Rodrigo Fabri, o camisa 10 que viveu tudo: auge, queda e volta por cima no futebol
Do status de ídolo na Portuguesa, ao estrelato no Grêmio, e à passagem apagada por Madri

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Ao se perguntar ao torcedor brasileiro médio se há carência de um ponta de lança, camisa 10 clássico, canhoto, técnico, exímio finalizador, especialista em cobranças de falta e finalizações de longa distância, a resposta tende a ser afirmativa. Com passagens por grandes clubes do futebol brasileiro e europeu, Rodrigo Fabri dedicou 15 anos ao futebol profissional com essas características. Em entrevista exclusiva ao Lance!, o ex-jogador relembrou momentos de sua ilustre carreira.
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O vice histórico e a afirmação de um craque 🔴🟢
Natural de Santo André (SP), Rodrigo nasceu em 15 de janeiro de 1976 e, desde cedo, alimentou o sonho de todo brasileiro: ser jogador de futebol. Apesar do destaque precoce que o país passou a conhecer durante sua passagem pela Portuguesa, a transição das categorias de base para o profissional não ocorreu de forma simples, ao contrário do que muitos imaginavam.
Na década de 1990, os Crias da Lusa configuravam um dos principais celeiros de base do país, personificados sobretudo por Dener. Após subir ao time principal aos 18 anos, em 1994, Rodrigo aguardou a oportunidade ideal, que surgiu com a chegada do técnico Candinho, e se consolidou apenas em 1996, durante o Campeonato Brasileiro.
O elenco da Portuguesa, por sinal, demonstrava otimismo da torcida lusitana, impulsionado não apenas pela ascensão do meia, mas também pela presença de outros jovens que se tornariam consagrados, como o lateral Zé Maria e o meio-campista Zé Roberto. Em 1996, o grupo contava com contratações relevantes para a temporada, como o goleiro Clemer e o atacante Alex Alves, além da presença de nomes experientes, entre eles o volante Capitão, ídolo do clube.
Imbatível no Canindé, a Portuguesa fez grande campanha com um time destemido, veloz e forte nos contra-ataques. No terço final, Rodrigo atuava como segundo atacante e Alex Alves na referência. A joia destacava-se pelos dribles rápidos e pela coragem nas jogadas, ao superar marcadores com facilidade e balançar as redes.
O último desafio do ano foi contra o Grêmio, do técnico Felipão. Na partida de ida, vitória por 2 a 0, com gol de Rodrigo na segunda etapa. No jogo de volta, no Olímpico, o meia enfrentou pela primeira vez o peso de uma decisão fora de casa.
Paulo Nunes abriu o placar cedo e, na melhor oportunidade de empate, Rodrigo superou o zagueiro na grande área com um drible, mas perdeu o controle da bola no momento da finalização. Ainda teve nova chance no segundo tempo, sem sucesso, enquanto o adversário ampliou com Aílton e garantiu o título em razão da vantagem obtida ao longo da campanha.
Com o vice-campeonato, a Portuguesa alcançou a melhor campanha de sua história. Apesar das chances desperdiçadas na final, Rodrigo encerrou o torneio como artilheiro da equipe, com 11 gols, foi eleito para a seleção do campeonato e recebeu a Bola de Prata.

Em 1997, manteve a evolução e o protagonismo precoce, já consolidado aos 20 anos, ao terminar na quarta posição entre os goleadores do Brasileiro, com 16 gols. A equipe paulista voltaria a fazer boa campanha, mas caiu nas semifinais e terminou em quarto naquele ano.
Após conquistar novamente a Bola de Prata, Rodrigo chamou a atenção do então técnico da Seleção Brasileira, Zagallo, e integrou o grupo campeão da Copa das Confederações de 1997. Em três partidas pela Amarelinha, fez um gol — como de costume, de falta — diante do País de Gales, em 11 de novembro de 1997.
Quando o sonho virou realidade — e dúvida ⚪⚪
O caminho natural para Rodrigo, após duas boas temporadas no Brasil, parecia ser a transferência para o futebol europeu. Sua primeira experiência internacional seria apenas no maior clube do mundo, o Real Madrid, que o contrataria em 1998. O movimento, embora curioso, foi tratado como normal à época, sobretudo após a ida de Zé Roberto à capital espanhola no ano anterior.
Inclusive, após a contratação do astro, parte do acordo previa a realização de uma partida entre Real e Lusa na Espanha, válida pelo Troféu Santiago Bernabéu. Assim, em 26 de agosto de 1997, o inusitado encontro ocorreu, com vitória do Madrid por 1 a 0, graças a gol de Manuel Canabal. Conforme relembrou o próprio Fabri, sua negociação já estava praticamente encaminhada antes mesmo da partida.
