ANÁLISE: Fim do casamento entre Vasco e Zé Ricardo é a melhor opção para os dois lados seguirem felizes
Desgaste entre torcida e treinador, apesar da trégua, é visível e diretoria, agora se sentindo traída, vai ter de atender a demanda das arquibancadas sem repetir erros de 2021

Qual Zé Ricardo o torcedor do Vasco tem que se lembrar? O de 2017, que assumiu um time desacreditado e classificou para a Copa Libertadores? Ou o deste ano, que após um início desanimador mostra poder de reação e se segura como pode no G-4 da Série B?
No que depender do treinador, as duas opções são válidas. E talvez seja para se poupar de um desgaste ainda maior com os vascaínos e uma hipotética demissão após a chegada da 777 Partners que veio a decisão de pedir demissão e com isso acertar sua ida para o Shimizu S-Pulse, do Japão, onde terá um contrato de dois anos com opção de renovação e gordas luvas à disposição.
A verdade é que o capítulo final de Zé Ricardo em sua segunda passagem pelo futebol profissional do Vasco - já havia sido técnico do futsal nos anos 1990 - é bom tanto para o clube quanto ao treinador.
Existe, claro, a ponderação pela interrupção de um trabalho a dois dias do início de (mais) uma semana intensa na Série B, com duelos ante Náutico e o líder Cruzeiro na sequência, quando justamente a equipe parecia ter encontrado um alinhamento.
Mas - e sempre existem os mas -, a verdade é que o Vasco 2022 estava longe de empolgar uma torcida que parece de novo dar demonstrações de amor a seu time muito mais por puro sentimento de compaixão do que pela satisfação por um trabalho de excelência. E isso é muito válido, importante ressaltar.
Zé Ricardo aceitou o retorno ao Vasco ainda no ano passado, quando o clube vivia o inédito limbo de um fracasso na Segundona, sem sequer ter a sombra da 777 cogitada para assombrá-lo com uma demissão. Como é de praxe com o presidente Jorge Salgado, lhe foi entregue a chave do departamento de futebol. E passou a trabalhar. Indicou Carlos Brazil para ser o gerente, ajudou a montar uma comissão técnica fixa, apontou reforços, reestruturou departamentos e colaborou com outras áreas do clube.
Tudo isso é muito válido. Mas dentro das quatro linhas, o Vasco 2022 não engrenou. Passou um Estadual sem empolgar e sem conseguir fazer frente a seus rivais. Foi eliminado precocemente pela Juazeirense na segunda fase da Copa do Brasil. E vinha somando vitórias magras na Série B.
A lua de mel atual entre clube e equipe passa à margem de Zé Ricardo, que ao mesmo tempo em que era cobrado pelas organizadas em aeroporto, entrava em atritos com Nenê, principal líder do elenco e era xingado nos jogos em São Januário, via a torcida empolgada e esperançosa com a chegada da 777.
Enquanto mantinha o Vasco a duras penas no almejado G-4 do acesso, sem nenhum brilho, lembrou dos rivais que já desfrutam das SAFs. Enderson Moreira levou o Botafogo de volta à elite e acabou demitido por John Textor ostentando aproveitamento superior a 70%. Ronaldo assumiu o Cruzeiro e não poupou Vanderlei Luxemburgo, até então o guia da reformulação celeste após dois anos de fiasco na Segundona.
Com uma torcida fria quanto a seu trabalho e um aproveitamento pouco impressionante de 58,6% - 12 vitórias e oito empates em 25 jogos - qual a segurança de que a 777 o manteria tão logo coloque suas mãos no controle do futebol cruz-maltino? Qual apoio viria das arquibancadas ao treinador que todos pedem a saída?
Não havia segurança alguma para Zé Ricardo. E a melhor defesa da Série B e a invencibilidade, seu cartão de visitas até aqui são muito poucos para sustentar a quarta colocação vascaína na classificação, com 18 pontos, mais frágil que sólida.
Pode-se discutir o 'timming'. Mas não a causa. Que Zé Ricardo seja feliz no Japão. Que o Vasco seja feliz na Série B. O casamento conturbado que prometia por parte dos dirigentes ser duradouro, acabou. Para o bem de ambos.
TABELA
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