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Clubes adotam estratégias distintas na altitude; especialistas explicam o que funciona

Brasileiros precisam ir às alturas em jogos de Libertadores e Sul-Americana

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Marcio Dolzan
Rio de Janeiro (RJ)
Dia 14/04/2026
15:33
Robinho Jr. entrou no segundo tempo do duelo entre Deportivo Cuenca e Santos. (Foto: Fernando Machado/ AFP)
imagem cameraSantos encarou a 'correria' do Deportivo Cueca pela Sul-Americana (Foto: Fernando Machado/ AFP)

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O Mirassol disputará, na noite desta terça-feira (14), o primeiro jogo de sua história na altitude. A equipe enfrenta a LDU, em Quito, a 2.850 metros acima do nível do mar, a partir das 23h (de Brasília). Para minimizar os efeitos das condições adversas, o clube optou por viajar à capital equatoriana ainda no domingo (12), garantindo dois dias de aclimatação.

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A estratégia usada pelo time paulista difere das adotadas recentemente por Flamengo e Santos, que chegaram com apenas um dia de antecedência para jogos em Cusco (3.350m), no Peru, e Cuenca (2.530m), no Equador. Já a Seleção Brasileira, quando atua em El Alto, na Bolívia (4.150m), costuma desembarcar poucas horas antes da partida. Diante disso, surge a dúvida: afinal, qual é a melhor forma de enfrentar a altitude?

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Os efeitos da altitude no organismo dos atletas — ou de qualquer pessoa — são explicados pela diferença na pressão atmosférica em relação ao nível do mar. Isso impacta a disponibilidade de oxigênio no corpo, dificultando o desempenho físico.

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— O corpo começa a sofrer os efeitos da altitude acima de 1,6 mil metros. Na altitude, a pressão (e não a concentração) de oxigênio é menor. E a entrega de oxigênio do pulmão para as hemácias depende de uma diferença de pressão; como ela é menor na altitude, nós temos mais dificuldades de saturar, de fazer a ligação de oxigênio em nossas hemácias —, explica Daniel Carlos Garlipp, que é doutor em Ciências do Movimento Humano e professor dos cursos de Medicina e Educação Física da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra).

Para enfrentar essa diferença, o corpo humano precisa se adaptar, só que para grandes altitudes isso demandaria muitos dias, às vezes semanas — algo inviável em meio ao calendário apertado do futebol brasileiro, com jogos a cada três ou quatro dias.

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Existe estratégia ideal?

Segundo o médico do esporte Diogo Figueiredo, do Espaço Einstein Esporte e Reabilitação, as alternativas adotadas por clubes e pela Seleção Brasileira são, na prática, condicionadas mais por logística e preferências pessoais do que por evidências científicas de ganho de desempenho.

— Um estudo específico com ciclistas comparou a chegada 14 horas antes versus duas horas antes de competição a 2.500m, e não encontrou vantagem significativa em chegar apenas duas horas antes. A realidade é que não existe estratégia ideal de curto prazo. Para altitudes como Cusco e Cuenca, a estratégia ideal permanece sendo aclimatação gradual de seis a sete dias em altitude moderada (2.200-3.000m). Quando isso não é possível, a escolha entre chegar duas horas ou 14 horas antes deve ser baseada em logística, conforto psicológico e preferência individual, pois não há evidência robusta de superioridade fisiológica de uma sobre a outra — considera Figueiredo.

Garlipp concorda que "não há o que se fazer" em relação aos efeitos fisiológicos, mas aponta uma vantagem em chegar próximo ao horário da partida:

— Como não dá para chegar duas semanas antes, passaram a adotar algumas estratégias. Uma delas é chegar um pouquinho antes do jogo, jogar a partida e logo depois descer. Isso não vai resolver as questões fisiológicas, mas vai resolver as questões clínicas. Acima de seis horas na altitude, você começa a ter dor de cabeça, enjoo, vômito, diarreia, mal-estar, então o que esse está tentando é diminuir esses efeitos —, diz o professor da Ulbra.

Estádio Inca Garcilaso de La Vega Cusco
Flamengo jogou no Estádio Inca Garcilaso de La Vega, em Cusco, a 3.350 m (Foto: Reprodução)

Altitude como 'arma secreta' em campo?

Durante a vitória do Deportivo Cuenca sobre o Santos, na semana passada, o técnico Jorge Célico foi flagrado incentivando seus jogadores a aumentarem o ritmo para "explorar a dificuldade" dos brasileiros na altitude. Segundo o comandante, o time precisava "corre mais", pois os adversários "não aguentam a altitude".

A orientação faz sentido do ponto de vista fisiológico. De acordo com os especialistas Diogo Figueiredo e Daniel Garlipp, atletas não adaptados tendem a se desgastar mais rapidamente, já que o corpo precisa trabalhar em maior intensidade para compensar a menor disponibilidade de oxigênio.

— O que o técnico do Deportivo Cuenca fez está muito certo. Vamos pensar do ponto de vista de rendimento: se eu, você, subirmos à altitude e já vamos ter esse sofrimento fisiológico, vamos aumentar a frequência cardíaca, a pressão arterial, a frequência e o volume respiratório para conseguir minimizar esses efeitos, imagina na hora de fazer exercício! O corpo vai precisar de mais oxigênio, de "consumo de oxigênio", e como temos mais dificuldade de captar por causa dessa diferença de pressão, o atleta sofre mais. Então, o que se faz? Se cansa o atleta que não está acostumado com uma correria louca, porque no segundo tempo ele vão estar acabados — ressalta Garlipp.

— Esta estratégia tem fundamento fisiológico. Atletas não aclimatados tem fatigabilidade periférica maior que ao nível do mar mesmo após aclimatação quando o exercício envolve corpo inteiro. Atletas nativos de altitude ou completamente aclimatados demonstram desempenho superior e menor grau de fatigabilidade neuromuscular comparado a atletas aclimatados vindos do nível do mar — observa Figueiredo.

Reforço de oxigênio: ajuda?

Na recente viagem a Cusco, o Flamengo ficou hospedado em um hotel que oferecia reforço de oxigênio nos quartos através de dutos de ar.

— A estratégia do Flamengo em Cusco tem fundamento científico. A estratégia do hotel com quartos enriquecidos com oxigênio funciona para melhorar o sono e o conforto, mas não há evidência controlada de que melhore o desempenho atlético no dia seguinte. Para uma estadia curta como a do Flamengo, o benefício mais provável é a melhora na recuperação noturna, o que indiretamente pode ajudar, mas não substitui a aclimatação adequada — avalia Diogo Figueiredo.

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