A certidão de nascimento da Granja Comary: como ela virou a casa da seleção
Encontramos a escritura da milionária fazenda dos Guinle, comprada pela CBD em 1978

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A Granja Comary, em Teresópolis, receberá a Seleção Brasileira a partir de 27 de maio para iniciar a preparação para a Copa do Mundo, fato que irá se repetir pela oitava vez desde que a CBF inaugurou o Centro de Treinamento na região serrana do Rio, em 1987. Mas a história do CT da Seleção começou nove anos antes, com a aquisição do terreno que pertencia a uma família que, no passado, esteve entre as mais ricas do País.
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A Granja Comary ocupa parte do que um dia foi a fazenda da família Guinle. Adquirida em 1920 por Eduardo Guinle — cujo pai começou a fazer fortuna três décadas antes, quando passou a administrar o porto de Santos —, a fazenda era o local de descanso da família em Teresópolis, e também de negócios.
Quando se tornou proprietário da fazenda, Guinle mandou abrir estradas e construiu chalés e jardins em torno do lago Comary, ainda hoje um dos espaços mais bucólicos de Teresópolis. Na década de 1940, o filho Carlos Guinle diversificou o espaço: importou galinhas da França para produção de ovos, trouxe gansos, faisões… E nos anos 1950, começou a desmembrar a fazenda para transformá-la em um loteamento residencial de casas de alto padrão.
Mas o tempo foi passando, e a fortuna da família foi diminuindo. Na década de 1970, os Guinle decidiram vender a parte da fazenda que ainda restava. E foi aí que começou a nascer o que viria a ser o CT da Seleção.

A escritura de transferência foi registrada em 19 de abril de 1978 pelos herdeiros da família Guinle e pelo almirante Heleno de Barros Nunes, então presidente da Confederação Brasileira de Desportos (que anos mais tarde se transformaria na CBF).
"O preço da compra e venda é no valor de Cr.$ 20.000.000,00 (vinte milhões de cruzeiros), pago na seguinte conformidade: a) a parcela de Cr.$ 2.000.000,00 (dois milhões de cruzeiros) foi paga no dia 24 de fevereiro do corrente ano; b) a parcela de Cr.$ 18.000.000,00 (dezoito milhões de cruzeiros) é paga no presente ato, mediante o cheque nº SL 6839 do Unibanco", diz trecho da escritura.
O Lance! teve acesso ao documento, espécie de "certidão de nascimento" do CT da Seleção. Ele integra o Projeto Memórias Notariais, iniciativa do Colégio Notarial do Brasil – Seção São Paulo (CNB/SP), que identifica e divulga escrituras públicas de relevância histórica para o País.
— A escritura é o primeiro passo formal: é ali que o negócio ganha forma jurídica e viabiliza o registro do imóvel. A partir disso, abre-se o caminho para a criação da Granja Comary, que depois se consolidaria como o principal centro de treinamento da Seleção —, diz o tabelião Andrey Guimarães Duarte, que é vice-presidente do CNB/SP.

Os Cr.$ 20 milhões de cruzeiros pagos à época equivaleriam a aproximadamente R$ 29 milhões na cotação atual. A atualização de valores considera o IGP-DI (Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna), calculado mensalmente pela Fundação Getulio Vargas (FGV).
Mas a simples correção de valores nem de perto representa o valor real do local nos dias de hoje. Isso porque nestas quase cinco décadas o Brasil teve períodos de inflação galopante e diferentes índices de correção, o que impede uma comparação direta mais precisa.
Além disso, a CBD comprou a Granja Comary em um período em que ela era apenas um pedaço de terra. Nos últimos quarenta anos, a região se urbanizou e hoje é um dos bairros mais valorizados de Teresópolis. Assim, estima-se que o terreno ocupado pelo CT da Seleção tenha valor de mercado próximo a R$ 100 milhões.

Seleção passou a usar a Granja Comary em 1987
Apesar de ter sido adquirida em 1978, a Granja Comary passou efetivamente a ser o CT da Seleção apenas nove anos depois, em 1987.
Desde então, o Brasil se preparou por lá para quase todas as Copas do Mundo. As exceções foram os períodos que antecederam os Mundiais de 2006, na Alemanha, quando Carlos Alberto Parreira decidiu levar a equipe para Weggis, na Suíça; e de 2022, quando Tite fez a primeira parte da preparação em Turim, na Itália, antes de rumar para o Catar.
Carlo Ancelotti conheceu a Granja Comary logo na primeira semana como técnico da Seleção, no fim de maio do ano passado. E, em setembro, fez lá a preparação do time para os dois últimos jogos das Eliminatórias, diante de Chile e Bolívia. Na ocasião, elogiou a cidade e a estrutura oferecida para treinos.
— Teresópolis tem o mesmo clima de onde eu morava quando era menino. A Granja é um grande Centro de Treinamento; tudo está perfeito, tudo está muito bem organizado, o gramado é perfeito —, disse à época o técnico da Seleção Brasileira.
As galinhas francesas e os faisões dos tempos de Carlos Guinle já não fazem parte da rotina da Granja. Mas o lago Comary, que fica ao lado do CT da Seleção, ainda abriga dezenas de gansos, alguns patos e marrecos. E será nesse ambiente que, a partir do dia 27, os 26 convocados vão manter uma tradição que se mantém há quase meio século.
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