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VAR já causou 68 intervenções e mais de 2h de jogo parado no Brasileirão

Revisões de gols em lances interpretativos estão no centro da polêmica

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Thiago Braga
São Paulo (SP)
Dia 12/05/2026
06:00
VAR CBF (Foto: Fabio Souza/CBF)
imagem cameraO VAR está em xeque no Brasileirão: média de interferências é superior à de ligas europeias (Foto: Fabio Souza/CBF)

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O VAR voltou ao centro das atenções na rodada do fim de semana do Brasileirão, com decisões contestadas que influíram nos resultados dos jogos. Polêmicas à parte, o sistema de análise em vídeo veio para ficar. O debate não é mais sobre a sua existência, e sim sobre duas questões: o quanto ele deve interferir no jogo e o quanto os critérios de revisão dos lances estão bem estabelecidos? Um levantamento do Lance! sobre os números de intervenções do VAR nas 14 primeiras rodadas do campeonato mostra que ele interrompe mais as partidas aqui do que nas principais ligas da Europa. E indica quais os tipos de lances que mais entram em revisão.

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Decisão de Daronco em Corinthians x São Paulo vira assunto: 'Várzea"

A CBF ainda não divulgou os números da 15ª rodada, encerrada no domingo (10). Com base nas 14 primeiras, é possível ver que o VAR apareceu em quase 40% dos jogos. Juntando todos os dados, fica claro que o sistema muda a decisão do árbitro na maioria das vezes em que é chamado, já gastou mais de duas horas somadas só em revisões e age principalmente em checagens de lances de gol — como a que causou toda a polêmica na partida entre Remo e Palmeiras, após o gol anulado de Bruno Fuchs. O segundo maior motivo de revisões são as expulsões.

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Média de uma interferência a cada dois jogos

Ao todo, foram registradas 68 intervenções protocoladas do VAR nas 134 partidas disputadas até aqui. A média é de 0,51 intervenção por jogo, o equivalente a praticamente uma revisão a cada duas partidas. As revisões ocorreram em 51 jogos diferentes, o que significa que aproximadamente 38,1% das partidas do campeonato tiveram ao menos uma interrupção para análise em campo ou checagem decisiva do árbitro de vídeo.

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— A arbitragem no geral, no Brasil, não é boa. O VAR é intervencionista. Buscar no lance interpretativo a melhor decisão não é adequado. O VAR veio para lances claros e óbvios, por exemplo: se uma bola entrou ou num impedimento. O árbitro continua sendo soberano, está próximo da jogada e está vendo e analisando, o VAR não pode se meter em lances interpretativos — afirmou o ex-árbitro Carlos Eugênio Simon, que apitou nas Copas do Mundo de 2002 e 2010, e que também é comentarista de arbitragem dos canais ESPN.

Os dados também revelam que o VAR raramente atua apenas uma vez quando entra em cena. Em 13 dessas 51 partidas houve mais de uma intervenção, número que representa cerca de 25,5% dos jogos com participação ativa do sistema. Em outras palavras, quando o árbitro de vídeo é acionado em uma partida, cresce significativamente a possibilidade de novos lances serem revisados ao longo do mesmo confronto.

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Anulação de gols é motivo mais frequente das revisões

A distribuição das intervenções ajuda a explicar a natureza do campeonato até aqui. O tipo de revisão mais frequente foi relacionado a gols. Foram 28 ocorrências, equivalentes a 41,2% do total. Em seguida aparecem as revisões de possíveis cartões vermelhos, com 23 casos, representando 33,8%. As ações ou revisões de área penal surgem logo atrás, com 16 intervenções, cerca de 23,5%. Houve ainda um caso isolado de erro de identidade na aplicação de cartão.

O predomínio das revisões de gol mostra como o futebol moderno passou a ser definido por detalhes milimétricos. Impedimentos ajustados por poucos centímetros, toques de mão na origem da jogada e faltas transformaram-se em elementos de análise recorrentes da arbitragem contemporânea. Entre os 28 lances de gol revisados, 21 terminaram com anulação da jogada, enquanto sete gols foram confirmados após a revisão.

O problema, segundo especialistas em arbitragem, é que os critérios para anulação nem sempre são claros e não se repetem em todas as rodadas.

— No lance do segundo gol do Palmeiras contra o Remo, a gente percebe que é um toque acidental na mão do Flaco Lopez, e aí a bola sobra pro Fuchs, que em nenhum momento toca na bola com o braço e faz o gol. Pela regra do jogo, como o toque é acidental e não é do jogador que marcou o gol, o gol tem que ser validado. É que muitas vezes a CBF instrui os árbitros de forma equivocada e diferente da regra, e isso confunde a cabeça deles — afirmou Renata Ruel, comentarista de arbitragem dos canais ESPN.

As anulações aconteceram principalmente por impedimento, mão e infrações na construção da jogada. Mas, em alguns episódios específicos, o VAR também detectou invasão em cobrança de pênalti, caso que levou à invalidação do gol em Bahia x Vitória, pela quinta rodada. A predominância de gols anulados ajuda a explicar por que o sistema continua sendo percebido por parte dos torcedores como um mecanismo mais associado à retirada de gols do que à validação deles.

As revisões mais rápidas e menos controversas normalmente aparecem em decisões objetivas, como impedimentos factuais. Já os lances interpretativos, especialmente de área penal, concentram os maiores tempos médios e as discussões mais intensas.

