Lúcio de Castro: Fernand Braudel e os 44% de posse de bola rubro-negra
Números vão na contramão da alma rubro-negra

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Quarenta e quatro por cento.
Provavelmente o número que vai gerar os mais apaixonados debates no momento.
Olhando assim, de relance, parece óbvio: estamos falando da corrida eleitoral.
Num Brasil polarizado, é mais ou menos a faixa dos candidatos favoritos.
Mas esse país sempre surpreende mesmo.
O número do momento, os tais 44% que prometem dominar debates acalorados, nada mais são do que a posse de bola do Flamengo diante do Cruzeiro na última quarta-feira. Conhecido também como anteontem.
E como o diabo mora nos detalhes, já diziam os mais letrados, o detalhe maior é tudo aqui: 44% em casa. No Maracanã. Definitivamente, um número na contramão da história.
Muito mais do que na contramão da história: na contramão da alma rubro-negra.
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Tratamento de choque
Sim, evidentemente os mais apressados já chegaram aqui e disseram: "danem-se os 44% de posse de bola. Eu quero três pontos". O que também é absolutamente normal e expressa a alma do torcedor.
Mas no caso do rubro-negro, só em sua primeira camada.
Só até a descida da rampa do Bellini.
Assim que esse torcedor/torcedora chegou ao metrô ou à antiga estação de trem Derby Club, atual Maracanã do ramal Deodoro, o alívio da vitória já tinha passado e os tais 44% martelavam a cabeça.
Não é só uma mudança.
É um dos maiores tratamentos de choque dos últimos tempos. Se não for o maior.
A verdadeira transmutação de um corpo, a materialização de um corpo que se transforma em outro. Em dois ou três meses após chegar ao Éden com o corpo antigo.
O corpo do Flamengo de Filipe Luís, que encerrou 2025 como recordista de posse de bola em uma edição de Brasileiro com assustadores e dominantes 62,8% de posse, jogando três vezes na semana praticamente.
Com 506 passes certos por jogo e mais assombrosos ainda 88,9% de precisão nos passes.
Novamente os apressados irão atirar não a primeira, mas a décima pedra.
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Questão de cultura
Guardem. Não estamos falando de uma futilidade.
Estamos falando do time que virou dezembro campeão brasileiro, da Libertadores e obrigou o poderoso e quase imbatível PSG de Luis Enrique à exaustão e a suar o litro.
Portanto, a régua ficou muito alta. Muito além de um debate de posse de bola.
Mas foi do jeito e da alma flamenga.
Dominando.
Da torcida que urra na arquibancada aquilo que simboliza a expressão maior do seu imaginário: "vai pra cima deles, Flamengo". Não é um grito. É uma exigência de controle territorial, de ofensividade.
Muito, muito além: de protagonismo.
Que passa necessariamente por posse de bola e pressão. No popular, de amasso.
É questão de identidade. De identidade coletiva.
De cultura.
E, como aquele senhor Braudel nos ensina, culturas não se mudam de uma hora para a outra. Por mais que ao fim dos noventa minutos você grite que "dane-se a posse, quero saber de três pontos e títulos". Ao fim da rampa, volta a tal identidade.
Atávica, amarrada.
Que alguém na Gávea dê um Braudel de presente ao novo treinador.
Entender a cultura de um time é também entender a longa duração braudeliana, que o historiador comparava ao leito profundo de um rio, o nível mais profundo e lento da história, onde tudo parece imóvel. As estruturas.
Não estou certo de que uma temporada baste para convencer nossos braudelianos rubro-negros de que 44% podem ser legais.
Com uma régua tão alta, que para ser batida o da vez terá que no mínimo chegar até a final do Mundial, talvez 44% não bastem para convencer o torcedor a se transmutar.
Guardem também a acusação ao autor de ser "viúva".
Por enquanto, é só um debate. Sobre alma.
Leonardo Jardim é excelente treinador.
Mas o andar da carruagem talvez lhe ensine algumas novas palavras. Outras palavras.
Todas do dicionário vermelho e preto.
Identidade, domínio, protagonismo.
Do clube que escolheu construir a imagem de "mais querido", "maior", recusou ser da elite e quis ser o time da massa. Falei disso tudo na coluna de 20 de fevereiro.
A tarefa de Leonardo Jardim é imensa.
Ganhar um campeonato brasileiro, uma libertadores e chegar à final do mundial.
Mas, ao que parece, é mais do que isso.
É também entender o que é identidade, alma, protagonismo.
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