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Treinadora e mentora de atletas, Denise Fernandes defende visão humanizada do esporte

Técnica fala sobre formação, gestão humanizada e reafirma o sonho de comandar uma Seleção Brasileira

Giselly Correa Barata
São Paulo (SP)
Dia 16/01/2026
15:34
Atualizado há 2 minutos
Denise Fernandes levanta troféu da Copa Paulistana. (Foto: reprodução/redes sociais)
imagem cameraDenise Fernandes levanta troféu da Copa Paulistana. (Foto: reprodução/redes sociais)

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Treinadora licenciada pela Conmebol, formadora de treinadores da FIFA, mentora de atletas e gestora esportiva, Denise Fernandes construiu uma trajetória que foge dos caminhos tradicionais do futebol brasileiro.

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Em entrevista exclusiva ao Lance!, ela revisitou a própria história, explicou sua metodologia de trabalho, defendeu uma visão mais humanizada do esporte e revelou que o grande objetivo de carreira segue sendo comandar uma seleção brasileira — feminina ou masculina.

Formada em Educação Física, Denise começou sua relação com o futebol como atleta, passando por diferentes modalidades, como futsal, futebol de campo, soccer e futebol universitário. Embora nunca tenha vivido exclusivamente do futebol como jogadora, foi o esporte que possibilitou sua formação acadêmica e abriu portas profissionais. Durante 23 anos, atuou na área escolar, como professora e coordenadora de esportes, com foco na formação de pessoas antes mesmo da formação de atletas.

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Esse olhar educacional marcou toda a sua trajetória. Inicialmente, o plano era seguir na carreira acadêmica, com especializações e mestrado, mas o futebol voltou a ganhar espaço de forma definitiva quando surgiu a oportunidade de atuar no PSG Academy. Ali, Denise começou a enxergar o trabalho como treinadora não apenas como extensão da escola, mas como um caminho profissional possível.

A virada mais profunda aconteceu no futebol feminino. Atuando em Natal, no Rio Grande de Natal, Denise se deparou com a ausência quase total de projetos estruturados para meninas. Foi nesse contexto que passou a defender que o futebol feminino "precisava mais dela do que ela precisava do futebol feminino". A partir desse incômodo, iniciou trabalhos de base, formação e desenvolvimento, pensando em trajetórias reais para atletas que, até então, não tinham sequer a possibilidade de sonhar.

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Esse processo levou Denise a buscar as licenças de treinadora. O que seria inicialmente apenas a Licença C se transformou em uma jornada acelerada de formação: entre 2021 e 2025, ela concluiu todas as etapas até chegar à Licença Pro, com validação da Conmebol. Paralelamente, realizou cursos de análise de desempenho, não apenas para executar a função, mas para compreender melhor o jogo e suprir lacunas comuns na estrutura do futebol feminino, onde muitas vezes o treinador acumula múltiplos papéis.

O reconhecimento veio rápido. Após concluir a Licença Pro, Denise recebeu o convite para fazer parte da formação de formadores de treinadores da Fifa, ampliando ainda mais seu impacto para além do campo. Para ela, formação não é um detalhe, mas uma condição básica para mulheres que desejam ocupar cargos de liderança no futebol. Denise destaca que o investimento financeiro é alto — uma Licença Pro pode custar cerca de R$ 30 mil — e que, para mulheres, o retorno costuma ser mais lento e desigual em comparação aos homens. Mesmo assim, ela defende que o caminho é inevitável.

— Se já é difícil entrar no mercado sendo mulher, sem formação é impossível — afirma. Denise conta que todo o investimento foi feito com recursos próprios, fruto de sua carreira na educação, abrindo mão de conforto, viagens e outras prioridades pessoais para sustentar um projeto de longo prazo.

Denise Fernandes na CBF Academy. (Foto: reprodução/redes sociais)
Denise Fernandes na CBF Academy. (Foto: reprodução/redes sociais)

Paralelamente à atuação como treinadora, Denise estruturou um trabalho de mentoria que vem ganhando cada vez mais espaço. O projeto nasceu de forma informal, a partir de demandas de atletas e famílias que buscavam orientação sobre carreira, bolsas de estudo, transições de categoria e profissionalização. Hoje, a mentoria atende crianças, atletas profissionais, treinadores e gestores no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos.

Para Denise, o futebol falha ao ignorar o indivíduo. Ela critica a lógica focada apenas em ganhar ou perder e defende que não existe jogo coletivo sem compreensão das trajetórias pessoais.

— Entre ganhar e perder, existe uma pessoa — resume. A mentoria, segundo ela, não segue fórmulas prontas: cada processo é personalizado, respeitando o momento, o desejo e até a possibilidade de desistência — algo que, na visão da treinadora, também precisa ser normalizado.

No campo, Denise se define por uma gestão humanizada e por um futebol orientado ao ataque. Ela não se apega a esquemas fixos, nem repete formações por convenção. No Grêmio Mauaense, por exemplo, comandou 14 jogos sem repetir estratégia, sempre adaptando o plano ao elenco disponível e ao adversário. Ainda assim, deixa claro que há princípios inegociáveis: pensar o jogo de forma vertical e manter o gol como objetivo central.

"Se eu tiver uma bola no jogo, ela precisa entrar", diz. Denise não se considera uma treinadora defensiva e acredita que atacar exige mais leitura, técnica e tomada de decisão do que simplesmente se proteger. Embora admita simpatia por sistemas mais clássicos, como o 4-4-2 com meia central, ela reforça que o futebol moderno exige flexibilidade e capacidade de adaptação constante.

Além do campo, Denise também se vê preparada para funções de coordenação e gestão. Com passagens por escolas, projetos de base e clubes, ela já atuou como coordenadora técnica e acumulou funções administrativas e esportivas. Para 2026, há conversas em andamento com clubes em nível profissional, mas Denise afirma que a escolha dependerá do projeto, não do status do cargo.

Apesar das múltiplas frentes, o sonho segue claro: comandar uma seleção brasileira. Denise não limita esse objetivo ao futebol feminino e defende que mulheres capacitadas devem ocupar espaços em qualquer contexto. Para ela, a mentoria, a formação de treinadores e o trabalho em clubes não competem entre si — são caminhos que se complementam. "Não estou redirecionando minha carreira, estou ampliando possibilidades", resume.

Denise Fernandes e Cristiane na Granja Comary. (Foto: Reprodução/redes sociais)
Denise Fernandes e Cristiane na Granja Comary. (Foto: Reprodução/redes sociais)
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