Dia do Goleiro: conheça Líria Lúcia, primeira goleira negra do Inter

Aos 61 anos, ex-jogadora revive memórias e celebra a evolução do futebol feminino

PorGiselly Correa BarataSão Paulo (SP)
26/04/2025 14:24
Atualizado em 26/04/2025 16:29

Supervisionado porGiselly Correa Barata,
liria-lucia-goleira-internacional-rs-aspect-ratio-512-320
Líria Lúcia, goleira do Inter, tem história contada museu do clube, localizado no Beira-Rio.

Líria Lúcia, 61 anos, foi a primeira goleira do Internacional nas décadas de 1980 e 1990, pouco após a regulamentação do futebol feminino no Brasil, em 1983, pelo Conselho Nacional dos Desportos (CND). Naquela época, as atletas contavam apenas com ajudas de custo e muita vontade de jogar. Ser jogadora sequer era considerado uma profissão. Para uma mulher negra e de baixa estatura, ainda mais difícil.

— Eu não tive incentivador. Meu pai era pugilista e preferia que eu aprendesse boxe como ele, em vez de jogar futebol. Muitas vezes, treinava escondida. Quando ele descobriu, me chamou e disse que não me incentivaria em nada, nem mesmo com passagem para treinar. Então, tive que fazer tudo por mim mesma — lamenta Líria.

continua após a publicidade

Antes do futebol, ainda na escola, ela se dedicou ao handebol, sempre atuando no gol. A paixão pelo esporte com os pés surgiu ao observar os irmãos, também atletas. Um dia, ao ser convidada para defender o gol em um jogo de futsal, impressionou pela habilidade.

— Descobri que o Inter tinha futebol feminino, fiz um teste, fui aprovada e comecei a jogar com as gurias — relembra.

Com uma bicicleta e passando por baixo das roletas dos ônibus, Líria saía da escola direto para o Estádio Beira-Rio, em Porto Alegre. Logo uniu a paixão pelo esporte ao amor pelo clube do coração, numa época em que ser jogadora significava disputar campeonatos com "camisetas emprestadas".

continua após a publicidade

Parte da história de Líria está registrada no Museu do Inter, fruto da pesquisa sobre o futebol feminino do clube, conduzida pela pesquisadora Anna Laura Chepp.

➡️ História do Futebol Feminino no Brasil

Líria Lúcia, primeira goleira do futebol feminino do Internacional, em jogo de futsal. Foto: Divulgação/Museu do Inter

Foto: Divulgação/Museu do Inter

O presente de Taffarel à primeira goleira do futebol feminino do Internacional

Líria guarda com carinho uma lembrança com Taffarel, ídolo da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1994 e goleiro do Inter entre 1985 e 1990.

continua após a publicidade

— Ele me viu treinando e perguntou ao treinador por que eu estava sem luvas — conta. Foi então que ganhou de Taffarel sua primeira luva "Palma Chiclete", famosa por melhorar a aderência e evitar que a bola escorregue.

No time profissional do Inter, viu novas mulheres negras chegarem. Se, no início, eram duas, o número aumentava a cada ano. "Pelézinho", "Michael Jackson" e "Neguinha", elas eram todas renomeadas, em uma convivência marcada por companheirismo e apoio mútuo.

continua após a publicidade

Sobram memórias de viagens pelo Brasil. Em uma delas, no interior gaúcho, o ônibus colorado ficou preso em uma barreira de caminhões, sob risco de perderem um jogo por WO. Surgiu, então, o desafio: se vencessem o time de caminhoneiros, poderiam cortar o engarrafamento e seguir caminho. Não deu outra: as atletas do Inter triunfaram e seguiram viagem.

➡️ Siga o Lance! no WhatsApp e acompanhe em tempo real as principais notícias do esporte

Debaixo das traves

Líria Lúcia recusa o título de referência no futebol feminino. Prefere sempre destacar suas colegas de time. Com 1,55m de altura — baixa para os padrões da posição —, a "Neguinha", como era conhecida, precisava se superar.

continua após a publicidade

— A única coisa que me tirava da titularidade era minha altura, mas eu treinava muito para mostrar ao treinador e à equipe que tamanho, naquela época, não era documento — reforça a ex-goleira.

Com a camisa colorada, conquistou quatro títulos do Campeonato Gaúcho (1985, 1986, 1996 e 1997) e também brilhou no futsal. Foi vice-campeã brasileira em 1987 pelo futebol de campo. Atualmente, continua frequentando o Beira-Rio, seja nas arquibancadas ou em comemorações, como a promovida pelo clube na última sexta-feira (25), em alusão ao Dia do Goleiro.

continua após a publicidade
Ficha técnica de Líria Lúcia. Foto: Divulgação/Museu do Inter

Foto: Divulgação/Museu do Inter

Futebol feminino em novo momento

Em 2024, Líria, moradora do bairro Farrapos, em Porto Alegre, foi uma das vítimas das enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul, perdendo todos os seus pertences. Mais uma vez, o futebol entrou em cena: através de campanhas de solidariedade, recebeu apoio de torcedores e atletas.

A ex-goleira celebra a expansão do futebol feminino no Brasil, que, para ela, está mais descentralizado e acessível do que nas décadas passadas. Líria também destaca a importância da renovação na Seleção Brasileira.

continua após a publicidade

— A Seleção não pode ficar só nos nomes antigos. É preciso dar mais oportunidades para as novas atletas, porque muitas jovens estão indo jogar fora do Brasil — afirma.

Atualmente, Líria trabalha como auxiliar de serviços gerais e realiza entregas pelas ruas de Porto Alegre. Vez ou outra, é convidada para treinar jovens goleiras no bairro onde vive. Sobre sua ligação com o futebol, é categórica: pretende mantê-la "até quando tiver forças".

continua após a publicidade
Sugerida para você!

Mais LANCE!