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Paulistão: Entre taças e rebaixamentos, a lenta queda dos tradicionais clubes paulistas

Eles se destacaram nacionalmente, mas hoje vivem nova realidade longe dos holofotes

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Thiago Braga
São Paulo (SP)
Dia 08/01/2026
04:15
São Caetano disputou a final da libertadores em 2002 (Mauricio Lima / AFP)
imagem cameraSão Caetano disputou a final da libertadores em 2002 (Mauricio Lima / AFP)

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Às vésperas do início do Paulistão, clubes tradicionais que antes faziam parte do torneio, agora pouco aparecem. No mapa atual do futebol paulista, muitos dos escudos que já desafiaram gigantes e ergueram taças nacionais vivem longe dos holofotes. Santo André e Juventus estão hoje na Série A2, enquanto Paulista de Jundiaí e União São João militam na Série A3 e o São Caetano tenta se reconstruir na A4, bem distante do auge de quando chegou às finais de Brasileiro, Libertadores e levantou o Paulistão.​

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O São Caetano talvez seja o caso mais emblemático dessa curva abrupta. Fundado em 1989, a partir da transformação da antiga União Jabaquara em Associação Desportiva São Caetano, o clube começou na Terceira Divisão estadual em 1990, subiu degrau a degrau e, em 1993, já estreava na elite paulista.

A escalada nacional veio no fim dos anos 1990: campeão de divisões de acesso, o Azulão chegou ao Módulo Amarelo da Copa João Havelange, em 2000, e surpreendeu o país ao eliminar Fluminense, Palmeiras e Grêmio, ficando com o vice-campeonato diante do Vasco.

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Em 2001, repetiu o roteiro no Brasileiro, perdendo o título para o Athletico, e em 2002 viveu seu ápice ao ser vice da Libertadores contra o Olimpia, depois de liderar o grupo e passar por Universidad Católica, Peñarol e América do México. Em 2004, acabou a sina de vice com o título paulista sobre o Paulista de Jundiaí, mas três anos depois já veria o time quase repetir a façanha, perdendo o estadual para o Santos na reta final.

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A partir da metade da década, porém, a sequência de rebaixamentos – da Série A para a B em 2006, depois para C, D e, por fim, o desaparecimento em nível nacional em 2016 – empurrou o clube para o limbo esportivo, hoje confinado às divisões inferiores do estadual.

O caminho do Santo André ilustra um processo diferente, mas com destino parecido. O clube nasceu em 1967, fruto da articulação de Wigand Rodrigues, então presidente da Liga Santoandreense de Futebol, que sonhava em dar à cidade do ABC um representante profissional à altura de outros pólos industriais do interior.

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A filiação à Federação Paulista veio em 1968, e em 1975 o time conquistou seu primeiro grande momento com o título da Segunda Divisão, repetido em 1981, quando obteve o acesso. Em 1984, o Ramalhão disputou pela primeira vez a elite do Campeonato Brasileiro e terminou em décimo lugar, aparecendo no cenário nacional. A virada dourada veio a partir de 2003: título da Copa São Paulo de Juniores, vice da Série C e, na sequência, conquista da Copa Estado de São Paulo, que abriu caminho para a Copa do Brasil de 2004.

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Naquele torneio, o Santo André eliminou gigantes como Atlético-MG e Palmeiras e fez história ao vencer o Flamengo por 2 a 0 no Maracanã para erguer o maior título de sua trajetória. A vaga na Libertadores de 2005 não se converteu em campanha longa, e em 2009, já de volta à Série A do Brasileiro, o clube acabou rebaixado. Em 2010, viveu o contraste: vice-campeão paulista contra o Santos e queda para a Série C; em 2011, novo descenso, desta vez para a Série A2 do estadual, patamar em que permanece, tentando recobrar fôlego financeiro e esportivo.​

Em Jundiaí, o Paulista sintetiza ascensão, aposta em parcerias e uma queda longa. O primeiro acesso à divisão principal do Paulista veio em 1968, após uma seletiva contra Francana, Ferroviário de Araçatuba, Ponte Preta, Bragantino e Barretos. Rebaixado dez anos depois, o clube retornou em 1984 ao golear o Vocem por 7 a 1 no antigo Parque Antártica, mas voltou a cair após apenas uma temporada e passou a buscar reestruturação com apoio empresarial.

