Estrutura e financiamento dos esportes de neve no Brasil
Como CBDN, CBDG e COB viabilizam atletas tropicais com verba e logística.

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O Brasil é um caso raro no esporte de inverno: um país tropical tentando competir em modalidades que exigem gelo, neve, altitude e infraestrutura cara. Para que atletas brasileiros cheguem a Jogos Olímpicos de Inverno, Copas do Mundo e circuitos internacionais, não basta talento. É necessária uma engrenagem institucional que converta recursos públicos e privados em treinamento, viagens, equipe técnica e, sobretudo, equipamento de alta performance. O Lance! explica tudo sobre a estrutura e financiamento dos esportes de neve no Brasil.
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Esse ecossistema passa por três atores centrais: o Comitê Olímpico do Brasil (COB), a Confederação Brasileira de Desportos na Neve (CBDN) e a Confederação Brasileira de Desportos no Gelo (CBDG). Na prática, são essas entidades que organizam a operação: orçamento, calendário internacional, contratação de treinadores, compra de material e planejamento de ciclos olímpicos.
Quando se pergunta "como atletas brasileiros conseguem equipamentos e patrocínio para esportes de neve?", a resposta envolve uma combinação de repasses de loterias, programas federais, mecanismos fiscais e acordos técnicos com centros no exterior. É um modelo mais burocrático do que parece na TV — e frequentemente decidido em planilhas, editais e prazos de importação.
Ao mesmo tempo, a realidade impõe limites. Patrocínio privado amplo ainda é exceção, e o custo logístico de competir fora do país (por meses, todos os anos) faz com que a eficiência administrativa pese tanto quanto o desempenho esportivo.
Estrutura e financiamento dos esportes de neve no Brasil
Evolução histórica do suporte financeiro no Brasil
Até os anos 1990, a participação brasileira em esportes de inverno era, em grande medida, individual. Muitos atletas dependiam de recursos próprios, viviam temporadas no hemisfério norte e buscavam apoio pontual, sem um sistema consistente de base, detecção de talentos e compra centralizada de equipamentos.
A virada ocorreu com a consolidação da Lei Agnelo/Piva, que destina parte da arrecadação das loterias federais ao COB, permitindo repasses e planejamento mais previsível. A partir daí, CBDN e CBDG ganharam margem para estruturar projetos, reduzir improviso e criar ciclos de treinamento com algum padrão técnico.
Nesse processo, o apoio deixou de ser apenas "passagem e hospedagem" e passou a incluir pilares típicos de alto rendimento: equipe multidisciplinar, manutenção de material, contratação de especialistas e calendário internacional contínuo, com foco em qualificação olímpica.
Fontes de financiamento dos atletas de esportes de neve
Lei Agnelo/Piva e repasses via COB
A principal base de financiamento estrutural no sistema olímpico brasileiro vem das loterias. O COB recebe e repassa recursos para confederações, que então executam orçamento: aquisição de equipamentos, contratação de treinadores, participação em etapas internacionais, campings e taxas de inscrição.
Bolsa Atleta e Bolsa Pódio
A Bolsa Atleta é uma transferência direta ao atleta, fundamental para manutenção pessoal, alimentação, itens de reposição e custos do dia a dia no exterior. Para atletas com maior desempenho, a Bolsa Pódio pode compor o orçamento e aumentar a previsibilidade do ciclo.
Lei de Incentivo ao Esporte
A Lei de Incentivo permite que empresas direcionem parte do imposto para projetos aprovados. Para esportes de inverno, isso costuma ser relevante em programas estruturados (seleções, centros de treinamento, temporadas completas), especialmente quando há projeto bem desenhado e prestação de contas robusta.
Patrocínio privado
Ainda é mais raro do que nas modalidades de verão, mas pode ser decisivo. Em muitos casos, marcas de equipamento entram com material (e não necessariamente verba). Atletas com apelo global ou histórico internacional conseguem combinar patrocínios com a estrutura institucional, formando um modelo híbrido.
Como o Brasil compra, importa e mantém equipamentos de alta performance
Equipamentos de neve e gelo não são "apenas caros": eles são técnicos, sensíveis e dependem de ajuste fino. Esquis, pranchas, ceras, botas, lâminas, trenós e trajes aerodinâmicos são parte do desempenho, e o processo de aquisição costuma envolver importação, homologação e prazos que impactam diretamente a temporada.
Compra centralizada e distribuição
Em modalidades com programas mais estruturados, confederações podem comprar lotes (ou negociar condições) e distribuir de acordo com critérios técnicos: ranking, potencial, fase do ciclo, testes e avaliação de treinadores.
