Sono, nutrição e prevenção: os bastidores que podem definir temporadas e carreiras no futebol
Ciência, tecnologia e rotina entram no centro do debate sobre longevidade no futebol

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O fantasma das lesões voltou a assombrar com força o futebol mundial. A perda de jogadores decisivos para partidas importantes, ou até para o restante da temporada, tornou-se um prejuízo esportivo e financeiro cada vez mais frequente. O desgaste deixou de ser exceção para virar regra, transformando a gestão física do elenco em prioridade estratégica nos bastidores dos clubes.
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Calendários apertados, viagens constantes e jogos decisivos em sequência são alguns dos pontos que contribuem para que jogadores convivam cada vez mais cedo com quedas físicas, lesões recorrentes e, em alguns casos, carreiras encurtadas.
A Espanha, por exemplo, não poderá contar com o atacante espanhol Samu Aghehow para a Copa do Mundo de 2026. O jogador do Sporting lesionou o ligamento cruzado anterior (LCA) e está fora da temporada. De uns tempos para cá, o número aumentou, o que ligou um alerta nos profissionais da saúde.
➡️Calendário, gramado e idade: a combinação por trás do aumento de lesões no futebol
Diante desse cenário, a biomédica Ursula Coelho, CEO da EON 2Life, conversou com o Lance! sobre a mudança cultural que considera necessária na forma como clubes e atletas encaram o cuidado com o corpo: menos reação e mais estratégia.
Na visão da empresária, o modelo ainda predominante no esporte é reativo — ou seja, o problema costuma ser tratado apenas quando já se manifesta, em vez de ser prevenido. A diferença entre render no limite e preservar a longevidade nem sempre está apenas nos treinos ou nas partidas, mas principalmente na forma como o corpo é cuidado ao longo da temporada.
Para ela, a discussão sobre alta performance passa a incorporar novos protagonistas. Sono, nutrição, monitoramento fisiológico e prevenção deixam de ser vistos como complementos e assumem papel estratégico na sustentação do desempenho e na ampliação da longevidade no esporte.
— Antes do treino, antes da recuperação, vem a base fisiológica. O esporte de alto rendimento estressa muito o corpo. Se a gente quer falar de longevidade, precisamos começar antes. Precisamos olhar para a rotina e para a nutrição. É ali que está o primeiro dominó — afirma.
Fora das quatro linhas, a ciência da nutrição e o monitoramento contínuo do organismo começam a ganhar espaço como ferramentas estratégicas para entender limites, evitar colapsos físicos e ampliar o tempo de alta performance, como é o caso da EON 2Life.
A healthtech brasileira é voltada ao monitoramento fisiológico e à personalização de estratégias de saúde e performance, atuando na frente preventiva integrando dados e acompanhamento individualizado para reduzir riscos e otimizar a disponibilidade dos atletas ao longo da temporada.
Longevidade começa na rotina — e não na lesão
Para Úrsula, o debate sobre alta performance precisa começar antes do primeiro sinal de desgaste. A motivação que a levou a empreender na área da saúde não partiu de um produto específico, mas de uma pergunta central: como ampliar a qualidade de vida e sustentar o rendimento por mais tempo sem depender apenas de intervenções corretivas?
A resposta, segundo a biomédica, exigiu inverter a lógica tradicional do esporte de alto rendimento. Em vez de focar apenas na performance máxima, que frequentemente empurra o corpo ao limite, o olhar passou a se concentrar na base que sustenta essa performance: sono, nutrição, rotina e leitura constante dos sinais fisiológicos.
— Não dá para prometer que alguém vai viver mais anos. Mas é possível melhorar a qualidade desses anos. E isso começa com sono, alimentação e acompanhamento contínuo do corpo — explica.
O modelo defendido por ela parte da ideia de que o organismo funciona como uma "bateria", que precisa ser recarregada adequadamente para manter o nível de entrega. O sono aparece como pilar inicial, por ser determinante na recuperação muscular, na regulação hormonal e na consolidação cognitiva. Movimento, alimentação equilibrada e monitoramento individualizado complementam essa estrutura.
A proposta, segundo a biomédica, não é transformar atletas em máquinas, mas reduzir falhas invisíveis que, acumuladas ao longo da temporada, comprometem rendimento e aumentam o risco de lesões.
Nutrição ainda é vista como coadjuvante
Apesar da evolução das estruturas médicas nos grandes clubes, a nutrição ainda não ocupa papel central na estratégia esportiva, avalia a especialista. Muitas vezes, o foco permanece em áreas mais visíveis, como preparação física e fisioterapia, enquanto a alimentação é tratada como complemento.
Em um cenário de jogos a cada três dias, pequenas falhas na recuperação podem gerar impactos cumulativos. Inflamações leves, queda imunológica e fadiga persistente nem sempre são percebidas imediatamente, mas influenciam o rendimento ao longo da temporada.
A disponibilidade do elenco, aliás, tornou-se um diferencial competitivo. Ter mais atletas aptos em momentos decisivos pode alterar, inclusive, a estratégia tática de uma equipe, ampliando opções e reduzindo improvisações forçadas por desfalques.
— Quando você tem um time performando bem ao longo do campeonato e conseguindo sustentar sua energia por mais tempo, por meio de controle e acompanhamento, isso faz diferença. Se você chega ao fim da temporada com o elenco inteiro disponível, a sua estratégia tática muda completamente. Justamente nos jogos mais decisivos, poder contar com todos os atletas altera inclusive a forma de jogar dentro de campo. Eu vejo que esse olhar para a saúde, para a nutrição e para o acompanhamento das microvariações fisiológicas dos atletas pode ter um impacto muito maior do que hoje é considerado.
