Atletas veem Paralimpíada como chance de quebrar paradigmas
Eles querem mostrar que são de alto rendimento, mas pregando a cultura da acessibilidade

Os atletas paralímpicos vão estar em ação a partir desta quinta-feira no Rio em busca de quebra de recordes mundiais, marcas pessoais, mas também de quebra de paradigmas. É a oportunidade, a vitrine, que eles vislumbram para serem vistos de forma diferente e também gerar um alerta pela disseminação da cultura da acessibilidade.
Apesar da necessidade de tratamento especial, especialmente para a mobilidade, o estigma de "coitadinhos" incomoda. Afinal, estamos falando de atletas de alto rendimento, que representam o país internacionalmente e demonstram capacidade física elevada.
– Somos vencedores. Tem que quebrar o paradigma. Existe até superproteção da família: não pode cair, ninguém toca, fica ali parado. Não! Deixa cair, leva para o judô, leva para o rúgbi. Isso dá coragem, determinação, confiança – disse a remadora brasileira Josiane Dias, que completou:
– Visibilidade é preciso. Tem que parar de esteriótipos. Temos pessoas de todos os biotipos, culturas, gêneros, essa diversidade torna tudo isso mais rico para gente.
Em termos de acessibilidade, 96 membros da delegação brasileira já experimentaram, por exemplo, a facilidade de usar o VLT do Rio, que os trouxe do Aeroporto Santos Dumont para o Centro da cidade. Mas as alternativas não devem parar por aí. Luis Carlos Cardoso, da canoagem, concorda que é possível deixar um legado até então inédito.
– Acredito que o maior legado é justamente mudar a noção do que é uma pessoa com deficiência. Elas olham e acham que é coitadinho, que precisam das outras e não conseguem se virar sozinho. Depois dos Jogos, acredito que vão ver que somos normais, que conseguimos transformar a deficiência em eficiência – avisou Luis Carlos, tendo a ideia seguida por Jane Karla, do tiro com arco:
– O esporte paralímpico está ganhando espaço. Somos alto rendimento, treinamos oito horas por dia. É resultado que queremos e é resultado que vamos trazer.
TORCEDOR VÊ JOGOS APENAS COMO 'LUZ NO FIM DO TÚNEL'
No lado do torcedor comum, trabalhador do Rio de Janeiro e deficiente físico, o otimismo com os resultados da Paralimpíada para a visão que a sociedade tem em relação às pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida é menor.
Samuel Lima, de 36 anos, funcionário do Hospital de Bonsucesso, vê que as barreiras não serão quebradas se não houver uma transformação interna no povo brasileiro.
– A Paralimpíada não vai ajudar, porque qualquer problema tem que se resolver de dentro para fora. O movimento paralímpico é de fora. Não vai ser esses 15 dias que vão alterar uma base sociológica. A Paralimpíada pode ser uma luz no fim do túnel, mas não é decisiva na mudança de comportamento – disse ele, que tem deficiência nas pernas e esteve na abertura no Maracanã.
Samuel ainda criticou a baixa procura por ingressos na comparação com os Jogos Olímpicos.
– Vivemos de pseudo-status, é dinheiro, beleza, poder material e beleza. O Brasil é um país atrasado na forma de lidar um com o outro, é altamente preconceituoso. Isso se reflete na venda de ingressos – completou.

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