— Foi um acordo entre as duas equipes, na contratação do Zé Roberto, que a Portuguesa faria essa partida diante do Real Madrid, valendo pelo Troféu Santiago Bernabéu. E, na aquisição do Zé, o Real adquiriu também uma prioridade de compra do meu passe. Então, já estava direcionada a minha contratação para o ano seguinte, se eles decidissem que deveriam me contratar. E isso aconteceu: houve o jogo e eles me contrataram — disse o ex-jogador ao Lance!.
A decisão, no entanto, pode ter sido a mais equivocada de sua carreira, como ele já afirmou em entrevistas. A negociação, iniciada por 10 milhões de dólares, terminou com uma passagem sem a disputa de partidas oficiais com a camisa branca e marcada por sucessivos empréstimos ao longo do vínculo.
Novas oportunidades e caminhos irregulares 🌍
Assim que foi contratado pelo Real, Rodrigo foi imediatamente emprestado ao Flamengo, na negociação que levou Sávio em definitivo à Espanha. A reviravolta o manteve no Brasil e lhe impôs um desafio significativo: aos 22 anos, vestir a camisa 10 eternizada por uma de suas inspirações na posição, Zico.
Contudo, a principal experiência dele no Rubro-Negro ocorreu fora das quatro linhas, em seu relacionamento com a principal estrela do elenco, Romário, em um contexto no qual havia espaço para apenas uma liderança no ataque comandado pelo técnico Joel Santana.
O episódio mais marcante ocorreu em um voo após um amistoso, quando ambos já haviam se desentendido durante a partida. Na ocasião, Romário chamou o então jovem jogador para uma conversa mais incisiva e estabeleceu condições sobre sua permanência na equipe, em tom de imposição.
Fabri reagiu de forma firme, recusou a proposta do Baixinho e defendeu sua própria maneira de atuar, o que elevou a tensão a ponto de quase resultar em agressão física, contida por outros atletas do elenco. Anos depois, Rodrigo reconheceu a falta de experiência e maturidade naquele momento ao lidar com uma personalidade forte em início de carreira.
Com pouco prestígio junto ao elenco e à comissão técnica, ele teve poucas oportunidades e destaque médio quando acionado, em uma temporada aquém do esperado. O desempenho, além disso, o afastou da disputa por uma vaga na Copa do Mundo de 1998.
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Em 1999, Rodrigo chegou a retornar à Espanha para se apresentar ao Madrid, mas voltou a receber uma oportunidade no futebol brasileiro, desta vez com a camisa do Santos. O resultado, no entanto, repetiu-se, com poucas chances e uma passagem discreta. Diante disso, seguiu por empréstimo ao Real Valladolid, com o objetivo de ganhar espaço e experiência na própria liga espanhola.
— O Real Madrid me contratou e me emprestou para o Flamengo. E, no ano em que eu me apresentei lá, em uma conversa com o diretor de futebol, que era o Jorge Valdano, eles decidiram me emprestar para o Valladolid, para eu me adaptar, para eles me acompanharem mais de perto no futebol espanhol e me adaptar também ao futebol espanhol — explicou Fabri.
No clube, a trajetória indicou uma retomada positiva na carreira de Fabri. Aos 24 anos, destacou-se na temporada 1999/2000 e foi eleito a revelação da La Liga, após contribuir para a boa campanha da equipe, que terminou na oitava colocação. Ainda assim, o desempenho não foi suficiente para garantir seu retorno ao clube madrilenho, que optou pela contratação do argentino Santiago Solari para a posição. Na sequência, transferiu-se para o Sporting, de Portugal, e voltou a apresentar desempenho discreto.
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— Fui muito bem no Valladolid, fui a revelação do campeonato espanhol, tive a oportunidade de fazer vários gols, várias assistências. E, no final da temporada, eu me apresentei com a ilusão de que ia realmente fazer parte do plantel do Real Madrid, que era o melhor plantel do mundo na época. Eu sei que ia ser uma concorrência muito grande ali na posição, tinham craques demais na época: Figo, Guti, Sávio. Logo depois chegou o Beckham, enfim, tinha o Michael Owen, Raúl ali na frente — iniciou Rodrigo.
— O Real Madrid ainda tinha contratado o Solari, que estava vindo do Atlético de Madrid, no ano em que eles foram rebaixados para a Série B, e o Solari tinha feito uma péssima temporada. O Solari era muito bom jogador também, mas eu achava que merecia mais, principalmente nessa temporada. Fiz uma excelente pré-temporada com o Real Madrid. Enfim, o treinador era o Vicente Del Bosque (campeão da Copa do Mundo de 2010), e eles optaram por ficar com o Solari e não me deram a oportunidade, e me emprestaram novamente — finalizou o ex-meia ao Lance!.
Superação, artilharia e reconhecimento nacional 🔵⚫⚪
Já em seu quarto clube por empréstimo, após duas experiências abaixo das expectativas no Brasil e boas passagens pela Europa, Rodrigo decidiu aceitar mais uma oportunidade para retomar o brilho dos tempos de Portuguesa, desta vez com a camisa de outro gigante nacional, o Grêmio, algoz que havia marcado o início de sua jornada. A escolha, concretizada em 2001, revelou-se possivelmente uma das decisões mais acertadas de sua vida.
