Juventus busca título da A2 dividido entre a tradição da Mooca e a modernidade da SAF
Moleque Travesso precisa vencer a Ferroviária para ser campeão

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A Rua Javari sempre foi um lugar onde o tempo parecia andar mais devagar. Entre casas antigas da Mooca, bandeiras grenás penduradas nas sacadas e o cheiro de cantina escapando pelas esquinas, o estádio do Juventus sobreviveu por décadas como um dos últimos redutos de um futebol que resiste à modernidade. Ali, o placar manual mostra que a pressa não faz sentido. O alambrado ainda separava jogadores de torcedores por poucos metros. E a memória dos imigrantes italianos seguia entranhada nas arquibancadas como parte inseparável da identidade do clube fundado em 1924.
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Agora, porém, a velha Javari tenta conviver com palavras que durante muito tempo pareceram estranhas ao bairro: SAF, governança, projeção de receita, expansão comercial, naming rights, captação de investimento.
Nesta quarta-feira, às 19h15, na Fonte Luminosa, em Araraquara, o Juventus decide o título do Campeonato Paulista A2 diante da Ferroviária. Depois do empate sem gols no jogo de ida, na Rua Javari, a equipe da Mooca precisa vencer fora de casa para levantar a taça. A Ferroviária joga por um novo empate graças à melhor campanha geral. Independentemente do resultado, os dois clubes já garantiram vaga no Paulistão de 2027.
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Mas, para o Juventus, a decisão carrega um peso que vai além do futebol. Ela representa também o primeiro grande capítulo esportivo de uma transformação profunda iniciada em outubro do ano passado, quando o clube assinou o acordo de constituição de sua SAF.
O projeto prevê R$ 480 milhões em investimentos ao longo de dez anos. Em menos de uma temporada, o clube voltou à elite estadual após 19 anos distante da Série A1. O plano estabelece metas ambiciosas: disputar a Série C do Campeonato Brasileiro em 2028, alcançar a Série B em 2031 e chegar à Série A em 2035. Há ainda a previsão de participação em torneios continentais de base até 2033.
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A mudança começou pelo que o torcedor vê primeiro. O gramado natural da Rua Javari deu lugar ao sintético. O estádio Conde Rodolfo Crespi, hoje com capacidade para cerca de 5 mil pessoas, deve ser ampliado para 15 mil lugares. O projeto inclui ainda hotel para atletas, centro de fisioterapia, spa, academia de alto rendimento, restaurante e uma nova estrutura administrativa.
— O modelo de SAF representou uma virada na forma de gestão do clube, com mais organização, transparência e visão de futuro. Isso nos permitiu estruturar melhor o futebol, dar previsibilidade ao dia a dia e, ao mesmo tempo, reposicionar o Juventus no mercado — afirma Cláudio Fiorito, CEO do clube.
O Juventus passou a falar a língua do futebol moderno sem tentar abandonar completamente o sotaque da Mooca. O primeiro contrato de patrocínio máster após a transformação veio com a Pátria Cidadania, empresa especializada em processos de cidadania italiana e europeia, com atuação no Brasil, Itália e Portugal. A escolha da parceria mostra diálogo com a origem ítalo-brasileira do clube e com a história do bairro moldado pela imigração italiana ao longo do século XX.
— Desde o início, entendemos que a SAF precisava caminhar junto com a essência do Juventus. A ideia é modernizar a gestão e ampliar o alcance do clube sem perder as tradições que sempre fizeram do Juventus um time tão identificado com a sua comunidade — afirma Fiorito.
Os efeitos da nova gestão também apareceram nas arquibancadas. Em 2026, o clube registrou aumento de 36% na média de público, impulsionado por ações como ingressos gratuitos, ativações na Rua Javari e caravanas para jogos fora de casa.
Mas nenhuma transformação profunda acontece sem atrito.
A SAF do Juventus foi aprovada no ano passado por ampla maioria dos associados: dos 388 presentes na Assembleia Geral realizada no Salão Grená, 322 votaram a favor do novo modelo. Ainda assim, parte da torcida enxergou a mudança como uma ruptura cultural difícil de aceitar.
Pouco depois da formalização da Sociedade Anônima do Futebol, a torcida organizada Setor 2 anunciou a paralisação de suas atividades. Criada em meados de 2006, inspirada no modelo das barras bravas sul-americanas, a organizada havia surgido nos anos turbulentos em que o Juventus lutava contra o risco de rebaixamento no Campeonato Paulista.
Para muitos integrantes, a SAF representava uma descaracterização do clube.
— O Setor 2 não fará parte desta autodeclarada 'nova fase'. A reconstrução só poderia vir por meio da institucionalidade do clube, o verdadeiro detentor dessa história, e não pela entrega do patrimônio a alguém que vai explorar a estética, com foco em buscar unicamente resultados financeiros — informou a torcida em nota.

A nova estrutura também enfrentou turbulências antes mesmo de começar. Inicialmente, a Reag Capital Holding participaria do processo de captação de recursos do projeto, mas a empresa deixou a operação após se tornar alvo da Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal. A companhia nega irregularidades. Posteriormente, a Contea Capital assumiu o controle do projeto, enquanto a empresa de agenciamento de atletas P&P Sport Management passou a auxiliar na estruturação esportiva da SAF.
Dentro de campo, porém, o Juventus tenta transformar a desconfiança em resultado.
Depois de quase duas décadas longe da elite paulista, o clube volta a disputar uma decisão cercado por escavadeiras, planilhas financeiras, projetos arquitetônicos e metas de longo prazo — tudo isso sem deixar de carregar o apelido de Moleque Travesso. Na Mooca, o passado ainda resiste em cada esquina. Mas agora ele tenta aprender a conviver com o futuro.
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— A chegada à Série A1 potencializa o projeto em todas as frentes. Amplia a exposição do clube, fortalece o ambiente comercial e acelera novos investimentos, incluindo a modernização da Rua Javari — finaliza o CEO.
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