William Correia
17/06/2018
05:30
São Paulo (SP)

Atualmente, com Cristiano Ronaldo, cinco vezes o melhor do mundo, e Portugal aparecendo 37 lugares acima do Marrocos no ranking da Fifa (4º contra 41º), parece inimaginável uma derrota dos europeus para os africanos no jogo desta quarta-feira, em Moscou. Mas os dois times já se enfrentaram em uma Copa do Mundo, há 32 anos, e os lusos perderam por 3 a 1, sendo eliminados logo na fase de grupos.

O jogo aconteceu na Copa do Mundo de 1986, no México. Naquele 11 de junho, em Guadalajara, o técnico de Marrocos era um brasileiro que fez história no país africano: José Faria, atacante carioca que defendeu Bonsucesso, Fluminense e Bangu até encerrar sua carreira aos 27 anos e, nos anos 1980, marcou seu nome comandando equipes marroquinas e a seleção local.

José Faria faleceu em 8 de outubro de 2013, no Marrocos. Mas teve tanta importância que, três dias antes de morrer, recebeu um jogo em sua homenagem envolvendo entre ex-jogadores da seleção e do Real Madrid. Ficou marcado um abraço que ele, aos 80 anos de idade, recebeu de Fernando Hierro, ex-zagueiro que, hoje, é técnico da Espanha.

Do outro lado, Portugal voltava a disputar uma Copa do Mundo depois de 20 anos. A sua primeira participação, em 1966, tinha sido histórica, chegando à terceira colocação e com Eusebio como artilheiro, com nove gols. E a geração lusa do Mundial de 1986 gerava grandes expectativas porque foi semifinalista da Euro de dois anos antes e se classificou para o torneio no México batendo a Alemanha (que viria a ser vice-campeã mundial), fora de casa, por 1 a 0. Mas aquele time teve uma série de problemas nos bastidores que culminou em uma precoce eliminação.

Em Portugal, a participação no Mundial de 1986 é conhecida como Caso Saltillo, nome da cidade mexicana que abrigou a seleção. Os problemas começaram já na convocação, com a ausência de Jordão, herói na Euro de 84, e Manuel Fernandes, artilheiro da liga nacional. Para piorar, o defensor Veloso foi cortado porque foi detectado um esteroide anabolizante em seu exame antidoping, mas em situação controversa, já que a contraprova deu negativo.

O Caso Saltillo é tão famoso que há livros sobre ele, apontando uma seleção, que já sofria com jogadores de Porto e Benfica sem se falar, ainda mais dividida com essas ausências. Mas uniram-se em protesto à Federação Portuguesa de Futebol, queixando-se da viagem com escalas cansativas em Alemanha e Estados Unidos antes de chegar ao México, hospedagem em quartos cheios de barata e do local de treinamento, com um campo inclinado - atletas da época chegam a relatar que a bola ia de um gol a outro sem ser tocada por ninguém.

Mas a principal reclamação era econômica. Os jogadores queriam um prêmio maior, condizentes à participação do que a federação recebia de cotas publicitárias. Em protesto, alguns deles treinavam com os uniformes do avesso ou até sem camisa, escondendo o nome das patrocinadores da seleção.

Já os dirigentes apontavam indisciplina, com relatos de jogadores se envolvendo com mulheres locais, incluindo prostitutas, o que causou também problemas com suas famílias, em Portugal. Em meio a tudo isso, oito dos 22 jogadores acabaram afastados pela federação, em meio à competição, e houve até ameaça de abandono da Copa do Mundo.

Apesar de tudo isso, a estreia foi boa, com uma surpreendente vitória por 1 a 0 sobre a Inglaterra. Mas, em um treino antes do segundo jogo, o goleiro titular Manuel Bento se machucou. Sem ele, Portugal perdeu por 1 a 0 para a Polônia e foi dominada por Marrocos, a surpresa da Copa. Os africanos fizeram dois gols no primeiro tempo, com Khairi, e abriram 3 a 0 aos 17 minutos da etapa final, com Krimau. Os lusos descontaram apenas aos 34, com Diamantino, amargando um 3 a 1 e a frustrante eliminação.

A queda na primeira fase foi ainda mais dura porque, no regulamento daquele Mundial, com 24 seleções divididas em quatro grupos, passavam os dois líderes de cada chave e os quatro melhores terceiros colocados. E Portugal foi o único de seu grupo a ser eliminado, sendo o único a perder e sofrer gol dos marroquinos ao longo de todo o Mundial.

Marrocos surpreendeu, atingindo a liderança, com quatro pontos - na época, a vitória valia dois pontos, e os africanos bateram Portugal, segurando 0 a 0 diante da Polônia, na estreia, e da Inglaterra. Nas oitavas de final, perderam por 1 a 0 para a Alemanha, com gol de Lothar Matthaus, aos 43 minutos do segundo tempo.

Obviamente, toda essa história não deve ter influência no confronto das 9h (horário de Brasília) desta quarta-feira, em Moscou. De qualquer forma, Portugal, que estreou empatando por 3 a 3 diante da Espanha, não pode ser eliminado já nesta segunda rodada: tem um ponto no Grupo B e, como Espanha (um ponto) e Irã (três pontos) se enfrentam, ao menos um dos dois poderá ser alcançado pelo time de CR7 no último jogo da fase. Marrocos, por sua vez, perdeu na estreia por 1 a 0 para o Irã, graças a gol contra nos acréscimos, e pode, sim, ficar sem chances de avançar caso perca dos lusos.

Veja a ficha técnica do primeiro duelo entre Portugal e Marrocos em Mundiais:

FICHA TÉCNICA
PORTUGAL 1 X 3 MARROCOS

Local:
Tres de Marzo, Guadalajara (México)
Data-Hora: 11/6/1986 - 16h
Árbitro: Alan Snoddy (Irlanda do Norte)
Auxiliares: Valeri Butenko (Rússia) e Volker Roth (Alemanha)
Público: 28.000 presentes
Cartões amarelos: Gomes (POR)
Cartões vermelhos: -
Gols: Khairi (19'/1ºT) (0-1), Khairi (27'/1ºT) (0-2), Krimau (17'/2ºT) (0-3), Diamantino (34'/2ºT) (1-3)

PORTUGAL: Damas; Álvaro (Águas, aos 10'/2ºT), Frederico, Oliveira e Inácio; Pacheco, Jaime Magalhães, Antonio Sousa (Diamantino, aos 24'/2ºT) e Carlos Manuel; Gomes e Futre. Técnico: José Torres.

MARROCOS: Zaki; Khalifi, El Biaz, Bouyahyaoui e Lemriss; Dolmy, El Haddaoui (Souleymani, aos 26/2ºT), Timoumi e Khairi; Bouderbala e Krimau. Técnico: José Faria.