Logo do Lance! branca com exclamação amarela

Ace do Acioly – João Fonseca e o xadrez do circuito: aprendizados, atalhos e armadilhas

O calendário é peça-chave na trajetória de um tenista profissional

PorRicardo Acioly
Colunista
Rio de Janeiro (RJ)
07/08/2025 11:31
Atualizado em 07/08/2025 18:00

Autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, esse texto não reflete necessariamente a opinião do Lance!
João Fonseca comemora ponto na vitória sobre Bergs em Eastbourne (Divulgação)
João Fonseca comemora ponto na vitória sobre Bergs em Eastbourne (Divulgação)

Muito se tem falado sobre o calendário de torneios do João Fonseca — e, sinceramente, acho ótimo. É sinal de que o tênis brasileiro está vibrando, discutindo, prestando atenção. Só lamento quando as críticas são feitas com pouco embasamento, mas entendo que no Brasil todo mundo gosta de dar seu "pitaco" — e está no direito.

Foi pensando nisso que resolvi trazer à tona alguns dados, comparativos, bastidores e, claro, a minha visão. Não só como ex-jogador, mas principalmente como treinador que já montou calendários para diversos atletas no circuito ATP. E acredite: o calendário é peça-chave na trajetória de um tenista profissional.

continua após a publicidade

➡️Fique por dentro de tudo que acontece no mundo do tênis

🎯 O objetivo inicial: entrar no Top 100

É o primeiro grande marco. Estando entre os 100 melhores, o jogador começa a montar um calendário com mais previsibilidade: consegue entrar direto nos torneios maiores, incluindo os Grand Slams. Já quem está fora, vive em constante incerteza, esperando listas de entrada, escolhendo entre Challengers e qualificatórios de ATPs.

E uma vez dentro do Top 100, o jogo muda de figura. O caminho natural é a evolução rumo ao Top 50, onde o tenista praticamente "é obrigado" a disputar todos os Grand Slams, os Masters 1000, alguns ATP 500 e poucos ATP 250. A partir daí, entender o sistema, as regras de entrada e as possibilidades se torna fundamental — e decisivo para a carreira.

continua após a publicidade

➡️Siga o Lance! no WhatsApp e acompanhe em tempo real as principais notícias do esporte

👥 Casos de sucesso: Guga e Djokovic

Dois grandes exemplos ajudam a ilustrar o impacto de um calendário bem (ou mal) executado. 

Vamos usar como ponto de partida o momento em que Guga e Djokovic entraram no Top 100 — exatamente onde o João está agora.

📊 GUSTAVO KUERTEN – GUGA

ANO# DE TORNEIOS    EVOLUÇÃO RANKING

1996

            25

              188 → 88

1997

            28

                87 → 14

1998

            29

                14 → 23

1999

            27

                23 → 5

TOTAL

DE TORNEIOS EM 4 ANOS: 109

📊 NOVAK DJOKOVIC

ANO# DE TORNEIOS    EVOLUÇÃO RANKING

2005

            15*

                186 → 78

2006

            22

                  78 → 16

2007

            24

                  16 → 3

2008

            21

                    3 → 3

TOTAL 

DE TORNEIOS EM 4 ANOS: 82

*Em 2005, jogou apenas dois torneios após o US Open, possivelmente por lesão.
**As colunas se referem ao ano, ao número de torneios disputados e à evolução no ranking.

Diferenças entre Guga e Djokovic

A diferença salta aos olhos: Guga jogou bem mais torneios nesse período. Naquela época, montar calendário era um verdadeiro quebra-cabeça, principalmente por causa da variação extrema dos pisos. Saibro lento, grama super rápida, quadras duras instáveis… Era quase um novo esporte em cada gira.

continua após a publicidade

Essa variação fazia os jogadores se dividirem entre duas estratégias: jogar de tudo, sabendo que os pisos desfavoráveis trariam derrotas, ou focar apenas nos mais adequados ao seu estilo. Mais torneios significava menos tempo de treino, menos descanso, pré-temporada mais curta e maior desgaste físico e mental.

Acredito que isso impactou diretamente na carreira do Guga, que sofreu com uma grande lesão e não conseguiu jogar tantos anos quanto poderia. Uma pena, pois ele certamente iria ter ganho muitos mais se tivesse tido mais tempo de circuito.

continua após a publicidade

Já Djokovic chegou ao circuito num momento de mudança. Em 2002, Wimbledon trocou a grama por um tipo mais firme e lenta. A tendência se espalhou. Quadras duras e cobertas também ficaram mais lentas. As bolas? Mais pesadas e lentas também.

