Da Série D à Champions League: Como vive ascensão meteórica após investimento milionário
Equipe italiana voltou à elite após 21 anos e garantiu presença no principal torneio da Europa sob o comando de Cesc Fàbregas

Há sete temporadas, o Como 1907 disputava a quarta divisão do futebol italiano. Hoje está entre os destaques da Chamíons League, ocupa a décima posição na fase de liga e vem de uma vitória por 4 a 1 sobre o Manchester United. O resultado reforça a dimensão alcançada pelo clube em um período relativamente curto, marcado por investimentos milionários, mudanças administrativas e uma aposta que se tornou central para o projeto: Cesc Fàbregas.
A transformação começou em 2019, quando o Como foi adquirido pelo Djarum Group, conglomerado indonésio ligado à indústria do tabaco. Desde então, o clube passou por uma reformulação estrutural, contratou jogadores de projeção internacional e construiu um elenco capaz de competir com equipes tradicionais do futebol europeu.
O cenário dessa nova fase é o Estádio Giuseppe Sinigaglia. Às margens do Lago de Como e com os Alpes italianos ao fundo, a casa do clube tem características diferentes das grandes arenas europeias. São aproximadamente 13,6 mil lugares em uma estrutura que preserva o perfil intimista, apesar das reformas realizadas para atender às exigências da Uefa.
A presença do Como na principal competição de clubes da Europa chama atenção também pelo passado recente da equipe. O clube enfrentou falências, passou por dificuldades administrativas e ficou 21 anos longe da primeira divisão italiana. Agora, com Fàbregas no comando, disputa espaço entre equipes de maior tradição e tenta transformar o investimento recebido em uma trajetória consistente no cenário internacional.
Neste especial, o Lance! conta como o Como saiu da quarta divisão para chegar ao principal torneio europeu, explica os fatores que impulsionaram sua ascensão e apresenta os personagens por trás de um projeto que também divide opiniões na Itália.
Da Série D ao retorno à elite italiana
A história recente do Como é marcada por dificuldades financeiras. O clube passou por falências, problemas administrativos e períodos longe das principais divisões do futebol italiano. A antiga estrutura foi liquidada em 2005, e a reconstrução exigiu tempo até que a equipe voltasse a ganhar espaço no cenário nacional.
Na temporada 2019/20, já sob a gestão do Djarum Group, o clube conquistou o acesso da Série D para a Série C. Permaneceu duas temporadas na terceira divisão e chegou à Série B em 2021, dando sequência ao processo de recuperação.
Um dos responsáveis pela reorganização foi Dennis Wise. Ex-capitão do Chelsea, o inglês chegou inicialmente como consultor e, posteriormente, assumiu os cargos de CEO e presidente. Em entrevista ao "The Guardian", ele contou que teve liberdade para montar a estrutura do clube e precisou trabalhar com limitações financeiras no mercado de transferências.
Em determinado momento, segundo Wise, o Como chegou a contar com 14 jogadores emprestados. A estratégia era buscar oportunidades no mercado e construir um elenco competitivo sem grandes desembolsos. A situação mudou gradualmente com o retorno à Série B e a aproximação de outros nomes conhecidos do futebol europeu.
Fàbregas chegou como jogador e virou protagonista do projeto
Antes da temporada 2022/23, o Como anunciou Cesc Fàbregas. Com passagens por Barcelona, Arsenal e Chelsea, o espanhol chegou para atuar em campo e também adquiriu uma participação minoritária no clube. Thierry Henry, seu antigo companheiro no Arsenal, também se tornou investidor.
Fàbregas disputou apenas uma temporada como jogador antes de encerrar a carreira, em 2023. Sua ligação com o clube, porém, estava longe de terminar. Ele passou pelas categorias de base e pela equipe reserva até chegar ao time principal.

