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Gestão Esportiva na Prática: o alto desempenho não suporta a mediocridade

Distância entre os dois extremos costuma ser construída ao longo de toda uma temporada

PorFelipe Ximenes•
Colunista
Rio de Janeiro (RJ)•
05/11/2026 07:00

Autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, esse texto não reflete necessariamente a opinião do Lance!
Comentaristas debatem possíveis campeões do Brasileirão 2026 (Foto: Divulgação/CBF)
Troféu do Campeonato Brasileiro de 2026 (Foto: Divulgação/CBF)

Nesta semana, enquanto procurava um assunto para esta coluna, recebi de um amigo um artigo da McKinsey, assinado por Seth Goldstrom. O autor reuniu conversas com atletas, treinadores e dirigentes para identificar oito comportamentos presentes entre aqueles que conseguem vencer repetidamente.

Uma frase do treinador de futebol americano Nick Saban, citada no texto, me chamou a atenção: "Pessoas medíocres não gostam de pessoas de alto desempenho, e pessoas de alto desempenho não gostam de pessoas medíocres".

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Li e reli. A afirmação parece dura, até arrogante, principalmente quando classificamos pessoas por seus resultados. Mas existe nela uma provocação que reconheço no cotidiano das organizações esportivas. O alto desempenho incomoda porque exige disciplina, preparação, responsabilidade e uma disposição permanente para melhorar. Sobretudo, porque torna mais difícil justificar aquilo que deixamos de fazer.

No futebol, quase todos querem vencer. A diferença começa quando esse desejo precisa se transformar em comportamento, especialmente naqueles dias em que ninguém está olhando e os resultados ainda não oferecem qualquer recompensa. Isso aparece na qualidade de um treino, no cuidado com a recuperação, na preparação de uma viagem, na análise de um adversário e na decisão que alguém toma antes de o problema se tornar público. Uma temporada também é construída longe do campo.

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O resultado final não conta toda a história

Desde 2003, quando a Série A do Campeonato Brasileiro adotou os pontos corridos, convivemos com uma cena recorrente no encerramento das temporadas. Equipes lamentam uma vaga perdida, um título que escapou ou um rebaixamento consumado pela diferença de apenas um ponto. A tabela não deixa dúvidas. Mas será que a diferença de desempenho foi realmente tão pequena?

Gosto de comparar essa situação com a vida escolar. Imagine um aluno que precisa alcançar 60 pontos, de um total de 100, para ser aprovado. Ao terminar o ano com 59, ele lamenta o ponto que faltou. É verdade. Mas também deixou de conquistar outros 41 pontos possíveis ao longo do período. Concentrar toda a explicação naquele último ponto é ignorar o percurso que o levou até ali. Evidentemente, ninguém espera que um aluno obtenha nota máxima em todas as avaliações, assim como nenhum clube vence todas as partidas. A comparação ajuda a perceber o quanto um resultado final pode empobrecer a análise de um processo inteiro.

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No futebol acontece algo semelhante. O lamento costuma encontrar um pênalti desperdiçado, uma decisão da arbitragem ou um gol sofrido nos minutos finais. São episódios relevantes, alguns até decisivos. Mas quantos pontos escaparam antes? Quantas oportunidades de corrigir comportamentos, melhorar processos ou sustentar a preparação foram desperdiçadas durante meses?

Alto desempenho exige constância, mais do que fases de boas atuações. Exige manutenção de padrões, mais do que picos de inspiração. Não significa vencer sempre, algo impossível no esporte, mas preservar qualidade de trabalho, capacidade de correção e compromisso com o processo, inclusive depois das derrotas e nos períodos em que o trabalho parece não avançar.

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Goldstrom descreve justamente essa disciplina entre os melhores. Eles estabelecem objetivos, constroem planos, acompanham indicadores, procuram pequenas vantagens e aceitam avaliações rigorosas. Não esperam a última rodada para descobrir que precisavam ter feito mais. Há uma distância enorme entre querer vencer e aceitar as consequências práticas desse desejo.

Faço aqui uma distinção importante. Mediocridade, neste contexto, não é falta de talento, de oportunidade ou de resultado. É acomodação. É resistir ao aprendizado, naturalizar falhas recorrentes e encontrar explicações para continuar fazendo exatamente o que já não funciona.

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Excelência também é responsabilidade de quem lidera

Regulamento do Sistema de Sustentabilidade Financeira (SSF), modelo de fair play brasileiro elaborado pela CBF
Regulamento do Sistema de Sustentabilidade Financeira (SSF), modelo de fair play brasileiro elaborado pela CBF - (Foto: Junior Souza/CBF)

Por isso, a presença de alguém comprometido com a excelência provoca tanto desconforto. Ele questiona hábitos consolidados e eleva padrões que pareciam suficientes. Entretanto, a exigência só tem legitimidade quando alcança também quem lidera. Clubes que cobram desempenho sem oferecer direção, sem honrar seus compromissos financeiros e sem estrutura adequada de treinamento ajudam a produzir o comportamento que depois condenam. Quando uma organização tolera improvisos, modifica seus critérios a cada derrota e trata a cobrança pública como substituta do trabalho, não pode transferir toda a responsabilidade pela falta de constância aos profissionais que estão em campo.

Também não deixa de ser um erro confundir excelência com arrogância. Quem não aceita críticas, não reconhece limites ou acredita que já sabe o suficiente pode estar tão acomodado quanto aqueles que costuma apontar como medíocres.

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Uma cultura vencedora se constrói nas escolhas cotidianas, especialmente nas menos visíveis. A pontuação final registra o que aconteceu, mas não conta, sozinha, como uma equipe se preparou, reagiu às dificuldades e utilizou as oportunidades que teve.

Ao final, deveríamos lamentar menos o ponto que faltou e examinar melhor tudo aquilo que aceitamos enquanto ele ainda podia ser conquistado.

Porque a mediocridade raramente se instala de uma vez. Ela vai sendo aceita, justificada e incorporada ao cotidiano, até que, ao final de uma temporada, aparece na tabela sob a forma de um único ponto.

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