PIB, poder e liberdade: o que o caso Lucas revela sobre a nova economia do esporte
Brasil ofereceu a Lucas a flexibilidade e a liberdade comercial que ele não tinha

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Fabiana Bentes
(Especial para o Lance!)
Quando Lucas Pinheiro Braathen deixou a Noruega para competir pelo Brasil, muita gente leu a decisão como uma simples troca de nacionalidade esportiva. Não foi e, na verdade, mostrou um movimento econômico que precisa pautar as discussões do movimento olímpico daqui em diante.
A Noruega é uma das economias mais sólidas do mundo. Seu PIB per capita está entre os mais altos do planeta. É referência em gestão pública, eficiência institucional e investimento esportivo. Ainda assim, perdeu um atleta de elite por um conflito estrutural relacionado à autonomia comercial para um país que sequer tem neve.
Isso exige reflexão, e muita.
Lucas não saiu por falta de estrutura técnica, não saiu por ausência de investimento estatal, saiu porque o modelo centralizado de patrocínio limitava sua liberdade de gerir sua própria marca e seus contratos privados.
E aqui está o ponto central: o esporte olímpico entrou definitivamente na economia da marca. Mas não da marca do movimento olímpico, a marca que levou o atleta até ali.
Hoje, os atletas são ativos econômicos. Eles movimentam patrocinadores, mídia, audiência digital e posicionamento internacional. Em muitos casos, iniciam suas trajetórias com capital familiar e investimento privado antes de qualquer apoio institucional; funcionando como pequenas empresas de alta performance., e quando um sistema limita a autonomia desse ativo, ele reduz sua capacidade de gerar valor.
O paradoxo é evidente:
Um país com PIB robusto, estrutura consolidada e excelência esportiva perdeu talento para um país com PIB menor, menos tradição no esporte de inverno e infraestrutura muito mais modesta. Mas como isso foi possível? De forma transparente, foi oferecido um planejamento estratégico que supriu as necessidades do atleta, alinhada à capacidade de execução da Confederação Brasileira de Desportos na Neve e a visão plural do Comitê Olímpico do Brasil.
O Brasil enxergou oportunidade onde outros viram conflito, oferecendo liberdade comercial e flexibilidade. Entendeu que, na economia contemporânea, reter talento não depende apenas de investimento estatal, depende de ambiente regulatório inteligente.

O esporte, hoje, não é apenas política pública ou demonstração de poder entre nações; é uma indústria que movimenta globalmente centenas de bilhões de dólares por ano, e os atletas são protagonistas e plataformas de influência. São ativos de exportação de imagem. São instrumentos de soft power. E quando um país cria barreiras excessivas, ele não está apenas regulando, está competindo; e o talento migra para ambientes mais favoráveis.
O caminho do Ouro
O caso Lucas revela algo maior do que uma disputa entre Noruega e Brasil. Revela que estamos entrando numa nova fase da geopolítica esportiva: a competição por modelos.
Países que compreenderem que o atleta é parceiro econômico e não apenas representante institucional, estarão melhor posicionados para atrair e reter capital humano esportivo.
O Brasil, neste caso, foi estratégico: não venceu na comparação de PIB mas venceu na leitura do momento.
E, na economia global, muitas vezes não é o maior que avança, é o mais adaptável. O debate que precisa ser feito não é mais sobre bandeira, é sobre o ambiente que este atleta poderá representar quem de fato deu suporte para construir sua carreira. E não apenas os países precisam despertar para este debate e reflexão, os próprios Comitês Olímpico e Paralímpico Internacionais precisam despertar para a nova era dos atletas influenciadores, independentes, motores de economia, marca, estilo de vida, e visibilidade para os Jogos. Afinal, não é a visibilidade que os patrocinadores institucionais também querem?
Fabiana Gracindo Bentes de Rengifo é presidente do Instituto Sou do Esporte
Autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, esse texto não reflete necessariamente a opinião do Lance!
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