'Marlone é uma história brasileira, de quem tinha tudo pra dar errado'
Meia-atacante do Corinthians disputa nesta segunda-feira o prêmio do gol mais bonito do mundo em 2016, e carrega uma história de lutas e vitórias que representa o povo brasileiro

Mais de 6.500 crianças e adolescentes brasileiros esperam por uma família, segundo dados do Cadastro Nacional de Adoção. Por dia, nove crianças filhas de mães adolescentes morrem antes de completar um ano de idade. Aproximadamente 14% das crianças adotadas possuem riscos elevados de desenvolver problemas de saúde mental. No Brasil, 9 milhões de meninos tentam jogar futebol, mas nem 5% dos que entram nas peneiras conseguem se tornar profissionais. Mais de 80% dos jogadores no país ganham menos de R$ 1 mil por mês. E por aí vai.
Eu podia ficar até segunda-feira enumerando estatísticas, mas haverá algo mais importante a fazer: acompanhar a cerimônia de premiação dos melhores jogadores do mundo da Fifa e especialmente o Prêmio Puskas, que tem o brasileiro Marlone com boas chances de vencer como autor do gol mais bonito de 2016. Eu estava na Arena Corinthians naquele dia e escrevi essa crônica aqui sobre os 6 a 0 na Libertadores - uma das poucas alegrias do torcedor corintiano no ano passado, aliás.
Nesta segunda-feira, Marlone representará o Corinthians na premiação da Fifa. Ou melhor, Marlone representará o Brasil. Perdoem, vou corrigir de novo: Marlone vai representar o brasileiro.
Somos um povo feliz, criativo, adaptável, aberto e guerreiro. Somos um povo que vence estatísticas diariamente e acorda no dia seguinte para matar novos leões. Sofremos todo tipo de pancada - violência, corrupção, desonestidade, maldade -, mas levantamos, nos refazemos e sorrimos. Que maneira melhor de enfrentar os problemas a não ser com um sorriso?
Marlone, este brasileiro que estará na festa da Fifa segunda-feira, é filho de uma relação extraconjugal, nasceu quando a mãe tinha 13 anos e tem um irmão gêmeo que só conheceu quando adolescente. A família biológica não tinha condições de criá-lo - e não estou falando de luxo, estou falando do básico. Colocado para adoção, foi escolhido para ter uma família, mas o irmão, não.
Marlone descobriu esse irmão por acaso, mas a alegria durou pouco: foi separado de novo, porque Marlon precisava ajudar a família a se sustentar. Anos mais tarde, o Orkut os reaproximou. E você aí, me diga, o quanto as redes sociais te aproximam de quem você ama? A foto do filho, a mensagem de áudio da mãe, a oração da tia... Nem que seja por meio de uma tela, podemos ficar próximos de quem amamos de vez em quando.
Marlone fez a vida no futebol, esse sonho de tantos brasileiros. Foi descoberto pelo Vasco numa dessas peneiras Brasil afora, mas ralou. E como ralou. Chegou a ser dispensado por conta de um erro em seu registro de nascimento, mas seguiu. Não tinha dinheiro pra voltar pra casa durante os períodos de festas, tipo Natal, Ano Novo e Carnaval, e sofria. Mas seguiu. A alimentação era insuficiente e a necessidade o obrigava a catar restos, como biscoitos murchos e sacos de amendoim cheios de formiga. Não é exagero! Ele chorava, mas seguia. Doente? Nada de cuidados da mãe. Muito longe, muito caro. Mas era pra seguir. Amigos? Poucos. Se não contasse dinheiro ou esbanjasse boa vida na cara dele já era alguma coisa... Dificuldades? Imensas. Mas ele seguiu.
Marlone seguiu e seguiu. E hoje defende o Corinthians, um dos clubes mais importantes do país, e pode ser premiado como autor do gol mais bonito do mundo. Marlone é bem pago, assediado, disputado. Tudo isso porque seguiu. Deu valor à família, respeitou quem devia ser respeitado, confiou em si e trabalhou duro para ter alguma coisa. Como nós fazemos todos os dias.
Nelson Rodrigues, torcedor do Fluminense em que Marlone jogou recentemente, dizia que o brasileiro, quando acredita em si mesmo, é imbatível. Nós somos um povo único, especial. E histórias como as de Marlone nos representam.
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