A primeira experiência aconteceu como treinador interino, mas havia um obstáculo: o espanhol ainda não possuía a licença UEFA Pro, exigida para exercer oficialmente a função. Após um período com autorização especial, passou a integrar formalmente a comissão técnica de Osian Roberts.
A situação foi regularizada no verão europeu de 2024, quando foi admitido no curso de formação da Federação Italiana de Futebol e confirmado como treinador principal.
Naquele momento, o trabalho já apresentava resultados. O Como terminou a Série B de 2023/24 na segunda colocação e garantiu o retorno à primeira divisão, encerrando uma ausência de 21 anos na elite italiana.
O primeiro campeonato de volta à Série A terminou com a décima colocação, em 2024/25. A equipe conseguiu se manter na divisão e iniciou a temporada seguinte com um investimento ainda maior para disputar posições mais altas.
Investimento milionário mudou o patamar do Como
A evolução do clube também aparece nos valores movimentados no mercado de transferências. No verão europeu de 2024, o Como gastou mais de 160 milhões de euros em contratações, de acordo com o levantamento da Opta.
Para efeito de comparação, Parma e Venezia, os outros dois clubes promovidos à Série A naquela temporada, desembolsaram juntos aproximadamente 78 milhões de euros. O investimento do Como foi superior ao dobro do valor combinado pelas duas equipes.
Entre as contratações de destaque esteve Nico Paz, que chegou do Real Madrid. O argentino rapidamente ganhou espaço e se tornou uma das principais referências técnicas do elenco.
Os aportes continuaram em 2025. Na temporada 2025/26, o Como terminou o Campeonato Italiano na quarta colocação, com um ponto de vantagem sobre o Milan, e conquistou uma vaga na Liga dos Campeões.
O desempenho foi acompanhado por números expressivos. A equipe teve a melhor defesa da Série A, com apenas 29 gols sofridos, e marcou 65 vezes. No ataque, ficou atrás somente da Inter de Milão, campeã da competição, que balançou as redes 89 vezes.
Os números por trás do trabalho de Fàbregas
A campanha que levou o Como à Liga dos Campeões também teve a marca do estilo de jogo implementado por Cesc Fàbregas. A equipe terminou a Série A de 2025/26 com 61,6% de posse de bola, a maior média do campeonato.
O time também se destacou pela intensidade sem a bola. Os adversários conseguiram trocar, em média, apenas 9,1 passes antes de sofrer uma ação defensiva do Como, indicador que aponta para a força da pressão exercida pela equipe.
Outro dado relevante foi o número de gols marcados após recuperações no campo ofensivo. Foram dez na temporada, colocando o clube em um grupo de apenas oito equipes das cinco principais ligas europeias que alcançaram dois dígitos nesse fundamento.
A lista também contou com PSG, Bayern de Munique, Real Madrid, Liverpool e Barcelona. Os números ajudam a explicar a identidade de uma equipe que busca controlar as partidas com a posse de bola e pressionar para recuperar rapidamente o controle do jogo.
Nico Paz é um dos símbolos da evolução
Nico Paz representa uma parte importante da transformação esportiva do Como. O argentino se destacou pela capacidade de conduzir a bola, criar oportunidades e participar das ações ofensivas.
Na temporada 2025/26, tentou 136 dribles na Série A. O único jogador que superou a marca foi Kenan Yildiz, da Juventus, com 158 tentativas. Paz também terminou em terceiro lugar entre os atletas da competição em recuperações de posse de bola no terço final do campo, com 26.
O principal destaque, porém, apareceu na participação ofensiva: foram 18 envolvimentos diretos em gols. Nenhum outro meio-campista da Série A alcançou o mesmo número.
O desempenho reforçou a importância do argentino no sistema de Fàbregas e ajudou a colocar o Como entre as equipes mais competitivas do futebol italiano.

Crescimento do Como divide opiniões na Itália
A ascensão do clube não é recebida com o mesmo entusiasmo por todos no futebol italiano. O volume de investimentos e a velocidade da evolução esportiva alimentam questionamentos sobre o modelo de gestão adotado pelo Djarum Group.
Uma das críticas recorrentes é a percepção de que o Como seria um projeto voltado à exploração comercial e turística da região do Lago de Como, um dos destinos mais conhecidos da Itália. A localização privilegiada do estádio e a visibilidade internacional conquistada pelo clube também fazem parte desse debate.
Outro ponto de discussão é a utilização de jogadores italianos. Na temporada 2025/26, o Como concedeu apenas 14 minutos de jogo a atletas nacionais na Série A. O único representante foi Edoardo Goldaniga.
A diferença em relação às demais equipes foi expressiva. A Udinese, que registrou o segundo menor tempo de utilização de jogadores italianos no levantamento, ficou 5.485 minutos à frente do Como.
Os números melhoraram no início da temporada seguinte. Os italianos somavam 313 minutos em campo, contra 261 da Udinese e 39 do Venezia. A mudança, no entanto, ainda não encerrou as críticas sobre a composição do elenco.
A capacidade financeira dos proprietários também pesa na avaliação do projeto. Para parte dos críticos, o investimento do Djarum Group é um fator decisivo para explicar a chegada do clube à elite e à Liga dos Campeões em tão pouco tempo. A discussão passa pelo espaço que o poder econômico ocupa no futebol e pelas diferenças de condições entre as equipes italianas.
Como busca consolidar seu espaço na Europa
A vitória por 4 a 1 sobre o Manchester United é mais um capítulo da ascensão do Como. O resultado reforça a competitividade de uma equipe que, há poucas temporadas, estava na quarta divisão italiana e agora enfrenta adversários de grande tradição no futebol europeu.
Na fase de liga da Champions, o clube ocupa a décima posição e segue na disputa por uma vaga direta nas oitavas de final. Os oito primeiros colocados avançam automaticamente, enquanto as equipes que terminarem entre o nono e o 24º lugares disputam os playoffs.
O próximo compromisso será contra o Lens, fora de casa. A partida representa uma nova oportunidade para o time de Cesc Fàbregas somar pontos e melhorar sua posição na classificação.
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