Bastidores do Pan Júnior: como os jovens atletas lidam com a saúde mental
Assunto tem ganhado relevância no esporte de alto rendimento

PARAGUAI - Em sua segunda edição, os Jogos Pan-Americanos Júnior reúnem os principais destaques do esporte olímpico com idades entre 12 e 23 anos. Ao longo de 15 dias de competição, os atletas lidaram com a busca por medalhas e vagas para os Jogos de Lima 2027, além das próprias cobranças para performar em alto nível e exibir suas melhores marcas. Nesse contexto, o trabalho psicológico e mental, assunto cada vez mais em destaque, ganhou atenção especial.
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Uma das mais experientes da delegação de 363 atletas enviados a Assunção para representar o Time Brasil, a nadadora Stephanie Balduccini tratou o tema com bastante seriedade. Aos 22 anos, ela já disputou duas Olimpíadas e, antes de chegar ao Paraguai para o Pan Júnior, viveu uma grande frustração no Mundial de Singapura, com um desempenho abaixo do esperado, sem se classificar às finais. Ela contou à reportagem do Lance! que buscou ajuda psicológica para atravessar o momento e lidar com as críticas.
— Só quem treina todo dia e tá lá todo dia sabe o quão frustrante é nós atletas irem pra nível mundial e não performar do jeito que quer. As pessoas querem criticar, mas por trás de tudo vocês têm que entender como é a mentalidade de um atleta de alto nível, as pessoas não dão valor a isso. Ao invés de o Brasil ficar unido, o pessoal pesa no outro, critica mais, e no final do dia isso acaba ainda mais com a nossa autoestima - disse Stephanie, que deixou o Pan Júnior com oito medalhas de ouro.
O velocista Matheus Lima, 22 anos, uma das principais revelações do atletismo brasileiro, também admitiu, durante o Pan Júnior, que tem enfrentado certa ansiedade para bater as próprias metas na pista. O atleta, que representou o país nos Jogos Olímpicos de Paris 2024 e foi medalhista de prata dos 400m com barreiras na Diamond League em 2025, era o grande favorito ao ouro da prova em Assunção e chegou a bater o recorde do evento nas eliminatórias, com marca de 48s23, mas não repetiu o desempenho na final e ficou com a medalha de prata.
Muito chateado após a conclusão da prova, Matheus ficou bastante tempo na pista absorvendo o momento e pediu um tempo antes de conversar com a imprensa. Depois, mais tranquilo, contou que tem se preparado muito e conseguido correr abaixo dos 48 segundos nos treinamentos, mas a ansiedade e a autocobrança têm dificultado que ele repita a performance nas competições.
— Eu tenho uma cabeça muito boa, quando eu quero um resultado, eu vou lá e consigo. Mas, ultimamente, eu tô querendo tanto, tanto, tanto que o resultado acaba não saindo. Mas, eu creio que quando eu menos esperar o resultado vai sair e com certeza vai ser um resultado muito bom, porque é o que eu treino todos os dias. O que eu tiro de lição dessa prova é pra relaxar, manter a cabeça no lugar, que quando eu menos esperar, o resultado vai sair - contou Matheus, que, além da prata nos 400m com barreiras, também foi medalhista de ouro no revezamento 4x400m.

Quebra de tabu e acesso à nova geração
Concentrada em um hotel mais afastado do centro de Assunção, a delegação brasileira contou com duas psicólogas, Larissa Dourado e Nathalia Cardoso, que trabalharam no apoio aos atletas. A base do Time Brasil em Assunção, à qual a reportagem do Lance! teve acesso, disponibilizou um espaço especial de acolhimento e saúde mental, com pufes e vista para o rio, para deixar o ambiente mais confortável.
Segundo o chefe de missão do Brasil, o ex-judoca Leandro Guilheiro, o tema da saúde mental tem ganhado mais destaque na nova geração, mas mesmo assim ainda é novidade para muitos atletas, que esbarram em questões de acesso ou preconceito. Com vasta experiência dentro dos tatames, Guilheiro aponta que o equilíbrio entre corpo e mente é fundamental para a alta performance do atleta.
— Nem todos os atletas tiveram acesso à psicologia em algum momento na vida. Tem muitos atletas que chegaram aqui e tiveram o primeiro contato com a psicóloga, por vários motivos, às vezes por uma questão de falta de infraestrutura, às vezes por causa de um preconceito que se tem, porque esse é um tabu que existe no esporte, tem muito atleta que acha que o trabalho psicológico é pra quem é maluco ou pra quem "amarela" na competição. Com esse primeiro contato, eles começam a entender que não, que é uma questão geral do ser humano, não dá pra dissociar o ser humano do atleta. Agora tem atleta que vai todo dia, que viciou no trabalho mental - declarou.
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Beatriz Pinheiro viajou a convite do Comitê Olímpico do Brasil (COB)
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