— Ainda se olha muito para o jogador de forma isolada: "esse atleta está jogando mais tempo". Mas, quando isso se reflete no time inteiro, o quanto os clubes não se beneficiariam? As temporadas estão cada vez mais longas, densas e com intervalos muito curtos entre um jogo e outro. É preciso ter uma recuperação muito rápida. O clube que conseguir olhar para isso e chegar ao fim do campeonato com o elenco completo terá uma vantagem estratégica muito superior. O atleta não desaprende a jogar ao longo da temporada; o que acontece é fadiga. Então, mesmo que você não tenha o elenco mais brilhante, mas tenha o elenco com maior capacidade e potencial físico para jogar, você estará muito à frente de outros times — concluiu.
Saúde intestinal ainda é tabu
Um dos pontos pouco debatidos no futebol é a saúde intestinal. Viagens internacionais, mudanças de fuso horário, variações alimentares e níveis elevados de estresse afetam diretamente o funcionamento do intestino, órgão ligado à absorção de nutrientes, à resposta imunológica e até a aspectos relacionados ao foco e ao humor.
O caso mais recente visto no futebol brasileiro foi o do goleiro Cássio, que precisou se ausentar por minutos da partida entre Betim e Cruzeiro, no início do mês de fevereiro, pelo Campeonato Mineiro, por sofrer um desconforto estomacal em campo.
Assim como Cássio, outros jogadores também foram afetados por problemas intestinais. Alguns deles são o volante Gerson, em 2024, que precisou desfalcar a Seleção Brasileira durante treinamento em Salvador, e Diego Costa, em 2014, que perdeu jogos importantes de Champions League e Premier League após ser internado com um "severo vírus estomacal".
Segundo Úrsula, essa dimensão ainda é subestimada no esporte profissional. A ausência de um acompanhamento mais detalhado pode contribuir para oscilações físicas, maior vulnerabilidade a infecções e quadros recorrentes de indisposição ao longo do calendário.
Alerta para a categoria de base
A preocupação não é restrita apenas a jogadores profissionais. Ela também se estende às categorias de base. Em fase de crescimento físico e hormonal, adolescentes estão mais vulneráveis a déficits nutricionais que podem impactar desenvolvimento muscular, recuperação de lesões e até consolidação da carreira.
— Muitas vezes, o excesso de lesões na vida adulta começa em falhas acumuladas durante a formação — apontou.
O processo de recuperação física depende diretamente de reposição adequada de nutrientes. Sem estrutura nutricional consistente, o retorno ao alto nível tende a ser mais lento e menos eficiente.

Futebol feminino: quando a ciência ainda joga no masculino e desafia a realidade
No futebol feminino, o desafio ganha outra camada. Grande parte dos estudos em nutrição esportiva foi conduzida com base em organismos masculinos, o que gera protocolos padronizados que nem sempre consideram as variações hormonais femininas.
As oscilações naturais do ciclo menstrual influenciam metabolismo, retenção de líquidos, percepção de esforço e capacidade de recuperação. Ignorar essas variações pode levar a planejamentos menos eficazes e a interpretações equivocadas sobre queda de rendimento.
A personalização do acompanhamento, nesse contexto, surge como caminho para reduzir oscilações de performance e potencializar momentos de maior rendimento, respeitando as características fisiológicas de cada atleta.
Prevenção como estratégia: o jogo começa fora das quatro linhas
Em meio a investimentos milionários em contratações e infraestrutura, cresce nos bastidores dos clubes a percepção de que a vantagem competitiva pode estar além dos holofotes. Mais do que reforços de peso, a capacidade de manter o elenco disponível ao longo da temporada tem sido tratada como fator determinante para o sucesso esportivo - aí que entra o cuidado com a saúde de uma forma mais detalhada e monitorada.
Em calendários com competições simultâneas e jogos em sequência, reduzir o número de lesões e controlar oscilações físicas ampliam alternativas táticas e diminuem a necessidade de improvisações. A gestão da disponibilidade dos atletas passou, portanto, a integrar o planejamento estratégico de rendimento.
Nesse contexto, ferramentas de monitoramento fisiológico e acompanhamento contínuo do organismo vêm ganhando espaço no futebol profissional. Empresas da área de saúde esportiva, como a EON 2Life, citada na entrevista, refletem esse movimento de antecipação, que busca identificar sinais de desgaste antes que eles se transformem em lesões ou afastamentos.
A healthtech brasileira atua no monitoramento fisiológico e na personalização de estratégias de saúde e performance. Por meio de um aplicativo que analisa sinais vitais captados por wearables, a empresa transforma dados em insights práticos sobre como hábitos, rotina e alimentação impactam o corpo em tempo real. A proposta é integrar nutrição e tecnologia para oferecer uma leitura mais precisa do funcionamento do organismo, permitindo ajustes preventivos ao longo da temporada.
A lógica por trás dessa abordagem é direta: quanto menor o tempo de inatividade, maior a estabilidade do desempenho coletivo. No futebol atual, a preparação já não se restringe a treinos e partidas. A gestão da recuperação, do sono e do equilíbrio nutricional passou a integrar o debate estratégico sobre performance e resultados dentro de campo.
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