

Manchester City x QPR - 2012 - Gol do Agüero
Agüero comemorando o gol do título do Manchester City em 2012 (Divulgação/Manchester City)

A relação entre as finanças e o sucesso esportivo é justamente um dos pontos que tornam o caso tão relevante. Segundo a comissão, se as receitas e despesas tivessem sido apresentadas corretamente, o Manchester City teria demonstrado uma situação financeira diferente e poderia ter ultrapassado os limites estabelecidos pelas regras da Premier League e da Uefa.

Isso não permite afirmar, porém, quais contratações ou títulos teriam acontecido em uma realidade diferente. Não é possível saber se determinado jogador teria sido contratado, se uma partida teria terminado de outra maneira ou se outro clube teria conquistado um campeonato.

O que pode ser estabelecido são os números identificados pela comissão e o período em que eles ocorreram. Durante nove temporadas, o City apresentou 855,2 milhões de libras a mais em receitas do que o valor considerado correto e deixou de contabilizar 66,2 milhões de libras em despesas.

A discussão também envolve a maneira como esses recursos ajudaram a construir o elenco. O dinheiro não era destinado exclusivamente às transferências: um clube utiliza suas receitas para pagar salários, infraestrutura, serviços, seguros, marketing e outras despesas.

Ainda assim, o City gastou cerca de 1,2 bilhão de libras em jogadores no período analisado, enquanto acumulava troféus e se estabelecia entre as principais equipes da Inglaterra.

É essa combinação de números que está no centro da discussão: de um lado, as receitas que a comissão considerou artificialmente infladas; do outro, os investimentos feitos pelo clube durante o período em que essas informações financeiras eram apresentadas.

O que a comissão apontou sobre a postura do City durante o processo?

As acusações não ficaram restritas às contas do clube. O Manchester City também foi considerado culpado de múltiplas violações dos deveres de cooperação e de máxima boa-fé previstos nas regras da Premier League.

O julgamento aconteceu entre setembro e dezembro de 2024, em uma audiência que durou 42 dias. A dimensão da documentação ajuda a explicar a complexidade do processo: a acusação da Premier League tinha cerca de 500 páginas e recebeu outras 50 páginas de informações adicionais. A resposta apresentada pelo City tinha aproximadamente 200 páginas, enquanto os depoimentos das testemunhas ultrapassaram 700 páginas.

Entre as conclusões mais relevantes da comissão está a avaliação sobre algumas das testemunhas apresentadas pelo próprio Manchester City. Segundo o documento, testemunhas importantes deram depoimentos que continham informações falsas em aspectos considerados relevantes. A comissão afirmou ainda que algumas dessas pessoas sabiam que seus relatos eram falsos e, portanto, agiram de maneira desonesta.

Guardiola somou 20 títulos pelo City (Foto: Adrian Dennis/AFP)
Guardiola comemorando a Copa da Inglaterra pelo Manchester City (Foto: Adrian Dennis/AFP)

O City rejeita essa interpretação e continua sustentando que é inocente das acusações. Em comunicado divulgado após o veredito, o clube afirmou estar "desapontado e surpreso" com a decisão e disse possuir provas que, em sua avaliação, sustentam sua defesa.

– O Manchester City FC está desapontado e surpreso com o parecer da Comissão da Premier League, publicado hoje. O clube é inocente das acusações feitas pela Premier League e possui um conjunto abrangente de provas irrefutáveis que sustentam todas as suas posições relativas a este caso. O clube será, portanto, incansável e, quando necessário, proativo em todos os fóruns regulatórios e legais competentes – afirmou o clube.

O CEO Ferran Soriano também falou internamente aos funcionários do Manchester City. Ele contestou principalmente a conclusão sobre os patrocínios de Abu Dhabi e afirmou que os recursos não foram repassados secretamente pelos proprietários por meio dos patrocinadores.

– Todo o processo da Premier League contra nós se baseia em uma única acusação falsa de que o dinheiro pessoal do proprietário foi de alguma forma e secretamente investido no clube por meio de alguns patrocinadores de Abu Dhabi. Isso simplesmente não é verdade – disse Soriano.

O clube também afirmou que pretende recorrer da decisão, alegando que o parecer contém erros de direito, princípio e fato.

O que acontece agora com o recurso e as punições?

O próximo passo é justamente a tentativa do Manchester City de reverter o veredito. O clube tem 14 dias a partir da notificação da decisão para apresentar o recurso. O prazo termina nesta sexta-feira (2).

A contestação será analisada por uma nova comissão de três integrantes. Não se trata de um novo julgamento completo: o recurso funciona como uma revisão da decisão original.

Pelas regras citadas no material, a audiência de recurso pode durar no máximo cinco dias e deve ser concluída em até 12 semanas após a apresentação da contestação. Depois do fim da audiência, o novo painel terá até 30 dias para divulgar sua decisão.