Em 1995, associou-se à Lousano em um dos pioneiros contratos de co-gestão do país, subindo da Série A3 para a A2 no primeiro ano e levando jogadores consagrados, como Casagrande e Toninho Cerezo, além de conquistar a Copa São Paulo de Juniores de 1997. Em 1999, uma nova parceria com a Parmalat rebatizou o clube como Etti Jundiaí, o que desagradou parte da torcida, mas trouxe resultados: títulos da Série A2 e da Série C do Brasileiro em 2001. Com o fim do investimento, o time passou por breve fase como Jundiaí Futebol Clube até um plebiscito devolver, por ampla maioria, o nome Paulista Futebol Clube.

Mesmo sem parceiro, o clube seguiu competitivo: foi vice-campeão do Paulistão em 2004, perdendo a final para o São Caetano, e, em 2005, conquistou a Copa do Brasil ao eliminar Juventude, Botafogo, Internacional, Figueirense, Cruzeiro e Fluminense, maior conquista de sua história. A campanha rendeu vaga na Libertadores de 2006, mas a participação terminou na fase de grupos, ainda assim com vitórias marcantes, quando bateu o River Plate em Jundiaí. Entre 2007 e 2009, o time fez campanhas medianas no Paulista, até entrar em declínio, com queda à Série C do Brasileiro em 2007 e, anos depois, rebaixamentos em cascata no estadual até a última divisão. Atualmente, o Paulista tenta se reerguer na Série A3, longe do cenário nacional que já ocupou.​

Na Mooca, o Juventus é um caso à parte no Paulistão: mais do que títulos, construiu identidade e tradição. Fundado em 1924 como Cotonifício Rodolfo Crespi Futebol Clube, o clube nasceu da fusão de times de várzea formados por operários da fábrica da família Crespi e só mais tarde adotou o nome atual.

Sua história é repleta de façanhas e de um papel formador relevante: do campo da Rua Javari saíram nomes como Julinho Botelho, que disputou a Copa de 1954, Hércules, no Mundial de 1958, Lima, em 1966, e o goleiro Félix, titular no tricampeonato de 1970. Décadas depois, o clube também revelou Thiago Motta, que seguiria carreira na Europa, com passagem por Barcelona, além de ter recebido, em passagem curiosa, o argentino César Luis Menotti antes de ele dirigir a seleção de seu país.

Em 1983, o Juventus conquistou a Taça de Prata, então equivalente à segunda divisão nacional, e consolidou o apelido de Moleque Travesso por vitórias sobre grandes paulistas. Hoje, porém, o clube está na Série A2, limitado por orçamento menor e estrutura acanhada, mas mantendo forte ligação com o bairro e resistindo como símbolo de um futebol mais romântico.​

O União São João de Araras representa, talvez, o retrato mais claro da oscilação entre modernidade e colapso. A história começa em 1953, com a Sociedade Esportiva e Recreativa Usina São João, que disputou a terceira divisão paulista entre 1961 e 1964, mas só em 1981, por iniciativa do empresário Hermínio Ometto e de funcionários da usina, nasceu oficialmente o União São João Esporte Clube.

Já em 1982, o time foi convidado para a Segunda Divisão estadual e, em 1987, conquistou o título da Série A2; no ano seguinte, levou a Série C do Brasileiro e inaugurou o estádio Hermínio Ometto, com capacidade para 16 mil torcedores.

Em 1992, o clube alcançou a elite nacional e, dois anos depois, sob a Lei Zico, transformou-se em empresa, remunerando dirigentes e profissionalizando a gestão – pioneirismo que ajudou a consolidar a imagem de "clube-empresa" e serviu de vitrine para talentos como Roberto Carlos, formado em Araras. Em 1996, veio o título da Série B e o retorno ao Brasileirão, mas, em 1997 e 2004, novos rebaixamentos reduziram o alcance esportivo, até a queda para a terceira divisão nacional.

No Paulistão, o União se manteve na elite até 2005, quando despencou para a Série A2, e, uma década depois, em 2015, já na última divisão estadual e endividado, encerrou suas atividades profissionais. Nos últimos anos, o clube retomou o departamento de futebol, voltou a disputar competições de base e, com um novo projeto, retornou às divisões inferiores do estadual, hoje presente na Série A3 e tentando resgatar parte da relevância que já teve.

Em comum, Juventus, Paulista, Santo André, São Caetano e União São João carregam histórias que misturam pioneirismo, títulos improváveis e decisões ousadas de gestão. Entre parcerias que acabaram, estrutura defasada, endividamento e um calendário que concentrou recursos na elite nacional, esses clubes tradicionais foram empurrados para degraus mais baixos, enquanto o torcedor se acostumou a revê-los apenas em retrospectivas do Paulistão.

Flamengo 0 x 2 Santo André - 2004
Santo André bateu o Flamengo e conquistou a Copa do Brasil em 2004 (Foto: Divulgação/Santo André)
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