Parcerias técnicas e material de transição
Em esportes como curling e bobsled, é comum que equipes utilizem soluções graduais: material de segunda mão de países tradicionais para etapas formativas e equipamento mais competitivo para a elite, conforme orçamento e metas.
Manutenção e "arsenal" de peças
Em esportes de deslizamento, pequenos detalhes mudam tudo. Lâminas (runners), ajustes de base, ceras e componentes variam com temperatura e tipo de gelo/neve. Isso exige reposição constante e planejamento para que o atleta não "perca centésimos" por falta de material compatível com as condições do dia.
Logística internacional: por que quase tudo acontece fora do Brasil
Sem neve e pistas permanentes, o gargalo migra da pista para a logística. O treinamento e a competição exigem presença contínua na Europa e na América do Norte durante a temporada.
Bases, centros e armazenagem
Para reduzir custos e evitar transporte constante, uma estratégia recorrente é manter parte do equipamento pesado e sensível no exterior, em parceria com centros de treinamento e estruturas locais. Isso minimiza desgaste, simplifica manutenção e reduz risco de danos no deslocamento.
Simuladores e adaptações no Brasil
Para modalidades de endurance na neve, o rollerski (esqui com rodinhas) é uma ponte técnica importante. Ele permite treinar gesto, cadência e potência sem depender de neve. Esses ciclos, em geral, são complementados por temporadas longas no hemisfério norte para refinar técnica específica em neve real.
(Quando citados centros e pistas específicos no Brasil, o ideal é ancorar em referências públicas do projeto/entidade responsável; caso não haja, vale manter a descrição em termos gerais para preservar precisão.)
Impacto em resultados do Brasil e exemplos recentes
A melhora do fluxo de recursos, a profissionalização administrativa e o planejamento de temporadas têm reflexo direto em resultados — principalmente em esportes onde equipamento e treino de pista são determinantes.
- Nicole Silveira (skeleton): alcançou 13º lugar em Pequim 2022 e, mais recentemente, registrou sua primeira medalha em etapa de Copa do Mundo na temporada 2024–25, marco histórico para o Brasil em esportes de deslizamento, em um contexto que envolve equipamento competitivo e suporte técnico especializado.
- Jaqueline Mourão: com cinco participações em Olimpíadas de Inverno, representa longevidade sustentada por ciclos contínuos, combinando suporte institucional e programas de bolsas para manter material atualizado e temporadas completas no exterior.
- Lucas Pinheiro Braathen: a entrada do esquiador no Brasil elevou o patamar de visibilidade, somando patrocínios globais (como Red Bull, além de marcas do universo do esqui) à estrutura institucional necessária para operar o calendário.
- Snowboard cross e nova geração: em vez de atribuir "Copas do Mundo" a quem não tem registro consolidado nesse nível, o recorte mais preciso é o avanço nas categorias de base e eventos internacionais. Zion Bethonico, por exemplo, conquistou um bronze no snowboard cross em Gangwon 2024 (Jogos Olímpicos de Inverno da Juventude), resultado que evidencia como logística de treino no hemisfério norte e suporte de confederação podem acelerar maturação competitiva.
Custos e detalhes operacionais que o público raramente vê
O custo de um trenó e a manutenção por condições
Em esportes como bobsled e skeleton, a plataforma é cara e o ajuste fino decide tempo. Dependendo do nível e da configuração, um trenó competitivo pode exigir investimento alto, além de um conjunto de peças e lâminas para diferentes temperaturas e perfis de pista.
A "mala do atleta" e o peso da importação
Taxas e burocracia tornam reposição um desafio. Na prática, atletas e equipes precisam planejar compras, transportar material dentro de limites de bagagem e reduzir riscos de atrasos que podem comprometer uma etapa de temporada.
Uniformes tecnológicos e aerodinâmica
Trajes de velocidade (speed suits) e acessórios técnicos são projetados para minimizar arrasto. Mesmo em modalidades diferentes, a lógica é a mesma: quando a disputa é por centésimos, material inadequado vira desvantagem objetiva.
O papel das confederações na transformação do "improvável" em rotina
O que permite ao Brasil existir no esporte de neve não é um fator isolado, e sim a soma de engrenagens: repasse de loterias, bolsas, incentivo fiscal, acordos técnicos e logística internacional. CBDN e CBDG funcionam como "gestoras" de um alto rendimento que precisa acontecer longe do território nacional.
No fim, a pergunta sobre equipamento e patrocínio é, na verdade, uma pergunta sobre governança: como converter recursos escassos e distâncias enormes em material de ponta, treinamento consistente e calendário competitivo. É essa profissionalização — mais do que qualquer narrativa de "milagre tropical" — que sustenta a presença brasileira no inverno. Como a estrutura e financiamento dos esportes de neve no Brasil mantém vários atletas pelo mundo.
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