Isso uniformizou o jogo, facilitando o planejamento dos torneios. Era possível jogar o ano todo e ser competitivo com ajustes mínimos. Para um jogador versátil como Djokovic, isso foi ouro. E é uma das razões da sua longevidade e sucesso — que o mantém brigando por títulos aos 38 anos.

continua após a publicidade
João Fonseca na vitória sobre Brooksby em Wimbledon (Divulgação/AELTC/Florian Eisele)
João Fonseca na vitória sobre Brooksby em Wimbledon (Divulgação/AELTC/Florian Eisele)

E o calendário do João Fonseca?

🧱 A fase de construção

João Fonseca está em um momento único: jogando os maiores torneios ainda muito jovem. É tentador mirar apenas o curto prazo, mas o ideal é pensar grande e com visão de médio a longo prazo.

Sempre planejei meus jogadores para chegar ao "limite" — e quando isso acontecia, já tínhamos o próximo passo desenhado. Isso vale para o João: o caminho ao topo precisa ser construído com base no que funciona para ele — eliminando rapidamente o que não traz resultado. 

continua após a publicidade

O número de torneios que ele jogar nestes primeiros anos de Tour pode ser determinante para o sucesso no decorrer de sua carreira.

🔧 Estilo de jogo e adaptação

A boa notícia: hoje os pisos são mais uniformes, o que ajuda muito. Sacar bem, bater forte do fundo, ser consistente e se mover com eficiência virou o padrão — e João tem tudo isso.

Ele é técnico, completo e adaptável. Os ajustes entre pisos são o maior desafio — e até nisso ele vem mostrando evolução. A tendência é melhorar ainda mais com o tempo.

continua após a publicidade

🧠 Desenvolvimento contínuo

Todo tenista precisa estar em constante evolução. Ficar igual de um ano para o outro é sinônimo de retrocesso. Melhorar saque, direita, devolução, voleios, movimentação, defesa, transição… tudo isso faz parte da construção de um jogador top.

E o calendário precisa estar alinhado a esse processo. Pré-temporada é sagrada. É nela que se corrigem falhas e se adicionam novas armas. Ano após ano!

continua após a publicidade

No caso do João, vejo progresso tanto nos torneios quanto após os períodos de treino. O trabalho do Guilherme (treinador) mostra consciência disso.

💼 Compromissos fora da quadra

A carreira de um tenista também se parece com o crescimento de uma empresa. João deixou de ser um "microempreendedor" e virou rapidamente uma empresa grande — a caminho de se tornar uma multinacional.

continua após a publicidade

Com o crescimento vêm os compromissos comerciais: patrocínios, garantias financeiras para jogar certos torneios, aparições em eventos… Isso tudo precisa ser considerado no planejamento.

Minha torcida é para que o que mais pese sempre seja o que acontece dentro da quadra. Que o Gui tenha liberdade para fazer o que é melhor tecnicamente — e que o calendário seja o grande aliado rumo ao topo.

continua após a publicidade

Vamos aos dados do brasileiro:

📊 João Fonseca 2024/2025

ANO    # DE TORNEIOS    EVOLUÇÃO RANKING

2024

                26

                730 → 145

2025

                20**

                145 → 47

** Inclui torneios até a Laver Cup em setembro.

Com 16 torneios já disputados até agora, João tem mais 4 eventos confirmados: Cincinnati, US Open, Copa Davis e Laver Cup. Isso totaliza 20 torneios. Ainda há a possibilidade de ir a Shanghai (Masters 1000) — mas aqui vai meu "pitaco" (com todo respeito, Gui!):

👉 Shanghai é tentador, mas o desgaste da viagem e do fuso horário após a gira americana pode prejudicar o final da temporada.

Minha sugestão: três semanas de treino pós-Laver Cup e fechar o ano com quatro torneios em quadra coberta na Europa. Isso levaria o total de 2025 para 24 torneios, um número excelente para sua primeira temporada completa no ATP Tour.

continua após a publicidade

Cincinnati começa hoje.

Vai com tudo, João!! 

Muita sorte e Pau na Bola!!!

Abraços,
Pardal

Ace do Acioly no Lance!:

Ricardo Acioly escreve mensalmente no Lance! abordando o tênis. Leia mais publicações do colunista:

➡️ Wimbledon: Game, Set, Match! Acabou a temporada de grama!
➡️ Roland Garros 2025 – emoção, drama e protagonistas do futuro
➡️O saibro esquenta: chegamos à metade da gira!

Sugerida para você!

Mais LANCE!