Foi no Grêmio que Fabri passou a utilizar o sobrenome na camisa, a fim de evitar confusão com o companheiro Rodrigo Mendes. Contratado para a disputa do Brasileiro daquele ano, não conseguiu se firmar em razão de lesões e problemas de condicionamento físico. O momento mais delicado, até então, ocorreu em julho de 2002, quando desperdiçou o pênalti decisivo contra o Olimpia, na semifinal da Libertadores, disputada no primeiro semestre, resultado que culminou na eliminação da equipe em pleno Olímpico.
A reviravolta, porém, ocorreu ainda naquele ano, na disputa do Campeonato Brasileiro de 2002. Rodrigo Fabri recuperou o prestígio junto à torcida ao retomar o nível de protagonismo ofensivo e, apenas duas semanas após a eliminação continental, marcou três vezes contra o Corinthians e repetiu o feito posteriormente diante de Vitória e Paysandu.

Ao fim da competição, terminou como um dos artilheiros, ao lado de Luís Fabiano, com 19 bolas na rede e golaços decisivos na conta, embora o Grêmio tenha sido eliminado nas semifinais pelo Santos. Ainda assim, contribuiu para a classificação da equipe à Libertadores do ano seguinte, após a terceira colocação geral. Pelo desempenho, recebeu sua terceira Bola de Prata, desta vez como goleador número um.
Fiz uma boa temporada no Sporting, logo depois fui para o Grêmio. Lá eu fui muito bem, fui artilheiro do Campeonato Brasileiro, joguei muito bem mesmo naquela temporada.
Rodrigo Fabri, sobre os anos de 2001 e 2002
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A reta final e o retorno às origens ✈️
Após encerrar sua passagem pelo Grêmio, Rodrigo também chegou ao fim de seu contrato com o Real Madrid, firmado por seis anos, e ficou livre de um vínculo no qual não teve oportunidade de se firmar. Ao término do acordo, em 2003, transferiu-se justamente para o rival Atlético de Madrid, a pedido de um nome que conhecia de perto seu potencial.
— Apareceu o interesse do Atlético, porque o treinador era o Gregorio Manzano, e ele tinha sido meu treinador no Valladolid e pediu a minha contratação. Era o meu último ano de contrato com o Real Madrid; entrei em um acordo para finalizar o meu contrato com o Real e fechei com o Atlético naquela temporada.
A partir daí, a carreira de Rodrigo Fabri entrou em uma fase menos brilhante, e as passagens curtas por diferentes equipes voltaram a se tornar frequentes. Sem balançar as redes, permaneceu por apenas uma temporada nos Colchoneros e, na sequência, retornou ao Brasil, palco no qual se sentiu mais à vontade ao longo da jornada.
Como de costume, seguiu por grandes clubes do país: primeiro pelo Atlético-MG, em 2005, em um ano difícil que terminou com o rebaixamento, ainda que tenha sido um dos poucos respiros de alívio do elenco. Depois, pelo São Paulo, onde integrou o grupo campeão brasileiro de 2006 e teve participação como um reserva de luxo na primeira taça do tricampeonato consecutivo.

Em seguida, passou a defender equipes de menor investimento, como o Paulista, em 2007, o Figueirense, em 2008, e o Santo André, em 2009, clube de sua cidade natal, onde encerrou a carreira e consolidou a trajetória de um talento que, entre momentos marcantes e oscilações naturais, realizou o sonho de infância no futebol.
Que fim levou? 🤔
Hoje, vive com tranquilidade fora do meio do futebol, com atuação nos setores do agronegócio e da construção civil. Atualmente, mantém o esporte apenas como lazer, ao reviver o passado e jogar futevôlei pela Portuguesa, onde ainda encanta com a qualidade que marcou sua trajetória. A seguir, veja o resumo da carreira de Rodrigo Fabri no futebol profissional:
| Período | Clube | Jogos | Gols |
|---|---|---|---|
1994–1997 | Portuguesa | 90 | 41 |
1998–1999 | Flamengo (emp.) | 35 | 6 |
1999 | Santos (emp.) | 20 | 1 |
1999–2000 | Valladolid (emp.) | 31 | 8 |
2000–2001 | Sporting (emp.) | 30 | 4 |
2001–2003 | Grêmio (emp.) | 90 | 29 |
2003–2004 | Atlético de Madrid | 19 | 0 |
2004–2005 | Atlético Mineiro | 67 | 16 |
2006 | São Paulo | 10 | 0 |
2007–2008 | Paulista | 29 | 6 |
2008 | Figueirense | 23 | 4 |
2009 | Santo André | 16 | 1 |
— | Seleção Brasileira | 5 | 1 |
Total | — | 465 | 117 |
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