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Lúcio de Castro: Fernand Braudel e os 44% de posse de bola rubro-negra

Números vão na contramão da alma rubro-negra

Leonardo Jardim em Flamengo x Cruzeiro
imagem cameraLeonardo Jardim em Flamengo x Cruzeiro (Foto: Jorge Rodrigues/AGIF/GazetaPress)
Autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, esse texto não reflete necessariamente a opinião do Lance!
Dia 13/03/2026
07:00

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Quarenta e quatro por cento.  

Provavelmente o número que vai gerar os mais apaixonados debates no momento.  

Olhando assim, de relance, parece óbvio: estamos falando da corrida eleitoral.  

Num Brasil polarizado, é mais ou menos a faixa dos candidatos favoritos.  

Mas esse país sempre surpreende mesmo.  

O número do momento, os tais 44% que prometem dominar debates acalorados, nada mais são do que a posse de bola do Flamengo  diante do Cruzeiro na última quarta-feira. Conhecido também como anteontem.  

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E como o diabo mora nos detalhes, já diziam os mais letrados, o detalhe maior é tudo aqui: 44% em casa. No Maracanã.  Definitivamente, um número na contramão da história.

Muito mais do que na contramão da história: na contramão da alma rubro-negra. 

➡️ Lúcio de Castro: leia todas as colunas no Lance!

Tratamento de choque

Sim, evidentemente os mais apressados já chegaram aqui e disseram: "danem-se os 44% de posse de bola. Eu quero três pontos".  O que também é absolutamente normal e expressa a alma do torcedor.  

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Mas no caso do rubro-negro, só em sua primeira camada.

Só até a descida da rampa do Bellini.  

Assim que esse torcedor/torcedora chegou ao metrô ou à antiga estação de trem Derby Club, atual Maracanã do ramal Deodoro, o  alívio da vitória já tinha passado e os tais 44% martelavam a cabeça.  

Não é só uma mudança.  

É um dos maiores tratamentos de choque dos últimos tempos. Se não for o maior.  

A verdadeira transmutação de um corpo, a materialização de um corpo que se transforma em outro.  Em dois ou três meses após chegar ao Éden com o corpo antigo.  

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O corpo do Flamengo de Filipe Luís, que encerrou 2025 como recordista de posse de bola em uma edição de Brasileiro com  assustadores e dominantes 62,8% de posse, jogando três vezes na semana praticamente.  

Com 506 passes certos por jogo e mais assombrosos ainda 88,9% de precisão nos passes.  

Novamente os apressados irão atirar não a primeira, mas a décima pedra.

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Pedro Leonardo Jardim Flamengo Cruzeiro
Pedro e Leonardo Jardim comemoram gol do Flamengo contra o Cruzeiro (Foto: Gilvan de Souza/Flamengo)

Questão de cultura 

Guardem. Não estamos falando de uma futilidade.  

Estamos falando do time que virou dezembro campeão brasileiro, da Libertadores e obrigou o poderoso e quase imbatível PSG de  Luis Enrique à exaustão e a suar o litro.  

Portanto, a régua ficou muito alta. Muito além de um debate de posse de bola.  

Mas foi do jeito e da alma flamenga.  

Dominando.  

Da torcida que urra na arquibancada aquilo que simboliza a expressão maior do seu imaginário: "vai pra cima deles, Flamengo".  Não é um grito. É uma exigência de controle territorial, de ofensividade.  

Muito, muito além: de protagonismo.  

Que passa necessariamente por posse de bola e pressão. No popular, de amasso.  

É questão de identidade. De identidade coletiva.  

De cultura.  

E, como aquele senhor Braudel nos ensina, culturas não se mudam de uma hora para a outra. Por mais que ao fim dos noventa  minutos você grite que "dane-se a posse, quero saber de três pontos e títulos". Ao fim da rampa, volta a tal identidade.  

Atávica, amarrada.  

Que alguém na Gávea dê um Braudel de presente ao novo treinador.  

Entender a cultura de um time é também entender a longa duração braudeliana, que o historiador comparava ao leito profundo de  um rio, o nível mais profundo e lento da história, onde tudo parece imóvel. As estruturas. 

Não estou certo de que uma temporada baste para convencer nossos braudelianos rubro-negros de que 44% podem ser legais.  

Com uma régua tão alta, que para ser batida o da vez terá que no mínimo chegar até a final do Mundial, talvez 44% não bastem para  convencer o torcedor a se transmutar.  

Guardem também a acusação ao autor de ser "viúva".  

Por enquanto, é só um debate. Sobre alma.  

Leonardo Jardim é excelente treinador.  

Mas o andar da carruagem talvez lhe ensine algumas novas palavras. Outras palavras.  

Todas do dicionário vermelho e preto.  

Identidade, domínio, protagonismo.  

Do clube que escolheu construir a imagem de "mais querido", "maior", recusou ser da elite e quis ser o time da massa. Falei disso  tudo na coluna de 20 de fevereiro.  

A tarefa de Leonardo Jardim é imensa.  

Ganhar um campeonato brasileiro, uma libertadores e chegar à final do mundial.  

Mas, ao que parece, é mais do que isso.  

É também entender o que é identidade, alma, protagonismo. 

Lúcio de Castro: leia mais colunas

Lúcio de Castro escreve sua coluna no Lance! todas as sextas-feiras. Veja outras colunas:

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