— Vejo o VAR no Brasil ainda mais perdido. Ainda não sabe quando intervir. Ainda não entendeu o que é um erro claro e óbvio na maioria das vezes. E isso fica claro quando vemos 6 erros graves nos jogos do time do Vitória, e esse é apenas um exemplo. A Libertadores também não está no melhor caminho, alguns lances nessa primeira fase mostram isso. Já na Europa, também há erros e reclamações; na Inglaterra tem quem defenda tirar o VAR. Porém, penso que entendem melhor o que é um erro claro e óbvio – analisou Renata Ruel.

Árbitro Flávio Rodrigues de Souza em revisão na cabine do VAR
Flávio Rodrigues de Souza na cabine do VAR: 95,6% das decisões de campo são mudadas (Foto: CBF)

Média de intervenções acima das ligas europeias

A percepção de um VAR intervencionista se confirma nos números. O Campeonato Brasileiro apresenta índice de interferência maior do que o das principais competições europeias. A Premier League inglesa tem atualmente a menor taxa de interrupção entre as grandes ligas, com 0,275 revisão por jogo. Bundesliga, da Alemanha, e La Liga, da Espanha, aparecem com 0,38. A Série A italiana registra 0,44, enquanto a Ligue 1 francesa chega a 0,47. A UEFA Champions League apresenta média de 0,45.

O Brasileirão Série A de 2026, com 0,51 intervenção por partida, está perto do patamar da Ligue 1 da França. Isso mostra que o futebol brasileiro não está isolado em relação ao uso frequente da tecnologia, embora mantenha particularidades importantes, especialmente no tempo de análise e no perfil disciplinar das revisões.

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Esse cenário brasileiro dialoga diretamente com um debate que ganhou força também na Europa. A cúpula da UEFA (entidade máxima do futebol no continente europeu) reuniu os chefes de arbitragem da Premier League, La Liga, Serie A, Bundesliga e Ligue 1 para discutir justamente como redefinir o uso do VAR para aproximá-lo de sua proposta original: interferir apenas em erros evidentes.

O principal porta-voz dessa discussão é Roberto Rosetti, responsável pela arbitragem da UEFA. Recentemente, ele afirmou que o futebol não pode "seguir nessa direção de intervenções microscópicas do VAR".

— Acredito que esquecemos o motivo pelo qual o VAR foi introduzido. Em decisões objetivas, ele é fantástico. Para interpretações, avaliações subjetivas são mais difíceis. Foi por isso que começamos a falar sobre erros claros e óbvios, evidências claras — afirmou Rosetti.

A fala resume um dilema vivido também no Brasileirão. As revisões em lances interpretativos ou milimétricos causam os maiores tempos de interrupção.

Tempo de análise dura quase 2 minutos

Somadas, as 68 intervenções do VAR no Brasileirão consumiram aproximadamente 2 horas, 11 minutos e 49 segundos de paralisação. A média geral ficou em torno de 1 minuto e 58 segundos por intervenção.

Os lances de área penal foram os mais demorados. Cada análise desse tipo levou, em média, cerca de 2 minutos e 15 segundos. Em seguida aparecem as revisões de gol, com média de 2 minutos e 8 segundos. Já os lances relacionados a cartões vermelhos tiveram média inferior: aproximadamente 1 minuto e 53 segundos.

A diferença entre os tempos médios revela um aspecto importante do funcionamento do VAR. As análises de pênalti normalmente envolvem interpretação subjetiva: intensidade do contato, naturalidade do movimento do braço, posição corporal, disputa de espaço e influência na jogada. Por isso, tendem a exigir mais replays e mais diálogo entre árbitro de campo e cabine.

Os extremos de duração ajudam a ilustrar esse contraste. A revisão mais longa aconteceu em Cruzeiro x Vitória, pela nona rodada. Foram 5 minutos e 20 segundos até a anulação de um gol por mão em jogada de ataque. Logo atrás aparece Vitória x Remo, na primeira rodada, com 5 minutos e 8 segundos em um lance de área penal que terminou com marcação de tiro livre direto. Botafogo x Mirassol, pela nona rodada, consumiu 4 minutos e 40 segundos para marcação de um pênalti. Corinthians x Flamengo, pela oitava rodada, teve 4 minutos e 14 segundos em uma revisão disciplinar. Flamengo x Santos, pela décima rodada, gastou 4 minutos para anular um gol.

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VAR muda 95% das decisões de campo

Nos lances disciplinares, o padrão também é bastante claro. A maior parte das revisões terminou com mudança direta da punição aplicada inicialmente pelo árbitro de campo. Houve diversos episódios em que cartões amarelos foram convertidos em vermelhos, além de situações em que expulsões aplicadas em campo foram retiradas após análise do monitor. Apenas dois casos terminaram com manutenção integral da decisão original após revisão.

Esse comportamento ajuda a entender um dado central do levantamento: o índice de mudança das decisões após revisão. Das 68 intervenções registradas, 65 terminaram com alteração da decisão inicial do árbitro de campo. Apenas três mantiveram a marcação original. O percentual de mudanças chega a aproximadamente 95,6%, enquanto somente 4,4% das revisões confirmaram integralmente o entendimento inicial da arbitragem.

O comportamento das rodadas também revela um campeonato sem tendência linear de crescimento ou redução das revisões. A primeira rodada foi a que concentrou mais intervenções: oito no total. A nona rodada aparece logo depois, com sete ocorrências. Em contrapartida, as rodadas sete e 12 registraram apenas uma intervenção cada.

Os dados sugerem oscilações naturais relacionadas ao contexto de cada rodada, e não necessariamente uma mudança progressiva de critério. Ainda assim, chama atenção o volume elevado de revisões nas primeiras semanas do campeonato, período tradicionalmente marcado por ajustes de interpretação, adaptação das equipes e maior rigor disciplinar.

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