Na prática, caso o City recorra no limite do prazo, o processo pode avançar até o fim do ano. As regras também permitem que os procedimentos sejam acelerados quando for necessário cumprir determinados prazos relacionados à temporada.

Depois dessa etapa, ainda existem possibilidades de contestação arbitral em situações específicas. Uma eventual ação posterior no Tribunal Superior também estaria limitada às hipóteses previstas para contestar uma decisão arbitral.

Enquanto isso, as punições continuam sem definição. A Premier League poderá aplicar multa, dedução de pontos ou outras sanções previstas em seus regulamentos.

Uma perda de pontos suficientemente grande poderia fazer o Manchester City terminar uma temporada entre os três últimos colocados e, consequentemente, ser rebaixado para a Championship.

A expulsão da Premier League é um cenário diferente. Para que isso aconteça, seria necessária uma votação na qual 15 clubes da competição fossem favoráveis à medida.

Nesse caso, não haveria uma transferência automática do Manchester City para a Championship. O futuro do clube dentro do sistema profissional inglês dependeria de uma solicitação à Federação Inglesa de Futebol e das decisões das entidades responsáveis pelas divisões inferiores.

A EFL e a National League são organizações separadas da Premier League. Portanto, nenhuma delas seria obrigada automaticamente a aceitar o City. Caso o clube fosse admitido na EFL, os 72 integrantes da entidade ainda teriam de votar sobre sua entrada.

É por isso que rebaixamento e expulsão representam situações diferentes. No primeiro caso, o City seguiria o caminho normal para a Championship. No segundo, seria necessário definir em qual nível da pirâmide do futebol inglês o clube poderia continuar.

Outros clubes podem ser afetados pelo caso?

Equipes que considerem ter perdido oportunidades esportivas ou financeiras por causa das vantagens obtidas pelo Manchester City durante o período investigado já analisam possíveis medidas jurídicas. Um dos precedentes citados no material da imprensa britânica é o processo envolvendo Burnley e Everton.

Nesse caso, o Burnley recebeu 26 milhões de libras em indenização, além de 9 milhões de libras em juros, depois que um painel concluiu que o Everton havia obtido uma vantagem esportiva ao infringir as regras financeiras da Premier League na temporada 2021/22.

O caso do City pode gerar discussões semelhantes, embora qualquer clube interessado precise demonstrar os prejuízos sofridos. Entre as possibilidades está a alegação de perda de oportunidades de classificação para competições europeias, premiações e receitas comerciais.

Clubes da Premier League já acionaram suas equipes jurídicas para analisar as consequências do veredito. O Manchester United está entre os clubes citados nesse contexto, e existe também a possibilidade de uma ação conjunta, embora isso dependa da evolução do processo.

Os títulos conquistados pelo City durante o período investigado também estão no centro da discussão. Ainda não há definição sobre qualquer alteração retroativa das competições, e o material aponta que eventuais medidas dependerão das próximas decisões do processo.

Outro ponto envolve a estrutura administrativa do clube. A Lei de Governança do Futebol de 2025 criou o Independent Football Regulator (IFR), responsável por conceder licenças aos 116 clubes das cinco principais divisões inglesas e estabelecer regras relacionadas à solidez financeira e à governança.

Haaland no clássico entre Manchester City e Manchester United, pela Premier League
Haaland no clássico entre Manchester City e Manchester United, pela Premier League (Foto: Darren Staples/AFP)

Proprietários, diretores e principais executivos estão submetidos a um sistema de avaliação de idoneidade. Em situações consideradas graves, a legislação permite que o regulador suspenda ou revogue a licença de um clube.

Por enquanto, porém, nenhuma dessas medidas foi determinada. O Manchester City ainda terá a oportunidade de recorrer do veredito, e as sanções serão definidas em uma etapa posterior.

Também não há, no material analisado, indicação de que uma investigação criminal tenha sido aberta. A BBC informou ter procurado órgãos como a National Crime Agency, a HMRC e o Serious Fraud Office, mas não recebeu confirmação de uma investigação. Alguns desses órgãos, contudo, não costumam confirmar ou negar apurações por razões de confidencialidade.

A Lei de Fraude de 2006 prevê pena de até dez anos de prisão e multa ilimitada para determinados casos de declarações falsas feitas de maneira desonesta com intenção de obter vantagem ou evitar prejuízo. Isso, porém, não significa que o caso do Manchester City tenha se transformado em uma investigação criminal: para isso, seria necessária a atuação das autoridades competentes.

➡️ Siga o Lance! no Google para saber tudo sobre o melhor do esporte brasileiro e mundial

📲 De olho no Lance! e no Futebol Internacional. Todas as notícias, informações e acontecimentos em um só lugar.

Sugerida para você!

Mais LANCE!