Do litoral do Paraná à Europa: a Soxxer e a formação no futebol feminino
Projeto social acompanha mais de 200 meninas em três países e aposta na formação antes dos clubes

Antes de existir contrato, peneira ou centro de treinamento, existe um campo emprestado, uma quadra de bairro, um uniforme compartilhado e uma chance rara: a de continuar no esporte. É nesse espaço anterior ao clube, quase sempre invisível, que projetos sociais como a Soxxer atuam para manter meninas no futebol e criar alternativas reais de formação, dentro e fora das quatro linhas.
Fundada há cerca de três anos, a Soxxer nasceu da inquietação de Roberto Bonnet, ex-dirigente ligado ao Athetico Paranaense, que decidiu investir no futebol feminino quando o cenário ainda era incipiente no Brasil. A proposta era clara desde o início: não criar apenas uma escolinha, mas estruturar um projeto que acompanhasse as atletas em toda a jornada, da iniciação ao alto rendimento, passando também por outras possibilidades no esporte.
– Eu não queria uma escolinha de bandeira. Queria algo diferente, que fosse pensado exclusivamente para o futebol feminino, num momento em que quase ninguém fazia isso – explica Bonnet.
O próprio nome do projeto carrega esse conceito. A partir da palavra soccer, Bonnet retirou o "CC" e inseriu dois "X", em referência aos cromossomos femininos. Assim surgiu a Soxxer, pensada desde o início como um espaço delas para elas.
O projeto ganhou forma com a chegada de Camila Galimbert Gozzi, profissional com passagem pelo futebol feminino do Corinthians, e começou sua atuação fora dos grandes centros tradicionais. A primeira unidade foi implantada em Pontal do Paraná, no litoral do estado, em parceria com o Instituto União e Vida.
Hoje, são mais de 50 meninas treinando regularmente na cidade, com estrutura viabilizada por apoio direto do projeto, que banca uniformes e ajuda na logística.
– Curitiba ainda é uma cidade muito tradicional. O futebol feminino começou a estourar agora, mas há três anos era muito mais difícil – contextualiza.
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Do litoral do Paraná ao norte de Londres
A Soxxer rapidamente ultrapassou fronteiras. Em 2023, o projeto chegou ao norte de Londres, em parceria com a ONG britânica Thru Life, numa região marcada pela presença de imigrantes e vulnerabilidade social. Cerca de 30 meninas, muitas delas vindas da África, Índia, Paquistão e América Latina, passaram a treinar gratuitamente.
– É a única escola de futebol feminino brasileira na Inglaterra. Nem no masculino existe algo parecido – destaca Bonnet.
O projeto em Londres funciona em ciclos semestrais e recebe anualmente uniformes e ajuda de custo enviados do Brasil. A proposta, assim como nas outras unidades, vai além da formação esportiva e se apoia na ideia de pertencimento, permanência e acesso.

Formação completa, do social ao competitivo
Diferente de iniciativas restritas à iniciação, a Soxxer decidiu estruturar um processo completo. A lógica, segundo Bonnet, é simples.
– Se eu tenho as meninas, eu não preciso ficar procurando clube. Eu encaixo no meu próprio projeto e oportunizo dentro dele ou com parceiros que acreditam no que a gente faz.
No Brasil, a Soxxer apostou no futsal feminino em Palotina, no oeste do Paraná, região onde a modalidade é forte e estruturada. O time reúne cerca de 30 atletas, já conta com apoio de patrocinadores locais e disputará a Série Prata estadual em 2025.
No futebol de campo, o passo seguinte foi internacional. A Soxxer fechou parceria com o Lanhelas FC, clube do norte de Portugal, e entrou diretamente na quarta divisão portuguesa, com equipes sub-15 e sênior. Ao todo, são cerca de 40 atletas no país.
Apesar da estrutura mais organizada em relação ao Brasil, Bonnet se diz surpreso com a baixa remuneração no futebol feminino português.
– Tem clube grande pagando 400 euros por mês. É ajuda de custo. Ainda é um mercado muito conservador – afirma.
Quantas meninas, onde e como treinam
Atualmente, a Soxxer impacta diretamente mais de 220 meninas em três países. Em Pontal do Paraná, são cerca de 50 atletas, com treinos aos sábados. Em Colombo, na região metropolitana de Curitiba, outras 30 treinam três vezes por semana. A capital paranaense reúne mais 20 atletas. Palotina conta com aproximadamente 30 meninas no futsal. Em Portugal e na Inglaterra, são cerca de 30 atletas em cada núcleo.
A rotina varia conforme a realidade local, mas a prioridade é garantir regularidade de treinos, participação em jogos e competições, além de acompanhamento humano, mesmo quando a atleta não seguirá carreira profissional.
– Nem todas vão virar jogadoras. Algumas vão para a universidade, outras para áreas como educação física, fisioterapia ou gestão esportiva. O importante é que o esporte não seja um fim abrupto – explica.
Sustentabilidade é o maior desafio
Como a maioria dos projetos sociais no futebol feminino, a Soxxer enfrenta dificuldades constantes para se manter. Não há patrocínios de longo prazo. A sobrevivência depende de doações pontuais, campanhas, rifas e apoio de pais e parceiros.
– Existe uma visão errada de que futebol feminino é caridade. Que as meninas têm que jogar de graça, por um quilo de alimento. Isso é vergonhoso – critica Bonnet.
O projeto aceita doações de pessoas físicas e jurídicas, de qualquer valor. Os recursos são usados para compra de uniformes, chuteiras, transporte, alimentação, absorventes e melhorias estruturais. A ex-jogadora Dayane Moretti, com passagem pela Seleção Brasileira, é uma das embaixadoras da Soxxer.
Copa do Mundo de 2027: expectativa contida
Apesar de o Brasil sediar a Copa do Mundo Feminina em 2027, Bonnet adota um discurso cauteloso sobre o impacto real do evento no futebol de base.
– Se não mudar a mentalidade, vai mudar muito pouco. O legado não pode ser só estádio. Tem que ser valorização, salário digno e continuidade – analisa Roberto.
Para ele, a Copa deveria servir como motor para formar mulheres em todas as áreas do esporte.
– Técnicas, preparadoras, gestoras, fisioterapeutas. Hoje, 90% dos técnicos ainda são homens. Essa lógica precisa ser invertida – finaliza ele.
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